O Baile dos Coordenadores: TRANSPARÊNCIA E COESÃO ("O amigo é-me querido, o inimigo é-me necessário. O amigo mostra-me o que posso fazer, o inimigo, o que tenho de fazer". — Friedrich Schiller)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
O cheiro de café se misturava ao do pincel de quadro branco — e, junto, vinha aquela fadiga antiga, teimosa, que nem o intervalo dá conta de espantar. Na sala dos professores, o ar parecia pesado. Gente indo e vindo, pasta debaixo do braço, olhar que desvia de outro olhar por puro cansaço. Eu, no meu canto de sempre, assistia à cena como quem já conhece o roteiro, mas ainda se apega aos detalhes — vai que muda alguma coisa, né?
Foi então que ela entrou. A nova coordenadora pedagógica chegou com tudo no lugar: postura reta, sorriso milimetricamente ajustado, passos firmes demais para um ambiente onde quase tudo já cedeu um pouco. Alguém soltou um comentário qualquer; ela respondeu com um entusiasmo que sobrava. Fiquei só observando. No fundo, não era novidade — era só mais uma versão da mesma história, com outra roupa, outro tom de voz.
E olha que já passaram muitos coordenadores por essa sala. Cada um chega com seu discurso de estreia, sua promessa de mudança, sua tentativa — quase sempre sincera — de fazer diferente. No começo, há brilho. Neles… e, às vezes, até na gente. Lembro bem de quando eu também acreditava nisso, sabe? Na ideia de que viria alguém para somar, para segurar a barra junto, para entender o que acontece lá dentro, naquele território meio invisível onde o giz não alcança.
Só que o tempo… ah, o tempo não tem paciência para ilusão. Sem fazer alarde, ele vai ajeitando as coisas no lugar. Aos poucos, quem antes era colega de caminhada começa a girar em outra órbita. A linguagem muda. As prioridades também. O que era troca vira intermediação; o que era escuta vira documento. E, quando a gente percebe, o baile já começou.
É um passo para direção, outro para equipe. Um giro para cumprir meta, outro para apagar incêndio. Sorrisos distribuídos aqui e ali, quase como moeda de troca. E, no meio disso tudo, a sala de aula — sempre ela — esperando, quieta, que alguém a leve a sério de verdade.
Teve uma coordenadora que me marcou. Chegou leve, próxima, quase do nosso lado. Nos primeiros dias, circulava entre a gente com perguntas que pareciam sinceras — ou, no mínimo, bem construídas. Dava a impressão de enxergar o invisível: o cansaço que não cabe em planilha, a bagunça que não se resolve com discurso bonito, o improviso que sustenta o dia quando nada mais sustenta.
Mas, enfim… durou pouco. Com o tempo, a dança encontrou seu ritmo. Com a gente, compreensão. Com os alunos — e, principalmente, com o que vinha de cima — outra postura. As decisões começaram a escorrer, sempre bem explicadas, sempre muito bem justificadas. Não era exatamente falsidade, não. Era… funcional. Uma adaptação, talvez. Como se, para continuar ali, fosse preciso aprender a dançar em dois compassos ao mesmo tempo — e fingir que isso não desequilibra.
E talvez nem seja escolha mesmo. Talvez seja só o mecanismo funcionando. Enquanto eu pensava nisso, a nova coordenadora cruzava a sala, distribuindo cumprimentos, recolhendo pequenas atenções pelo caminho. Havia algo de coreografado nela — não artificial, mas inevitável. Como quem já entra no salão sabendo que a música não foi feita para si, mas ainda assim precisa dançar.
A campainha tocou. O intervalo acabou do mesmo jeito que começou: rápido demais. Cadeiras arrastando, canecas esquecidas pela metade, conversas cortadas no meio — e que ninguém retoma depois. Levantei, ajeitei os papéis, respirei fundo e fui me preparando para próxima aula.
Antes de sair, olhei para ela. Por um instante, nossos olhos se encontraram. E ali — só ali, naquele instante — não tinha cargo, nem discurso, nem função. Só um reconhecimento rápido, quase tímido. Como se, por um segundo, alguém tivesse saído da dança. Ou lembrado, lá no fundo, de quando ainda estava do outro lado do salão.
Aí passou. E cada um voltou para o seu papel.
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Olá! Que satisfação estarmos juntos em mais uma jornada de reflexão. Como seu professor de Sociologia, vejo que o texto "O Baile dos Coordenadores" é uma obra-prima para discutirmos a Sociologia das Organizações e as Relações de Poder no ambiente escolar. O texto nos mostra como as pessoas, ao assumirem novos cargos, muitas vezes são moldadas pelas expectativas da "estrutura" — como se o cargo fosse uma coreografia que elas são obrigadas a dançar, mesmo que percam um pouco da própria identidade no processo. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para o nosso nível de Ensino Médio, para aprofundarmos essas ideias:
1. O Papel Social e a "Máscara" do Cargo
O narrador descreve a nova coordenadora com uma "postura reta" e um "sorriso milimetricamente ajustado". Na sociologia, discutimos que cada posição social exige um comportamento esperado (o papel social). Como a pressão para parecer "eficiente" e "entusiasta" pode afastar o coordenador da realidade cansativa que os professores vivem no chão da escola?
2. A Mudança de "Órbita" e o Distanciamento
O texto diz que, com o tempo, quem era colega começa a girar em outra órbita e a linguagem muda: "o que era troca vira intermediação; o que era escuta vira documento". Como essa mudança na forma de falar e de priorizar papéis afeta a solidariedade orgânica (os laços de união) entre os membros da equipe escolar?
3. O Conflito de Interesses: Dançar em Dois Compassos
A crônica menciona que o coordenador precisa equilibrar a compreensão com os professores e as exigências que vêm "de cima" (da direção ou do sistema). Do ponto de vista sociológico, como esse "equilíbrio precário" pode gerar o que chamamos de ambiguidade de papel, onde o indivíduo não consegue ser totalmente fiel nem aos colegas, nem à instituição?
4. A Burocratização do Afeto
O narrador observa que os sorrisos e atenções tornam-se "quase como moeda de troca" e que a função se torna "funcional". Reflita: quando as relações humanas dentro de uma escola passam a ser medidas por metas e planilhas, o que se perde na qualidade da educação e no bem-estar dos profissionais?
5. O Indivíduo versus o Mecanismo
No final, o texto sugere que talvez essa mudança não seja uma escolha, mas o "mecanismo funcionando". Como a estrutura de uma organização (as regras, as metas, a hierarquia) pode ser mais forte do que a vontade individual de uma pessoa "fazer diferente"? É possível mudar o sistema sendo parte dele ou o sistema sempre acaba nos moldando à sua própria "dança"?
Dica do Professor:
Reparem no momento final do texto, onde há um "reconhecimento rápido" entre o narrador e a coordenadora. Aquele instante representa a nossa humanidade tentando escapar das amarras do cargo. Ao responder, pensem: em quais momentos da sua vida escolar você sente que os professores ou coordenadores deixam de ser "cargos" para serem pessoas de verdade com você?
Bom trabalho, e lembrem-se: a sociologia serve para a gente enxergar os fios invisíveis que movem essa dança!
Pergunta Extra (Só para instigar a curiosidade):
Você já percebeu como o tom de voz de alguém muda quando essa pessoa passa a representar uma autoridade? Isso é sociologia pura acontecendo no intervalo!
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