"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 19 de novembro de 2022

A CULMINÂNCIA DO NOVO (A)NORMAL: Reconfiguração Pós-Pandemia ("Desfazer o normal há de ser uma norma." — Manoel de Barros)

 




A CULMINÂNCIA DO NOVO (A)NORMAL: Reconfiguração Pós-Pandemia ("Desfazer o normal há de ser uma norma." — Manoel de Barros)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O período que se seguiu à pandemia da COVID-19 inaugurou um ciclo de transformações profundas no imaginário coletivo e nas dinâmicas de poder globais. Mais do que um evento sanitário, a pandemia funcionou como um catalisador simbólico, acelerando processos já em curso: a reorganização dos blocos geopolíticos, o redesenho dos discursos de autoridade e a redefinição dos signos que estruturam a vida em sociedade. Nesse cenário, a China passou a ocupar um papel central não apenas como potência econômica, mas como referência estratégica, observando, reinterpretando e adaptando práticas estrangeiras – sobretudo provenientes dos Estados Unidos – em um movimento típico das civilizações que buscam ampliar sua influência cultural e política.

É nesse contexto que objetos aparentemente banais, como a máscara, passaram a ser analisados para além de sua função sanitária. Em seu auge, ela operou como instrumento de proteção coletiva; posteriormente, revelou-se também como artefato simbólico, capaz de expressar medo, disciplina social e pertencimento. O debate que se seguiu não pretende negar sua legitimidade ou utilidade, mas investigar como objetos cotidianos podem se transformar em marcadores de comportamento e controle em determinados contextos históricos. O mesmo cuidado analítico se aplica à discussão em torno da burca, tema altamente sensível e atravessado por múltiplas realidades culturais e religiosas.

Nesse ponto, a reflexão encontra a contribuição de Wassyla Tamzali, que afirma que “a burka não é muçulmana, não integra uma tradição religiosa, mas é um símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres e, portanto, viola os direitos humanos e não pode ser tolerada.” A citação não pretende esgotar o debate, mas evidenciar que determinados símbolos podem ser interpretados, em certos contextos, como instrumentos de coerção. Aqui, a análise não busca equiparar realidades distintas nem deslegitimar escolhas individuais, mas pensar criticamente o modo como vestimentas e objetos podem ser investidos de significados políticos ao longo da história.

Do ponto de vista geopolítico, o imaginário do “Dragão” aplicado à China opera como metáfora de sua ascensão e de sua projeção simbólica no cenário internacional. A referência ao número 666 é aqui compreendida estritamente como imagem cultural, herdeira de tradições apocalípticas e mitológicas do Ocidente, funcionando não como denúncia literal ou conspiratória, mas como signo literário de inquietação, ruptura e transição de eras. Trata-se menos de profecia e mais de linguagem simbólica para expressar o sentimento difuso de que o mundo atravessa uma mutação de paradigmas.

Separadamente, no plano interior e existencial, emerge uma outra dimensão da crise contemporânea: a crise da identidade. A ideia de que “as uvas amadurecem observando outras uvas” torna-se metáfora potente de um mundo orientado pela repetição, pela imitação e pelo contágio de comportamentos. A subjetividade, pressionada por fluxos contínuos de informação e por transformações aceleradas, passa a sofrer um processo de rarefação. O sujeito já não se reconhece com clareza, e a memória — individual e coletiva — torna-se fragmentada, descontínua, instável.

Nesse horizonte, o esquecimento deixa de ser apenas uma falha e assume o estatuto de condição estrutural da experiência moderna. À medida que o sujeito perde a continuidade de si mesmo e a coerência de sua própria narrativa, também se enfraquecem as bases do juízo, da responsabilidade e da culpa. A identidade passa a ser construída a partir de fragmentos presentes, desligados de uma raiz histórica mais profunda. O resultado não é apenas a desorientação individual, mas a sensação civilizacional de habitar um tempo em que o caos já não é exceção, mas estado permanente.


https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2013000100022



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Como seu professor de Sociologia, o texto que lemos é profundamente instigante, pois analisa a reconfiguração do poder global, o papel dos símbolos de controle e a crise de identidade no período pós-pandemia. Preparei cinco questões discursivas simples para explorarmos esses temas cruciais.


1. Símbolos de Controle: Máscara versus Burca

O texto estabelece um paralelo simbólico entre a máscara (pós-pandemia) e a burca. A burca é definida por Wassyla Tamzali como “símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres”. Utilize o conceito de Poder Simbólico (Bourdieu) para discutir como objetos ou vestimentas podem transcender sua função prática ou religiosa, atuando como mecanismos de controle e coerção que limitam a liberdade e impõem códigos sociais de submissão.

2. Geopolítica e a Reconfiguração Pós-COVID-19

O texto descreve a China (o Dragão) consolidando seu poder e projetando influência global, enquanto a Ásia Central rejeita símbolos de submissão. Essa dinâmica é ligada a um rearranjamento de forças no plano internacional. Discuta como a pandemia (percebida como uma “missão” cumprida) serviu como um catalisador para a reordenação geopolítica. De que forma a ascensão de novas potências e a adaptação de modelos culturais estrangeiros (como o norte-americano) marcam essa fase de transição e inquietação global?

3. Crise de Identidade e a Imitação Comportamental

A máxima “as uvas amadurecem observando outras uvas” traduz uma crise subjetiva regida pela imitação e pelo contágio comportamental. O sujeito “já não se reconhece com nitidez”. Analise essa crise de identidade sob a perspectiva da Modernidade Líquida (Bauman) ou da Identidade Social. Por que a imitação e a erosão da memória levam à fragilização do self, e como a falta de raízes no passado torna a identidade apenas uma soma de “novas acepções” superficiais?

4. Memória, Juízo e Responsabilidade Social

O texto argumenta que a dissolução da memória conduz à dissolução do juízo e que, sem ela, “não há culpa, não há reconhecimento, nem possibilidade de reconstrução”. Discuta a função social da memória coletiva. De que forma a perda da memória histórica e individual afeta a capacidade de uma sociedade de sustentar o senso de responsabilidade, o julgamento ético e a coesão social, resultando na permanência do “caos como estado crônico”?

5. A Condição do Esquecimento como Existência Permanente

O autor conclui que o esquecimento deixa de ser uma falha e se torna a condição permanente da existência pós-pandemia. Explique as implicações sociológicas dessa conclusão. Se o passado é intencionalmente descartado em favor de "novas acepções", o que acontece com a capacidade da sociedade de aprender com seus erros e de criar um futuro que não seja apenas uma repetição descontextualizada de comportamentos e crises?

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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

"VIDA DE GADO" OU DE CACHORRO? A Vulnerabilidade Pós-Confinamento e a Submissão Social ("Vida de gado. Povo marcado. Hora de mugir?" — Francismar Prestes Leal)

 


"VIDA DE GADO" OU DE CACHORRO? A Vulnerabilidade Pós-Confinamento e a Submissão Social ("Vida de gado. Povo marcado. Hora de mugir?" — Francismar Prestes Leal)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Ao iniciar o dia letivo com a expectativa de convívio e socialização, o narrador foi imediatamente confrontado com a dura veracidade do ditado: "Quem fala o que quer escuta o que não quer." O paradoxo se instalou precisamente no momento de maior abertura pós-confinamento. Embora a malícia fosse percebida como rara em seu círculo, o narrador sentiu a necessidade de manter a guarda, receoso de que manipulações sutis pudessem comprometer sua vulnerabilidade recém-exposta.

A persistência das restrições do confinamento manifestou-se na rotina. Na farmácia, o aviso “Só entre, usando máscara” provocou a ironia do narrador: — “Ora, já parei de morder as pessoas.” O atendente, no entanto, rebateu com uma metáfora social incisiva: “Mas, continua latindo. Tome isto, use, é para nossa saúde.” Assim, a máscara — inicialmente um instrumento de saúde pública — transformou-se em um símbolo do controle comunicativo, imposto para conter uma agressividade ou hostilidade latente percebida na interação social pós-isolamento.

Ao sair da farmácia, o ato de subir na balança comunitária não se limitou à constatação de um ganho de peso; o espelho revelou a figura de “gado”. Essa autoclassificação é uma crítica crua à vida submissa, regida por normas e protocolos que induzem a um conformismo resignado — “É vida de gado, mesmo.” A vulnerabilidade do indivíduo é amplificada: qualquer “gripezinha” basta para despertar um temor desproporcional, revelando o quanto ele se tornou fragilizado física e emocionalmente após a imposição das regras de sobrevivência e do confinamento.

Em suma, o desejo de retomar uma vida social plena colide com a vulnerabilidade interna e a necessidade instintiva de autoproteção. A experiência na farmácia cristaliza essa tensão: o anseio por diálogo e liberdade confronta-se com a necessidade de silenciar o próprio “latido” para se adequar. A autoclassificação como “gado” e o medo constante de adoecer sintetizam uma realidade existencial pautada pela cautela e pelos protocolos, onde a fragilidade física e social permanece evidente, apesar dos esforços para retomar o convívio e a comunicação.


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Como seu professor de Sociologia, este texto é excelente para discutirmos a sociedade pós-pandemia, a vulnerabilidade do indivíduo e a conformidade social. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos as metáforas e os conceitos sociológicos presentes na crônica.


1. Conflito Pós-Confinamento e Interação Social

O narrador relata que a tentativa de abertura social foi confrontada com o ditado "Quem fala o que quer escuta o que não quer." Discuta as dificuldades de reajuste da interação social no período pós-confinamento. De que forma a vulnerabilidade e a desconfiança (o receio de manipulações) se tornam fatores determinantes nas relações interpessoais, mesmo quando há um desejo de retomar o convívio?

2. A Máscara como Símbolo de Controle Social

A máscara é transformada em um símbolo de controle comunicativo imposto para conter uma agressividade ou hostilidade latente ("continua latindo"). Analise a máscara sob a perspectiva do Controle Social. Como um protocolo de saúde pública pode ser ressignificado pelo narrador como um mecanismo que visa não apenas a saúde física, mas também a regulação do comportamento e da expressão verbal do indivíduo em espaços coletivos?

3. A Metáfora do "Gado" e o Conformismo Social

A autoclassificação como "gado" expressa uma crítica crua à vida submissa e ao conformismo resignado. Utilize o conceito de Conformismo Social para explicar essa metáfora. De que maneira a imposição de normas e protocolos (como as regras de sobrevivência durante a pandemia) pode levar o indivíduo a internalizar uma identidade de passividade e perda de autonomia, aceitando a vida sob controle como a única realidade possível?

4. Vulnerabilidade e Medo na Sociedade de Risco

O texto afirma que a vulnerabilidade do indivíduo foi amplificada, a ponto de qualquer "gripezinha" despertar um "temor desproporcional". Relacione esse sentimento com o conceito de Sociedade de Risco (Ulrich Beck). Como o medo constante e a fragilidade física e emocional pós-pandemia se tornam marcas da vida contemporânea, onde o foco na cautela e na autoproteção dita a rotina e as escolhas do indivíduo?

5. A Tensão entre Diálogo e Silenciamento

O texto conclui que o anseio por diálogo e liberdade se confronta com a necessidade de silenciar o próprio "latido" para se adequar. Discuta a relação entre liberdade de expressão e adequação social. Por que, no contexto pós-crise, o indivíduo sente que precisa reprimir sua verdadeira voz ou agressividade latente para retomar o convívio e evitar novos conflitos ou punições sociais?

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domingo, 13 de novembro de 2022

HUMORISTAS DA ESCOL(inha) Crítica à Pedagogia Moderna e a Crise Ética na Escola ("O sistema educacional brasileiro é um teatro, que transforma nossas crianças em fantoches da política." — Julian Mamoru Iwasaki)

 


HUMORISTAS DA ESCOL(inha) Crítica à Pedagogia Moderna e a Crise Ética na Escola ("O sistema educacional brasileiro é um teatro, que transforma nossas crianças em fantoches da política." — Julian Mamoru Iwasaki)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A teologia do absurdo do Pastor Adélio encontra um paralelo na metodologia (des)construtivista do ensino moderno, pois ambas celebram a desordem e o retorno, operando do macro para o micro. O crescimento genuíno, contudo, sempre ocorreu no movimento inverso: do pequeno para o grande. Historicamente, os grandes intelectuais foram alfabetizados pelos elementos básicos — grafemas, fonemas, sílabas e palavras — para então avançar ao texto. Hoje, essa lógica é invertida: busca-se alfabetizar diretamente por meio de textos consagrados, ignorando que muitos alunos sequer dominam a junção das letras. Há quem celebre essa suposta economia pedagógica, mas ela apenas mascara a deficiência fundamental.

Qualquer professor que se desvie do caminho do compromisso e da responsabilidade em seu ofício atrairá não apenas a escravidão institucional, mas também seus carrascos voluntários. Uma das formas de vingança dos defasados nos estudos é utilizar denúncias por pedofilia, racismo ou homofobia como arma. As câmeras de vigilância estão onipresentes nas escolas públicas — não de forma oficial, mas na palma da mão dos alunos, cujo celular se tornou uma ferramenta de poder destrutiva.

Após décadas de docência, torna-se amarga a compreensão de que a maioria dos egressos escolares tem um único destino funcional: ser mão de obra barata, dado que a oferta de trabalhadores supera vastamente as vagas qualificadas. Paradoxalmente, o sucesso financeiro e midiático pode recair sobre quem denuncia um professor da maneira mais escandalosa possível, aproveitando a onda de justiceiros sociais atentos a essas causas. O mercado de indenizações milionárias é lucrativo, e ainda há quem explore esses dramas em comédias de stand-up, banalizando assuntos sérios.

Nesse cenário de absurdo, ressoam as palavras provocativas do profeta Kacou: "Também, deixem muitas coisas para Deus. No mês passado, uma Irmã amaldiçoou um desconhecido que roubou bananas de seu campo. E vocês estavam indignados ao ver aquilo. E portanto, um Irmão pode levar alguém, que o tenha feito mal, à polícia e isso vos parece normal. Ora, os dois atos são idênticos. A polícia apenas substituiu as maldições" (Kacou 153:10). O texto sugere uma reflexão sobre a coerência da punição: se não amaldiçoamos ou punimos animais por comerem em nossos campos, por que aplicar a força policial ou o linchamento social a homens, se os atos, em sua essência, são formas equivalentes de vingança?

Resta ao professor pedir por força e saúde para continuar cultivando — o conhecimento e a ética — tanto para si quanto para os "ladrões" e os denunciantes. A única pedagogia viável no absurdo contemporâneo é ensinar não apenas aos que aprendem, mas também àqueles que o perseguem, transformando a adversidade em um ato contínuo de responsabilidade e resiliência.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler levanta críticas severas à metodologia de ensino, à precarização da docência, e à justiça social na era da informação. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos o papel da escola e as novas dinâmicas de poder e conflito.

1. Crítica à Inversão Pedagógica e Desigualdade Social

O texto critica a inversão da lógica pedagógica (do macro para o micro), que busca alfabetizar diretamente com "textos consagrados" sem garantir o domínio dos "elementos básicos". Discuta, sob a ótica da Sociologia da Educação, como essa "economia pedagógica" criticada pelo autor pode contribuir para o aumento da desigualdade social e educacional. Por que a deficiência fundamental (não saber juntar as letras) afeta mais gravemente os alunos de classes sociais menos privilegiadas?

2. O Celular como Ferramenta de Poder Destrutiva

O autor afirma que o celular do aluno se tornou uma "ferramenta de poder destrutiva" e uma forma de "câmera de vigilância" não oficial contra os professores, facilitando denúncias (pedofilia, racismo, homofobia). Analise essa situação utilizando o conceito de Poder (Foucault) e Vigilância. De que forma a tecnologia digital redistribuiu o poder na sala de aula, e por que a possibilidade de registro e viralização (o linchamento social) é percebida como uma ameaça à autoridade e integridade do professor?

3. Precarização do Trabalho e a "Mão de Obra Barata"

O texto amarga a compreensão de que a maioria dos egressos escolares tem o destino funcional de ser "mão de obra barata". Relacione essa afirmação com a Sociologia do Trabalho e a precarização do trabalho. Como a falha na formação básica (refletida na crítica à metodologia pedagógica) contribui para manter a maioria dos egressos em posições de baixa qualificação e remuneração, reforçando a estrutura de desigualdade econômica na sociedade?

4. A Banalização da Ética e a Indústria da Denúncia

O texto critica o "sucesso financeiro e midiático" e a exploração de dramas escolares em "comédias de stand-up". Discuta as consequências sociais da banalização de questões éticas graves (racismo, pedofilia) em um contexto de "indústria da denúncia". Como a busca por indenizações milionárias e o espetáculo midiático desviam o foco da justiça real e comprometem a seriedade necessária ao tratamento desses temas?

5. Ética da Punição e Coerência Social

O autor utiliza a citação do profeta Kacou, comparando a punição policial de homens à maldição de animais por roubar bananas. Explique a reflexão ética e sociológica proposta por essa comparação. O que essa analogia questiona sobre a coerência da punição e a rigidez moral na sociedade, e como ela sugere que a justiça institucional pode ser, em sua essência, apenas uma forma moderna de vingança humana?

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sábado, 12 de novembro de 2022

AGORA, MINHA DENÚNCIA: Zumbis na Sala de Aula ("Um homem não denuncia o outro se não sentir raiva, mas uma mulher faz isso simplesmente por fazer." — Daniela Godoi)

 


AGORA, MINHA DENÚNCIA: Zumbis na Sala de Aula ("Um homem não denuncia o outro se não sentir raiva, mas uma mulher faz isso simplesmente por fazer." — Daniela Godoi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Alunos forçados a ocupar salas de aula lotadas acabam se comportando como zumbis — mortos-vivos que nos mordem de inveja, consomem tudo gratuitamente e perseguem gente “normal” porque desejam arrastar-nos para o inferno deles. Hoje, fui mordido por um desses indivíduos educados. Sofri tanto que agradeci pelo fim do dia, ignorando o amanhecer lindo e o sol que iluminava a todos. Valorizei a simples passagem da tarde, não o pôr do sol; dele, não tirei benefício algum. Restou-me apenas a certeza amarga de estar mais velho e acabado, por dentro e por fora. E a pergunta que me tortura: se não prestam atenção em minha aula, como conseguem ouvir os meus erros para me torturar com eles?

Vivemos uma época que parece um castigo divino aos deuses concursados. As experiências são desagradáveis, pouco proveitosas, e ainda sou obrigado a falar através de uma máscara — essa focinheira imposta por políticos sedentos de poder nos quais não votei. Respiro mal: CO₂ saindo e voltando para dentro, como uma adenóide do Capiroto. Meu cérebro trabalha pela metade; talvez eu mesmo esteja me “emzumbizando”. E, por isso, começo a entender por que tantas crianças e adolescentes não querem estudar: a cabeça dói de tanto respirar poluição e confusão.

Às vezes, imagino que são eles, e não nós, os verdadeiros sábios da história — criaturas das quais deveríamos aprender algo, porque a alienação parece torná-los felizes. Caem e nem sabem onde tropeçaram. A cegueira branca ainda não me consumiu por completo, mas já consigo enxergar um horizonte escurecido. Queria não ver o que me aflige, para não sentir tanta raiva dos zumbis que me rodeiam. Ao menos, são distintos daqueles que se julgam moralmente superiores. Quem ousaria chamar de burro alguém que vive livre da sopa de letras e do cabresto dos letrados?

Quem não nasceu para estudar que levante a mão! Ah, nem precisa — são exatamente esses que corrigem indevidamente seus professores com crueldade, como se vingassem a dor da própria ignorância. E eu? Não tenho culpa. Não inventei nada disso. Sou apenas uma peça desajustada nesse grande mecanismo falho. No fim das contas, também sou vítima da sociedade.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que lemos é uma crônica de desabafo que utiliza metáforas extremas, como a dos "zumbis", para expressar a crise na educação, o sofrimento docente e a alienação. Preparei cinco questões discursivas simples que exploram essa crise sob a ótica da Sociologia da Educação, das relações de poder e do conflito de classes.


1. A Metáfora dos "Zumbis" e a Alienação em Sala de Aula

O professor descreve os alunos indisciplinados como "zumbis — mortos-vivos" que consomem tudo "gratuitamente" e são movidos por "inveja". Utilize o conceito de Alienação (Marx, ou Durkheim) para analisar o significado dessa metáfora. De que forma a descrição dos alunos como seres passivos e "mortos-vivos" reflete a percepção do professor sobre a falta de engajamento e o sentimento de inutilidade do próprio processo de ensino-aprendizagem na sociedade atual?

2. O Conflito de Classes e a "Vingança da Ignorância"

O narrador associa a crueldade dos alunos que corrigem o professor com uma "vingança da dor da própria ignorância" e afirma que eles são "distintos daqueles que se julgam moralmente superiores". Discuta a relação entre estrutura social, acesso ao conhecimento e conflito em sala de aula. Como a indisciplina e a hostilidade podem ser interpretadas como uma expressão de ressentimento ou revolta contra um sistema escolar que é percebido como elitista ou que não atende às necessidades de todas as classes sociais?

3. A "Focinheira" e o Poder Político sobre a Educação

O professor manifesta raiva por ser obrigado a usar a máscara, chamando-a de "focinheira imposta por políticos sedentos de poder", e sente que seu cérebro "trabalha pela metade". Analise essa crítica em relação ao Poder (Foucault) e à Autonomia Docente. De que forma as políticas públicas de saúde ou segurança (como o uso de máscara) são percebidas pelo professor como uma imposição externa que limita sua performance pedagógica e sua liberdade, gerando um sentimento de opressão política no ambiente de trabalho?

4. O Professor como Vítima e o Determinismo Social

O texto conclui com o professor se vendo como "apenas uma peça desajustada nesse grande mecanismo falho" e "vítima da sociedade". Discuta o conceito de Determinismo Social. De que forma o professor utiliza essa visão de si mesmo como "vítima" para justificar sua impotência diante dos problemas escolares e sociais, e o que essa conclusão revela sobre a crise de agência (capacidade de ação individual) na visão do narrador?

5. Alienação versus Sabedoria

O narrador, em um momento de ironia, sugere que os alunos alienados podem ser os "verdadeiros sábios da história" por viverem "livre[s] da sopa de letras e do cabresto dos letrados" e parecem "felizes". Relacione essa ironia com a crítica à sociedade letrada e ao conhecimento formal. O que o professor tenta questionar ao valorizar uma "cegueira branca" ou uma "alienação" que, paradoxalmente, oferecem uma aparente felicidade e liberdade em comparação com a dor e a frustração sentidas pelo indivíduo letrado e consciente?

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DESCONFIE DOS VIRTUOSOS ("De nada adianta a liberdade se não temos liberdade de errar." — Mahatma Gandhi)

 


DESCONFIE DOS VIRTUOSOS ("De nada adianta a liberdade se não temos liberdade de errar." — Mahatma Gandhi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Por que devo confiar nos filósofos de antigamente, muitos deles sem diplomas formais e ainda cultuados por admiradores “démodé”? Talvez o conselho bíblico faça sentido: "Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5:21). O conhecimento humano se renova nesse fluxo contínuo de ideias que atravessam épocas, passando de cabeça em cabeça, de boca em boca. Assim, o passado se depura em suas próprias impurezas até restar apenas o cerne — não sem antes exigir o difícil equilíbrio entre os excessos. No fundo, a harmonia não é um estado definitivo, mas um movimento ritmado; quando o pêndulo se imobiliza, a estagnação se impõe.

Nesse mesmo ritmo, os excessos — de sobra ou de falta — funcionam como combustível da transformação. Cada erro abre espaço para novas tentativas, pois a resolução de uma falha inicial costuma ser o convite para continuar afinando o próprio caminho. Como nos jogos de azar, em que o dinheiro se vai, mas as experiências permanecem, a vida também se organiza em ciclos de ganhos e perdas. Há momentos de conquista e, inevitavelmente, momentos de queda. O valor reside na ousadia da tentativa, que sustenta a persistência: dói menos a frustração de errar do que a vergonha de jamais ter tentado. Paradoxalmente, só reconhecemos o acerto depois de medir as consequências; muitas vezes precisamos repetir o erro para confirmar que, de fato, era erro.

Essa dinâmica revela que, quanto mais leis criamos, mais transgressões surgem. A frase de Raul Seixas ressoa com precisão nesse cenário: "Só há amor quando não existe nenhuma autoridade." Talvez por isso seja mais fácil compreender aqueles que desafiam normas; no fundo, estão testando limites para aprender a lidar com a própria liberdade. São aprendizes que, ainda que se sintam mal amados, praticam no cotidiano o sentido das regras, vivendo a tensão constante entre obediência e autonomia.

No fim, compreender esse movimento — entre tradição e renovação, acerto e falha, ordem e rebeldia — é reconhecer que a vida pulsa justamente na oscilação do pêndulo. Nada permanece intacto, e é nesse vai e vem que amadurecemos. Examinamos, retemos o bem, descartamos o que não serve e seguimos adiante, conscientes de que o equilíbrio não é uma parada, mas um percurso em contínua construção.

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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler nos convida a refletir sobre a renovação do conhecimento, o equilíbrio entre ordem e excesso, e o papel da tentativa e erro no amadurecimento individual e social. Preparei cinco questões discursivas simples que exploram esses conceitos à luz da Sociologia e da Filosofia. Lembrem-se de fundamentar suas respostas nas ideias e metáforas do texto.

1. Tradição, Renovação e o Pêndulo do Conhecimento

O texto questiona a validade de confiar em filósofos antigos e sugere que o conhecimento humano se renova em um "fluxo contínuo de ideias", onde o passado se "depura em suas próprias impurezas". Essa dinâmica é comparada a um "movimento ritmado" de um pêndulo. Explique a metáfora do pêndulo aplicada ao conhecimento e à cultura. Discuta como a tradição (o que é herdado dos filósofos antigos) é simultaneamente desafiada e utilizada como base para a renovação de ideias na sociedade.

2. Excesso, Equilíbrio e Mudança Social

O texto argumenta que os excessos – de sobra ou de falta – funcionam como "combustível da transformação" e que a harmonia não é um estado definitivo, mas um movimento. Em termos de mudança social, como os desequilíbrios (os "excessos") podem ser considerados motores para a evolução, tanto no nível individual (aprendizado) quanto no nível coletivo (superação de falhas)? Qual o risco social implícito na "estagnação" (imobilização do pêndulo)?

3. Falha, Tentativa e Persistência

A falha e a perda são ressignificadas no texto: "dói menos a frustração de errar do que a vergonha de jamais ter tentado", e "muitas vezes precisamos repetir o erro para confirmar que, de fato, era erro". Analise essa visão à luz da ética da persistência e da experiência. Por que o reconhecimento do erro e a ousadia da tentativa são considerados elementos centrais para o aprendizado e para a sustentação da trajetória individual na vida social?

4. Ordem, Transgressão e Liberdade

O texto estabelece uma relação paradoxal: "quanto mais leis criamos, mais transgressões surgem", e cita Raul Seixas: "Só há amor quando não existe nenhuma autoridade." Essa dinâmica é associada ao teste de limites para o exercício da liberdade. Discuta a relação sociológica entre norma (lei), transgressão e liberdade individual. Por que o ato de desafiar normas pode ser interpretado como um aprendizado prático do "sentido das regras" e da busca pela autonomia?

5. O Mandato da Avaliação Crítica

O texto valida o conselho bíblico: "Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5:21) como um princípio para a renovação do conhecimento. Explique o que o texto entende por "Examinai tudo. Retende o bem" no contexto da aquisição de conhecimento e do amadurecimento. Como essa postura de avaliação crítica e seletividade permite ao indivíduo lidar com a tensão entre tradição e renovação na sociedade?

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quinta-feira, 10 de novembro de 2022

MEU REFÚGIO É OUTRO HOSPÍCIO: Recuso à Polarização e Apelo à Ética ("O inferno é um hospício de incuráveis." — Machado de Assis)

 


MEU REFÚGIO É OUTRO HOSPÍCIO: Recuso à Polarização e Apelo à Ética 

("O inferno é um hospício de incuráveis." — Machado de Assis)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego comigo o peso de rótulos como “machista” ou “homofóbico”, atribuídos não por minhas ações, mas por ser simplesmente heterossexual — uma floculação automática que se tornou comum. A injustiça dessa acusação incomoda, sobretudo porque muitos a utilizam como arma política, da mesma forma que fazem com figuras públicas que lhes desagradam. Nunca perturbei ninguém com acusações, tampouco compactuo com qualquer forma de violência. O que me intriga é por que aqueles que se declaram “politicamente corretos” sentem-se autorizados a impor sua modernidade forçada, perturbando meu convívio e produzindo prejuízos sociais, como se lhes coubesse decidir quem merece reprovação ou absolvição.

Esses antagonismos fabricados criam um ambiente doentio: afinal, quem dinamita mais a convivência — o “homofobiado” ou o “homofobiador”, a feminista ou o machista? Em vez de alimentar esse embate artificial, o que deveria prevalecer são valores universais como ética, respeito e moralidade. A sociedade parece ter esquecido esses fundamentos, substituindo-os por disputas identitárias que desestabilizam qualquer mente lúcida dentro dessas “Pandemias conjugadas e compostas”. Entre acusações que se acumulam e polarizações que se aprofundam, o convívio humano transforma-se em um campo minado, onde qualquer passo pode levar ao mal-entendido, à hostilidade ou ao julgamento precipitado.

Diante dessa realidade corrosiva, recuso-me a atravessar o “Rubicon”, metáfora de um limite que, uma vez ultrapassado, transforma o indivíduo — e do qual não se retorna incólume. Atravessar tal fronteira seria aceitar um jogo sem regras, onde novos “Rubicons” surgiriam continuamente, cada qual empurrando a consciência para mais longe da sobriedade. O alerta de Marta Felipe ecoa com precisão: “Depois da recaída fica a lástima de entrar em rua sem saída.” Assim como Lulu Bergantim, que intuía que “O Curralzinho Novo sempre foi outro hospício provisório”, reconheço que certos caminhos não conduzem à liberdade, mas a labirintos onde a razão se perde.

Preservar minha integridade diante desse cenário é, portanto, um ato deliberado de resistência. Prefiro recuar — não por medo, mas por prudência — e manter-me fiel aos princípios que ainda considero sólidos. Em vez de responder à violência simbólica com mais violência, escolho a lucidez crítica. Em vez de aderir ao hospício social que tenta engolir todos em seu caos, opto por permanecer do lado de fora, ainda que isso signifique suportar rótulos injustos. Afinal, como antecipou Machado de Assis, “O inferno é um hospício de incuráveis.” Minha recusa é justamente a tentativa de não me tornar mais um deles.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler levanta questões profundas sobre polarização, identidade, cultura do cancelamento e a ética na convivência. Preparei cinco questões discursivas simples para explorarmos esses conceitos. Lembrem-se de usar os termos sociológicos corretos e de fundamentar suas respostas nas ideias e metáforas apresentadas no texto.


1. Rótulos, Identidade e Estigma

O narrador sente-se injustamente rotulado como "machista" ou "homofóbico" simplesmente por ser heterossexual, definindo isso como uma "floculação automática". Com base nos conceitos de Sociologia da Identidade, defina estigma e explique como o uso de rótulos (etiquetas) em disputas identitárias, conforme descrito no texto, pode gerar prejuízos sociais e afetar a convivência.

2. Antagonismo e Polarização

O texto questiona: "quem dinamita mais a convivência — o 'homofobiado' ou o 'homofobiador', a feminista ou o machista?" Essa pergunta ilustra a polarização social. Analise essa questão e o argumento do texto de que ética, respeito e moralidade deveriam prevalecer. Discuta a função social da polarização e por que ela é descrita como uma "Pandemia conjugada e composta" que impede a lucidez na convivência.

3. Ética e Violência Simbólica

O narrador afirma que nunca perturba ninguém com acusações e não compactua com a violência, mas é atacado por aqueles que se dizem "politicamente corretos", sofrendo prejuízos sociais. Em Sociologia, como podemos classificar a imposição de rótulos e a hostilidade que causam prejuízo no convívio (a forma como a "modernidade forçada" é imposta)? Discuta o conceito de violência simbólica (ou moral) neste contexto.

4. A Metáfora do "Rubicon" e o Ponto de Não Retorno

O narrador usa a metáfora de atravessar o "Rubicon" para descrever um limite perigoso, um ponto de não retorno que leva a uma recaída em "rua sem saída" (desequilíbrio). Interprete, sob a ótica da Sociologia do Indivíduo, o que o narrador busca preservar ao recusar-se a atravessar esse Rubicon. Por que o caos e o desregramento do convívio são comparados a um "hospício social" que ameaça engolir a razão?

5. Resistência e Coerência na Vida Social

O último parágrafo conclui que preservar a integridade é um ato de resistência deliberada, optando pela lucidez crítica em vez da violência simbólica. Defina o que é ação social (Weber) e como a recusa do narrador em aderir à disputa ideológica (mantendo-se do lado de fora) pode ser interpretada como uma forma de resistência social. Qual é o valor dessa coerência moral e intelectual para a trajetória do indivíduo na sociedade contemporânea?

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