Sempre vislumbrei no magistério uma missão análoga à medicina: ambos educam para a saúde da vida coletiva. No entanto, o sistema parece empenhado em transformar o cirurgião do intelecto em um mero carimbador de formulários. Imagine um médico do SUS — já sufocado por metas e protocolos — sendo impedido de operar porque não entregou um plano minucioso prevendo cada batimento cardíaco do paciente. Na saúde, a sociedade ainda preserva a autonomia do especialista; na educação, o neoliberalismo impôs o "gerencialismo" (o famigerado New Public Management), convertendo a escola em uma repartição auditável onde o "planejamento" não serve ao aluno, mas ao fiscal.
A comparação é amarga: dizem que o aluno quer apenas a aprovação com o menor esforço, enquanto o paciente anseia pela cura. Mas sejamos honestos: essa apatia discente não é causa, é sintoma. O aluno é a primeira vítima dessa engrenagem que transformou a descoberta em uma linha de montagem de competências rasas. Quando coordenadores — muitas vezes reduzidos pelo sistema a auditores e vigias — exigem planos anuais, semanais e "alternativos" sob ameaça de bloqueio salarial, eles não estão zelando pelo ensino. Estão alimentando uma burocracia de controle que, ironicamente, retém o caderno de planejamento por dias, deixando o professor lecionar "sem bússola" enquanto o papel descansa em uma gaveta administrativa.
Criticar essa função de vigilância não é um ataque à Pedagogia, mas à sua deturpação burocrática. O problema não é o planejamento em si — instrumento vital para a reflexão —, mas o planejamento como fetiche, como "caderninho enfeitado" para satisfazer tutores e promover aparências. Como defende Henry Giroux, o professor deve ser um intelectual transformador, não um executor de scripts. Um bom esquema, construído no diálogo e na colaboração dos alunos, vale mais do que mil páginas de um RODA (Roteiro de Didática Aplicada) que ignora a realidade pulsante da sala de aula.
A metástase desse controle chegou com a tecnologia: o diário eletrônico prometia liberdade, mas trouxe apenas noites insones "enchendo linguiça" digital para mascarar o fato de que o aluno semianalfabeto é o resultado real desse desleixo institucionalizado. Se o objetivo é o sucesso, John Ruskin já alertava: para ser feliz, o homem não deve trabalhar demais e deve sentir o êxito do seu esforço. Hoje, sentimos apenas o peso de uma engrenagem que privatiza o sucesso e socializa o fracasso.
Edito este texto anos depois, vendo a profecia do RODA se consolidar em Goiás. Não precisamos de mais formulários; precisamos de autonomia, financiamento e dignidade. A resistência não é individual, é um coro. Pois defender a liberdade de ensinar não é corporativismo — é a última trincheira de uma sociedade que ainda ousa pensar.
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Como seu professor de Sociologia, trago hoje uma análise sobre a Sociologia das Organizações e o Mundo do Trabalho. O texto que lemos critica como a escola está sendo gerida como se fosse uma empresa, focando mais em papéis do que em pessoas. Aqui estão 5 questões para exercitarmos nosso olhar crítico sobre o sistema educacional:
1. O Conceito de Gerencialismo (New Public Management) O texto afirma que o "gerencialismo" transformou a escola em uma "repartição auditável". Questão: Na sociologia, como esse modelo de gestão empresarial (focado em metas, auditorias e resultados mensuráveis) altera a relação entre o professor e o seu trabalho? A educação deve ser tratada como um "serviço" ou como um "direito humano"?
2. Apatia Discente: Causa ou Sintoma? O autor argumenta que o desinteresse do aluno ("querer apenas a aprovação") é um sintoma de um sistema que transformou a educação em uma "linha de montagem". Questão: Explique como a padronização do ensino e a burocracia excessiva podem destruir a curiosidade natural do aluno e sua vontade de aprender.
3. Autonomia Profissional e Vigilância. O cronista compara o professor ao médico, notando que a sociedade valoriza e confia mais na autonomia do médico do que na do docente. Questão: Por que o sistema educacional prefere transformar coordenadores em "vigias de papéis" em vez de parceiros pedagógicos? Quais são as consequências da perda de autonomia para o profissional que está na ponta do sistema (a sala de aula)?
4. O Fetiche do Planejamento. O texto distingue o "planejamento como reflexão" do "planejamento como fetiche" (o caderninho enfeitado para o fiscal ver). Questão: De acordo com as ideias de Henry Giroux citadas no texto, o que significa o professor ser um "intelectual transformador" em oposição a ser um mero "executor de scripts"?
5. Tecnologia e Intensificação do Trabalho. O autor menciona que o diário eletrônico e as novas tecnologias trouxeram "noites insones" em vez de liberdade. Questão: Como o uso da tecnologia na educação pode ser usado para aumentar o controle burocrático sobre o professor (a "metástase do controle") em vez de facilitar o processo de ensino-aprendizagem?
Dica do Prof: Para responder, pensem no conceito de Alienação de Marx — quando o trabalhador perde o sentido do que está produzindo porque está focado apenas em cumprir etapas burocráticas e manuais.