O QUE APRENDI NOS CONSELHOS DE CLASSE: O Banquete dos Canibais de Reputação ("O segredo do demagogo é de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele". — Karl Kraus)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
No antigo normal, o Conselho de Classe não era uma reunião; era um ritual antropofágico. Tinha hora marcada, mesa posta e vítimas escolhidas. O cenário se repetia como peça cansada: coordenadores encenando uma neutralidade de fachada, registrando em atas frias tanto o rendimento aritmético quanto os supostos desvios de caráter de quem, ironicamente, nem estava presente para se defender. Tudo muito técnico na aparência, tudo muito cruel no miolo. E o auge do sacrifício, quase sempre, cabia aos alunos representantes.
Dar voz a quem ainda não aprendeu o peso das palavras sempre foi um risco que a escola correu com uma ingenuidade perigosa. Escolhidos pela popularidade — esse critério torto que vive confundindo barulho com liderança — os representantes entravam no Conselho como porta-vozes de uma coordenação que não tinha coragem de dizer o que pensava com a própria boca. Eram instrumentos convenientes. Com o dedo em riste e a segurança de quem fala protegido, desmontavam reputações de colegas e professores sob o olhar complacente de quem deveria mediar. Vi isso por décadas: a dignidade sendo devorada entre um cafezinho morno e outro biscoito murcho.
Hoje, no chamado “novo normal”, mudou-se o método, não a essência. Baniram os alunos desse momento. O banquete agora é higienizado, quase clínico. Reunimo-nos para uma leitura pública de notas, enquanto alguns colegas aproveitam o palco para exibir generosidade estatística, posando de “bonzinhos” diante do sistema. Saímos da fofoca destrutiva para a simplificação vazia. Antes, o aluno era julgado sem defesa; agora, virou número. E o professor, por sua vez, reduziu-se a leitor de planilhas.
Enquanto assisto a essa transição, sinto o peso dos meus 66 anos nos ombros. Olho em volta e percebo que o sistema, em sua falência silenciosa, parece querer me levar junto para o fundo. Mas a injustiça mais amarga não veio dos alunos nem dos colegas. Veio da máquina administrativa — essa engrenagem sem rosto, que mastiga gente sem sequer levantar os olhos. O Estado, a quem entreguei trinta e três anos de suor, voz e giz, agora se faz de cego. Minha aposentadoria, direito conquistado aula por aula, esbarra numa burocracia que exige provas do óbvio e adia meu descanso como se o tempo fosse elástico. Dói admitir isso: para a Secretaria, pareço ser apenas um processo empilhado em alguma mesa empoeirada.
Nessa estrada comprida, aprendi que a escola padece de uma desconexão funda. Há um abismo entre o que o aluno vive e o que a pedagogia exige. A comunicação se perde em hierarquias tortas, em decisões tomadas por quem pouco escuta e menos ainda acompanha. Falta retorno. Falta presença. Falta formação real para quem decide destinos alheios com a leveza de quem troca papéis de lugar. E, acima de tudo, falta respeito pela experiência de quem já viu esse filme passar tantas vezes que sabe de cor até os créditos finais.
Não escrevo por desesperança, embora o tom possa soar como despedida. Escrevo porque é o que me resta — e não é pouco. Resta-me o testemunho. Se o sistema se recusa a me libertar pela burocracia, eu me liberto pela palavra. Descobri, tarde talvez, que a verdadeira educação não mora na ata do conselho nem no deferimento da aposentadoria. Ela vive na teimosia de continuar lendo o mundo, mesmo quando o mundo, cansado ou covarde, parece já ter desistido de nos ler.
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Como professor de Sociologia, vejo neste texto uma oportunidade excepcional para discutirmos a instituição escolar não apenas como um local de ensino, mas como um espaço de relações de poder, burocracia e conflitos geracionais. Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o Ensino Médio, focadas em provocar o pensamento crítico sobre a realidade das nossas escolas:
1. Representatividade e Poder (Participação Política)
O autor utiliza o termo "ritual antropofágico" para descrever o Conselho de Classe, onde alunos representantes eram usados para criticar professores e colegas. De acordo com o que estudamos sobre cidadania, por que a participação política (como a de um representante de sala) exige ética e preparo, e não apenas popularidade?
2. A Coisificação do Indivíduo (Visão de Karl Marx)
O texto afirma que, no "novo normal", o aluno deixou de ser julgado para virar um "número" em planilhas de notas. Como o conceito de alienação ou de coisificação (tratar pessoas como coisas/objetos) se aplica a essa escola que prioriza estatísticas em vez de pessoas reais?
3. Burocracia e Desumanização (Visão de Max Weber)
O autor relata a dificuldade de conseguir sua aposentadoria após 33 anos de serviço, descrevendo o Estado como uma "engrenagem sem rosto". Como a burocracia excessiva, que deveria servir para organizar a sociedade, pode acabar se tornando um sistema que desumaniza e ignora a dignidade do indivíduo?
4. A Ética nas Instituições Sociais
A crônica menciona professores que usam o Conselho de Classe para "exibir generosidade estatística" e posar de bons profissionais. Sociologicamente falando, qual é o impacto desse tipo de comportamento na confiança das instituições sociais? A escola deve servir para educar o cidadão ou para "maquiar" resultados para o sistema?
5. O Valor da Experiência e o Conflito de Gerações
O texto termina com a ideia de que a educação vive na "teimosia de continuar lendo o mundo". Em uma sociedade que valoriza cada vez mais o "novo" e o tecnológico, qual é a importância sociológica de respeitar a experiência acumulada (o saber dos mais velhos) para a construção de uma educação que realmente liberte do medo?
Sugestão Pedagógica:
Professor, estas questões podem ser usadas para um debate em sala sobre a gestão democrática da escola. É interessante provocar os alunos a pensarem: "Como seria um Conselho de Classe ideal, onde a voz do aluno fosse construtiva e não apenas uma arma para ataques?"
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