As Asas de Severino: ANTIGAMENTE ERA PIOR... ("Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem". — Millôr Fernandes)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
A escola de antigamente não era esse paraíso que a memória, vez ou outra, insiste em pintar. Tinha seus vícios, suas rachaduras, seus corredores cheios de pó e silêncio. Ainda assim, havia engrenagens funcionando. O que nos sufocava, naquele tempo, era o papelório: uma enxurrada de leis inúteis, decretos nascidos em gabinetes distantes e ordens que mudavam conforme o humor de quem sentava na cadeira da Secretaria. Corríamos para sustentar a aparência da ordem, enquanto a educação — esse bicho arisco, difícil de domesticar — escapava pelas frestas.
Mas, o tempo girou a chave. Se antes éramos esmagados pelo excesso de normas, hoje somos conduzidos pela conveniência. Saiu de cena o carimbo; entrou o improviso calculado. E, nesse novo enredo, surgiu a figura do "Severino".
Severino não é um homem. É um sintoma. É o professor temporário, o contratado de ocasião, o faz-tudo que carrega a escola nas costas com a corda sempre roçando o pescoço. Vira braço direito do diretor não por afinidade pedagógica, nem por comunhão de ideias, mas por puro instinto de sobrevivência. Severino apaga incêndios, tapa buracos, cobre faltas, sorri quando precisa e silencia quando convém. Quando chega a eleição para a diretoria, seu voto já saiu empenhado antes mesmo de a urna abrir. Sustenta o poder em troca de mais alguns meses de salário. E cá entre nós: como exigir que Severino ensine alguém a voar, se ele mesmo vive com as asas grampeadas pelo edital de amanhã?
Nesse teatro de sombras, a autoridade do professor virou artigo de luxo. Eu vi outro tempo, quando a caneta do docente tinha tinta e peso. Hoje, muita nota é “ajustada” nos bastidores para que as planilhas sorriam para os relatórios e o Ministério veja números bonitos. A escola passou a ter medo do erro — e instituição que teme o erro logo aprende a maquiar a verdade.
Lembro de um aluno que, confrontado com a própria caligrafia ilegível — um novelo de hieróglifos escondendo a própria ignorância — quase partiu para o embate físico. Não odiava a caneta. Odiava o espelho. Porque corrigir, às vezes, dói mais do que punir. Houve um tempo em que o “não” era bandeira de jovens que se julgavam sábios ao desafiar o sistema. Hoje, o “não” virou esconderijo dos tolos. Dizem não ao livro, não à correção, não ao esforço. E o sistema — esse grande gerente de Severinos — aplaude, contemporiza e ainda recomenda um afago na cabeça.
Há quem diga que o passado era melhor. Eu discordo com a mesma lucidez com que escrevo estas linhas. O passado não era solução; era rascunho. O que vivemos agora é apenas a versão acabada de antigos equívocos. Antes, errávamos pela rigidez cega. Hoje, erramos pela frouxidão planejada. Mudou a roupa do erro, mas o estrago continua.
Para ensinar alguém a voar, o mestre precisa ter as próprias asas livres e firmes. Mas como alçar voo quando a escola vira balcão de negócios temporários e a verdade pedagógica é sacrificada no altar da reeleição? A educação não nasceu para ser palco de vaidades nem feudo de diretor algum. Ela deveria ser a casa onde o conhecimento nos liberta do medo. Enquanto Severino for regra, e a conveniência continuar apontando o norte, seguiremos no chão — pescoço erguido, olhos no céu e coragem nenhuma para sair dele.
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Olá! Como professor de Sociologia, é um prazer retomar este "Alinhamento Construtivo". O texto "As Asas de Severino" oferece um material riquíssimo para discutirmos conceitos como precarização do trabalho, clientelismo e as contradições das instituições sociais. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas para provocar a reflexão crítica dos alunos do Ensino Médio:
1. A Precarização do Trabalho Docente
O texto apresenta a figura do "Severino" não como uma pessoa, mas como um "sintoma". Sociologicamente, como o modelo de contrato temporário e a falta de estabilidade (as "asas grampeadas") afetam a autonomia do professor e a qualidade do serviço público prestado à sociedade?
2. Clientelismo e Relações de Poder
Ao descrever que o voto do "Severino" já está empenhado em troca da manutenção do emprego, o autor descreve uma prática conhecida na sociologia política como clientelismo. Explique como essa troca de favores entre quem detém o poder (direção) e quem precisa do trabalho (contratado) compromete a gestão democrática da escola.
3. A "Maquiagem" dos Indicadores Sociais
O autor afirma que a escola passou a ter "medo do erro" e que notas são ajustadas para que as planilhas "sorriam" para o Ministério. Relacione essa afirmação com a pressão social por resultados estatísticos: o que vale mais na sociedade atual — o aprendizado real do indivíduo ou a aparência de eficiência nos dados oficiais?
4. A Crise de Autoridade na Pós-Modernidade
O texto diferencia o "Não" do passado (visto como desafio ao sistema) do "Não" atual (visto como esconderijo dos tolos). De que maneira a "frouxidão planejada" do sistema escolar mencionada pelo autor reflete uma crise na autoridade pedagógica e na valorização do esforço individual?
5. A Escola como Espaço de Emancipação ou de Reprodução?
O autor encerra dizendo que a educação deveria ser a "casa onde o conhecimento nos liberta do medo". Considerando a figura do "Severino" e o "balcão de negócios" citado, a escola atual está cumprindo seu papel de emancipar os cidadãos ou está apenas reproduzindo as desigualdades e as conveniências políticas do sistema? Justifique.
Sugestão ao Professor:
Estas questões permitem trabalhar autores como Max Weber (burocracia e poder), Pierre Bourdieu (reprodução social) e até conceitos de Modernidade Líquida. Você pode pedir que os alunos identifiquem, no próprio cotidiano escolar, se já presenciaram alguma dessas "engrenagens" funcionando ou se percebem a escola como esse espaço de libertação proposto ao final do texto.


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