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MINHAS PÉROLAS

sábado, 10 de novembro de 2012

TARADOS POR GIZ (— "prossor ur mininu tá me tacanu giz" (sic).)



Crônica da vida escolar

TARADOS POR GIZ (— "prossor ur mininu tá me tacanu giz" (sic).)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Um dos poucos equipamentos pedagógicos de que dispõe o professor da escola pública, para seu trabalho em sala, é o giz. Onde achá-lo? É mantido guardado no armário da coordenação, "debaixo de sete capas", para evitar o desperdício. No início do ano letivo, todo professor ganha uma caixinha com apagador, mas é impossível mantê-la limpa, os alunos logo escrevem nela numa especie de pichação. Em maio, a caixa de giz já está uma verdadeira obra de arte, um mosaico de besteira multicolorida.
          Todos os dias, encho minha caixinha de giz e antes mesmos de chegar à sala já se foram os pedacinhos atrativos. Eles se apressam  para me ajudar e me tomam logo a caixinha, com a desculpa de apagar o quadro, e se vão correndo. Assim que entro na sala, encontro um punhado deles "escrevendo", outros apagando, como um bando de maritacas em algazarra. Ordeno que se sentem, depois de uns dez minutos, consigo pôr-los em seus lugares, mas então, para finalizar, começa a chuva de pedaços de giz, por vingança ou implicância. E os carentes de proteção me chamam naquela melosidade da chatice:
          — "prossor ur mininu tá me tacanu giz" (sic).
          Criei um sistema de penalizar esses atrevidos indesejados: o faz-de-conta ineficaz que eles já se deram conta. Por três vezes que eu lhes  chamar a atenção, tiro um ponto na nota deles. Que nota? Se são os piores, nem nota têm!!!
           Já me ocorreu que uma aluna humildemente me pediu uns pedaços de giz, fiquei assustado, visto que geralmente eles pegam-nos sem que eu os veja, mas desta vez foi autorizada, com a justificativa nobre, pois que ela brincava de escolinha em casa. Será que na brincadeira também eles tumultuam o quadro nos intervalos, riscando  e jogando giz uns nos outros, simulando o real? pois é, brincam de professor, mas não querem ser professores de verdade! Os animais brincam de caçar porque querem ser bons caçadores. Os meus alunos desnaturados, diferentemente, apenas brincam com os meus sonhos!
          Maior parte de minhas repreensões a alunos é ralhando para não pegarem giz. Não vem um seque à mesa do professor para não tentar pegar uns pedacinhos de giz. Até parece que gastar o giz é uma forma de se vingar do professor, maltratá-lo! O giz nesse caso torna se representação fiel do mestre a quem na verdade querem desgastá-lo ou jogá-lo contra os outros.
          Em um dia daqueles, um  professor da mesma escola em que trabalho, foi reclamar à coordenadora, com um "galo" na testa, pois tinha sido machucado por um aluno, daqueles viciados em jogar giz nos outros, acertou a testa do tal professor, eu o vi meio de longe e realmente tinha uma manchinha avermelhada pouco acima do olho direito!
          As garatujas que fazem no quadro com tanta sede, talvez seja o grito de socorro, para obterem a atenção que gostariam de usufruir das suas famílias, responsabilidade transferida para a escola. Isso explica a tara dos pichadores pelo um muro novo recém-pintado e a concorrência pelos os lugares mais inusitados, quanto mais afrontar as autoridades mais excitante, e, portanto, "ninguém merece"!
Claudeko
Enviado por Claudeko em 10/06/2012
Reeditado em 14/06/2012
Código do texto: T3715465
Classificação de conteúdo: seguro


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