O DESAFIO DE VIVER: ESNTRE DIAS BONS E RUINS ("O vazio já tão acomodado dentro de mim, começou a fazer parte de quem eu sou." — Mariana Ávila)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Fiz as contas — e, olha, o resultado vem como um soco seco no estômago: a vida, no fim das contas, parece uma aritmética miserável. De cada trinta dias, metade se arrasta sob um sol pálido, quase sem força, e a outra metade mergulha em breus intermitentes, vindo em ondas de três em três, como se a escuridão tivesse método. É aí que a consciência aperta sem aviso, sem motivo claro, só aperta. Uma dor seca, áspera — engrenagem girando no vazio, rangendo por dentro.
Com o peso dos meses que já se foram, caiu a ficha: aquilo que eu chamava de “verdade” simplesmente apodreceu. Ficou para trás, como roupa de defunto — já não veste o corpo que sou hoje. E a realidade? Ela muda só o suficiente para continuar esmagando a gente do mesmo jeito. Viver, às vezes, parece isso: um barro sendo amassado com barulho — cinco passos para frente, cinco de volta para o abismo. E sempre tem alguém dizendo que o segredo é anestesiar: fechar os olhos, desligar os sentidos, ligar o “foda-se” como quem apaga a luz para não encarar o rato no canto da sala.
Mas, nem assim silencia. Os espíritos — ou o que quer que ainda reste da minha lucidez — continuam disparando sinais, setas, alertas. Eles gritam, insistem, pedem desvio. Só que o que chega até mim já vem distorcido: um ruído branco, um “blá-blá-blá” cansado, um cinismo que reduz tudo a “mimimi”. No fim das contas, não tem transcendência nenhuma — tem só o bicho aqui, tentando, do jeito que dá, não morrer.
E essa tal de zona de conforto… ah, essa é traiçoeira. Parece abrigo, mas é útero que sufoca. Um lugar morno onde a gente se encolhe tanto que acaba nascendo morto. E a pátria? Essa ideia bonita, feita de bandeira e asfalto… não é mãe coisa nenhuma. No máximo, uma madrasta distante, de olhar frio, esperando a gente tropeçar.
Volta e meia, um pesadelo me atravessa — e nem precisa dormir para isso. Eu encaro o monstro, mas minhas pernas pesam, são de chumbo. Fui largando pelo caminho os estudos formais, as cartilhas, os diplomas de comportamento esperado. Hoje, só leio o que me atravessa, o que arde. Minhas opiniões deixaram de ser dúvidas — viraram cicatrizes. E o tal do êxito? Esvaziou. Virou moeda de plástico: brilha, mas não compra nada que importe. Sigo tentando equilibrar o bem e o mal, como quem insiste em misturar óleo e água… sabendo que não dá. E, ainda assim, continuo andando — não por esperança, mas por pura inércia.
1. A Banalização do Sofrimento e o "Mimimi"
O narrador afirma que os alertas da consciência e dos "espíritos" acabam sendo reduzidos a um "ruído branco" ou ao cinismo do termo "mimimi". Na sociologia, como essa tendência de rotular o sofrimento do outro como "frescura" ou "mimimi" dificulta a construção de uma rede de apoio social e a compreensão das doenças mentais como um problema coletivo, e não apenas individual?
2. A Pátria como "Madrasta"
O texto faz uma crítica severa à ideia de nação: "A pátria... não é mãe coisa nenhuma. No máximo, uma madrasta distante". Reflita sobre o papel do Estado: quando as políticas públicas de proteção social falham, o indivíduo tende a se sentir desamparado. Em sua opinião, quais são os direitos básicos que, se ausentes, fazem com que o cidadão sinta que a pátria é "fria" e "distante"?
3. Alienação e o "Botão do Foda-se"
O autor menciona que o segredo sugerido para sobreviver é "anestesiar" e "fechar os olhos". Relacione essa ideia ao conceito de alienação. De que forma o ato de se desligar da realidade e dos problemas sociais (viver em uma bolha ou na "zona de conforto") pode ser uma estratégia de defesa, mas também uma forma de manter as injustiças do mundo como elas estão?
4. A Desilusão com o "Êxito" e a Meritocracia
O narrador diz que o êxito virou "moeda de plástico". Em uma sociedade que prega a meritocracia (a ideia de que basta esforço para vencer), por que o sentimento de "cansaço limpo" e de "inércia" descrito no texto pode ser interpretado como uma crítica a esse modelo de sucesso a qualquer custo?
5. A Identidade "Obri(gado)"
Observe o jogo de palavras no final: OBRI(GADO). O parêntese sugere tanto a gratidão quanto a condição de "gado" (alguém que é conduzido sem vontade própria, apenas por obrigação/inércia). Como as pressões do mercado de trabalho e as expectativas sociais podem transformar o cidadão em alguém que apenas "segue o fluxo" sem questionar para onde está sendo levado?
Dica para a discussão em aula:
Reparem que o texto é um desabafo sobre a perda de sentido. Na sociologia de Émile Durkheim, chamamos de Anomia o estado em que as regras da sociedade perdem o sentido para o indivíduo, deixando-o sem rumo. Ao responder, pensem: o personagem está cansado do mundo ou está cansado do que o mundo exige que ele seja?


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