Nunca gostei de emprestar nada de ninguém, parece-me que não consigo devolver o que é dos outros intactamente. Por força do destino, as coisas dos outros se sentem roubadas e choram por seus donos, sempre se desmantelam em mãos alheias! Ainda, maior tolice é locar algo que não se está precisando ou só porque alguém acha que você precisa. Agora, ridículo mesmo é a situação de depositário de uma tralha desatualizada que você vai usar para fingir que é tecnologicamente inserido no contexto atual. Refiro-me à alegria dos professores estatutários do estado ao assinar um contrato de uso de um tablet CCE de fabricação 2011, com um sistema operacional Android 4.0, visto que qualquer telemóvel de hoje opera com o Android 8.0 e outros até com Windows phone 10. Já me vejo num tremendo paradoxo, na frente de meus alunos, fazendo a chamada com meu tablet amarelo e brigando com eles para guardarem os seus celulares, porque o regimento os proíbe.
PROFESSOR(,) BOM PIA: O Simulacro da Intensificação ("Recuperação é uma masturbação pedagógica." — Reginaldo Ferron)
Em nome de médias infladas e estatísticas apresentáveis, o sistema educacional concebeu o PIA — Período de Intensificação da Aprendizagem. Um nome pomposo para um projeto que já nasceu cansado. Houve um tempo em que a escola ainda tentava ensinar; hoje, contenta-se em parecer funcional. Talvez fosse mais honesto chamá-lo de Período de Intensificação do Ensino Retroativo: uma revisão do que não foi aprendido porque, em muitos casos, nunca chegou a ser efetivamente ensinado. Um gesto derradeiro para simular fôlego quando os objetivos pedagógicos já se perderam pelo caminho.
Para quem observa de fora, convém esclarecer: o PIA surge como uma etapa final do calendário escolar destinada a “recuperar” alunos com baixo rendimento. Na prática, porém, converteu-se em um dispositivo de correção estatística, não de aprendizagem. As diretrizes da Secretaria da Educação, vagas e contraditórias, lançaram as escolas numa heterogeneidade irracional. Sem critérios claros, as coordenações foram empurradas para o improviso — e o improviso, travestido de democracia, acabou por diluir responsabilidades que deveriam ser institucionais.
Nas reuniões de Trabalho Coletivo Escolar, horas se perderam em bifurcações estéreis. A pergunta era recorrente e jamais vinha acompanhada de resposta: a nota do PIA soma-se ao bimestre, substitui a anterior ou se enxerta no semestre como prótese burocrática? Exigia-se do professor uma espécie de poder divino — o dom de ressuscitar defuntos acadêmicos em poucas semanas. Entre dúvidas sobre pontos de corte, conteúdos mínimos e critérios avaliativos, confirmou-se o antigo aviso: “se o som da trombeta for incerto, os soldados não se levantarão para a guerra”.
Sem um rumo unificado, cada unidade escolar passou a gerir o PIA à sua maneira. O resultado beirou o grotesco: alunos reprovados ao longo do ano tiveram o status restaurado com notas, não raro, superiores às daqueles que mantiveram frequência, esforço e compromisso contínuos. Em termos concretos, viu-se estudante com média anual inferior a 4,0 alcançar, ao fim do PIA, resultados acima de 7,0 — não por aprendizagem comprovada, mas por rearranjos avaliativos. A mensagem pedagógica é devastadora: perseverar não compensa; aguardar o remendo final, sim.
Essa engenharia burocrática sobrecarrega o docente para facilitar a vida de quem negligenciou o processo formativo, consumindo de modo infrutífero o investimento público. Aqui, impõe-se cautela com as generalizações: há, sem dúvida, o professor conivente, mas há também — e em número expressivo — o professor coagido, exaurido por pressões institucionais que transformam a aprovação em meta administrativa. O sistema revela-se tão eficaz em sua lógica que consegue corromper até os bem-intencionados.
Toda essa “nova pedagogia” converge para um único fim: forçar a aprovação. O preço é um dilúvio de planos de aula, relatórios e formulários cujo destino não é a aprendizagem, mas os índices oficiais. O discurso proclama inclusão; a prática entrega superficialidade. Os chamados “aulões” mistos, com conteúdos genéricos, funcionam como remédios de largo espectro aplicados a doenças profundas: aliviam o sintoma visível, mas agravam a enfermidade silenciosa.
Impõe-se, então, uma pergunta filosófica que o sistema evita: o que é, afinal, aprender? E qual o papel da avaliação nesse processo? Avaliar não deveria servir à punição, mas tampouco pode reduzir-se a um mecanismo de absolvição automática. Reprovar, quando necessário, é reconhecer limites reais; aprovar sem critério é negar ao aluno a própria dignidade intelectual. Talvez o caminho não esteja em intensificações artificiais, mas em menos burocracia, maior rigor pedagógico e avaliações que sirvam ao conhecimento — não às planilhas.
A realidade, afinal, é mais simples do que parece: o professor que sempre aprovou por conveniência nunca precisou do PIA. O período pode ter terminado no calendário, mas seus moldes permanecem ativos como cultura. Enquanto a escola preferir o simulacro à formação, continuará intensificando apenas aquilo que nunca deveria ter sido intensificado: a aparência de sucesso sobre o fracasso real do aprender.
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em fazer um texto que mergulha tão profundamente na análise das instituições sociais e na sociologia da educação. O texto que você apresentou não é apenas um desabafo, mas um estudo de caso sobre como a burocracia e as estatísticas podem moldar (ou deformar) a realidade escolar. Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas que conectam o texto aos conceitos fundamentais da nossa disciplina:
1. O Fetichismo dos Índices e a Burocracia. O texto argumenta que o PIA serve para criar "médias infladas e estatísticas apresentáveis". No pensamento sociológico de Max Weber, a burocracia busca a eficiência, mas pode se tornar uma "gaiola de ferro". Como o texto demonstra que a escola prioriza a meta administrativa (o número) em detrimento da missão pedagógica (o aprender)?
2. A Ética do Esforço e a Socialização. A escola é uma das principais instituições de socialização. Segundo o texto, o PIA envia uma mensagem devastadora: "perseverar não compensa; aguardar o remendo final, sim". Qual é o impacto sociológico desse aprendizado informal para a formação do futuro cidadão e sua visão sobre o mérito e o trabalho na sociedade?
3. O Professor como Agente Social sob Coação. O autor distingue o "professor conivente" do "professor coagido". Do ponto de vista da sociologia das organizações, de que maneira a pressão institucional por resultados estatísticos retira a autonomia profissional do docente e o transforma em um mero executor de "próteses burocráticas"?
4. O Simulacro e a Ação Social. O texto utiliza o conceito de "simulacro" (parecer funcional sem ser). Relacione a ideia dos "aulões genéricos" e da "aprovação automática" com a crise de sentido das instituições modernas: por que a sociedade parece preferir a aparência do sucesso ao enfrentamento das falhas reais do aprendizado?
5. Desigualdade e Políticas Públicas. O texto menciona que essas medidas consomem "infrutiferamente o investimento público". Analisando sociologicamente, políticas de "intensificação" que focam apenas no final do processo podem realmente reduzir as desigualdades educacionais ou elas apenas ocultam a enfermidade silenciosa da exclusão escolar?
Dica para o Alinhamento Construtivo:
Ao responder, tente observar como a escola, enquanto instituição, interage com o Estado (Secretaria de Educação) e como essa relação afeta o indivíduo (aluno e professor). Lembre-se: em sociologia, o "problema" não é apenas a nota baixa, mas a estrutura que permite que a nota substitua o conhecimento.





