"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 4 de julho de 2023

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (11): A Transformação do Culto: Do Formalismo à Espontaneidade.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (10): A Transição Divina: Do Velho para o Novo Acordo.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (9): A Busca Pela Liberdade.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (9): A Busca Pela Liberdade.

O primeiro sábado livre tinha gosto de café com açúcar. Parece pouco — e eu sei que parece. Afinal, para quem nunca viveu dentro de um sistema capaz de regulamentar até o conteúdo de uma xícara numa manhã de descanso, talvez seja difícil compreender o peso que cabe em gestos tão simples. Mas, naquela manhã, o café era mais do que café. Era símbolo. Era ruptura. Era a pequena bandeira da autonomia fincada sobre anos de obediência automática.

Sem culpa, sem vigilância e sem o olhar oblíquo de quem mede a espiritualidade alheia pela aparência, sentei-me na varanda com minha xícara fumegante e fiquei observando o quintal despertar. O canto dos pássaros parecia mais nítido, o vento mais leve. O café esfriou antes que eu terminasse de beber, mas, pela primeira vez em muito tempo, não havia pressa alguma. E foi ali, naquele silêncio comum e extraordinário ao mesmo tempo, que percebi estar praticando algo que havia se tornado raro na minha vida: a liberdade.

Paulo escreveu algo que levei décadas para compreender de verdade: "onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade" (2 Co 3:17). Durante anos reli esse versículo dentro do sistema. Tantas vezes, aliás, que as palavras perderam o sabor, como uma moeda manuseada por tantas mãos que já não conserva seus contornos originais. Eu o conhecia de memória, mas não de experiência. Só depois que saí é que seu significado voltou a pulsar diante dos meus olhos. Porque, dentro daquele ambiente, o Espírito era frequentemente invocado para justificar o controle, não para promover a liberdade. Era o nome de Deus funcionando como selo de aprovação sobre regras que, muitas vezes, nasciam muito mais do medo humano do que da graça divina.

Com o tempo, comecei a notar mudanças que pareciam pequenas, mas carregavam uma profundidade imensa. Lembro da primeira vez que escolhi uma roupa sem submetê-la ao tribunal invisível da aprovação congregacional. Lembro do domingo em que dormi até mais tarde sem sentir aquela culpa automática de quem foi treinado para acreditar que descanso é uma forma disfarçada de negligência espiritual. Lembro também do dia em que expressei uma discordância sobre uma interpretação bíblica. Não por rebeldia, nem por vaidade intelectual, mas simplesmente porque estava pensando. E, para minha surpresa, não senti o estômago se contrair esperando alguma punição invisível.

Foi então que compreendi algo desconfortável: cada uma dessas conquistas aparentemente banais revelava o quanto eu havia sido reduzido sem perceber. Quando o direito de pensar, descansar, escolher ou questionar se transforma em privilégio, é sinal de que a liberdade já foi embora há muito tempo.

Mas, ela voltou. Não chegou como um trovão rasgando os céus nem como uma revelação cinematográfica. Veio de mansinho, quase sem fazer barulho. Foi como o ar mudando de textura ao redor de quem passou anos respirando em ambiente fechado. A princípio, a diferença mal se percebe. Então, de repente, você se dá conta de que está respirando fundo outra vez.

A liberdade chegou nos finais de tarde contemplados sem relógio. Nos pores do sol vistos sem a ansiedade da próxima reunião. Nas horas vazias que antes eram consideradas perigosas, mas que acabaram se tornando espaço para reflexão, descanso e reencontro comigo mesmo. Chegou na redescoberta de que Deus não habita apenas agendas lotadas e compromissos religiosos; Ele também se manifesta nos intervalos, nas pausas e nos silêncios.

E talvez essa tenha sido a descoberta mais difícil — e mais necessária — de toda a jornada: a liberdade é intransferível. Ninguém sai por você. Ninguém atravessa a porta em seu lugar. Ninguém carrega sua bolsa até a saída. Outras pessoas podem aconselhar, inspirar ou até estender a mão. Mas, a decisão de caminhar continua sendo profundamente pessoal. Há travessias que só podem ser feitas com os próprios pés.

Por isso, hoje, quando releio as palavras de Paulo, elas já não soam como uma frase decorativa impressa numa página antiga. Soam como testemunho. "Onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade." Não no manual. Não no envelope. Não na aprovação dos homens. Mas, na consciência em paz. Na varanda silenciosa. Na brisa da manhã. Na xícara de café. No sábado que, finalmente, voltou a ser meu.

CiFA

— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de manhãs lentas para quem aprendeu que descansar também é sagrado.

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (8): A Minha Jornada de Libertação.

 


segunda-feira, 3 de julho de 2023

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (7): Entre Denominações e Escolhas.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (6): Entre Fios e Voltas.