A CULMINÂNCIA DO NOVO (A)NORMAL: Reconfiguração Pós-Pandemia ("Desfazer o normal há de ser uma norma." — Manoel de Barros)
O período que se seguiu à pandemia da COVID-19 inaugurou um ciclo de transformações profundas no imaginário coletivo e nas dinâmicas de poder globais. Mais do que um evento sanitário, a pandemia funcionou como um catalisador simbólico, acelerando processos já em curso: a reorganização dos blocos geopolíticos, o redesenho dos discursos de autoridade e a redefinição dos signos que estruturam a vida em sociedade. Nesse cenário, a China passou a ocupar um papel central não apenas como potência econômica, mas como referência estratégica, observando, reinterpretando e adaptando práticas estrangeiras – sobretudo provenientes dos Estados Unidos – em um movimento típico das civilizações que buscam ampliar sua influência cultural e política.
É nesse contexto que objetos aparentemente banais, como a máscara, passaram a ser analisados para além de sua função sanitária. Em seu auge, ela operou como instrumento de proteção coletiva; posteriormente, revelou-se também como artefato simbólico, capaz de expressar medo, disciplina social e pertencimento. O debate que se seguiu não pretende negar sua legitimidade ou utilidade, mas investigar como objetos cotidianos podem se transformar em marcadores de comportamento e controle em determinados contextos históricos. O mesmo cuidado analítico se aplica à discussão em torno da burca, tema altamente sensível e atravessado por múltiplas realidades culturais e religiosas.
Nesse ponto, a reflexão encontra a contribuição de Wassyla Tamzali, que afirma que “a burka não é muçulmana, não integra uma tradição religiosa, mas é um símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres e, portanto, viola os direitos humanos e não pode ser tolerada.” A citação não pretende esgotar o debate, mas evidenciar que determinados símbolos podem ser interpretados, em certos contextos, como instrumentos de coerção. Aqui, a análise não busca equiparar realidades distintas nem deslegitimar escolhas individuais, mas pensar criticamente o modo como vestimentas e objetos podem ser investidos de significados políticos ao longo da história.
Do ponto de vista geopolítico, o imaginário do “Dragão” aplicado à China opera como metáfora de sua ascensão e de sua projeção simbólica no cenário internacional. A referência ao número 666 é aqui compreendida estritamente como imagem cultural, herdeira de tradições apocalípticas e mitológicas do Ocidente, funcionando não como denúncia literal ou conspiratória, mas como signo literário de inquietação, ruptura e transição de eras. Trata-se menos de profecia e mais de linguagem simbólica para expressar o sentimento difuso de que o mundo atravessa uma mutação de paradigmas.
Separadamente, no plano interior e existencial, emerge uma outra dimensão da crise contemporânea: a crise da identidade. A ideia de que “as uvas amadurecem observando outras uvas” torna-se metáfora potente de um mundo orientado pela repetição, pela imitação e pelo contágio de comportamentos. A subjetividade, pressionada por fluxos contínuos de informação e por transformações aceleradas, passa a sofrer um processo de rarefação. O sujeito já não se reconhece com clareza, e a memória — individual e coletiva — torna-se fragmentada, descontínua, instável.
Nesse horizonte, o esquecimento deixa de ser apenas uma falha e assume o estatuto de condição estrutural da experiência moderna. À medida que o sujeito perde a continuidade de si mesmo e a coerência de sua própria narrativa, também se enfraquecem as bases do juízo, da responsabilidade e da culpa. A identidade passa a ser construída a partir de fragmentos presentes, desligados de uma raiz histórica mais profunda. O resultado não é apenas a desorientação individual, mas a sensação civilizacional de habitar um tempo em que o caos já não é exceção, mas estado permanente.
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2013000100022
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Como seu professor de Sociologia, o texto que lemos é profundamente instigante, pois analisa a reconfiguração do poder global, o papel dos símbolos de controle e a crise de identidade no período pós-pandemia. Preparei cinco questões discursivas simples para explorarmos esses temas cruciais.
1. Símbolos de Controle: Máscara versus Burca
O texto estabelece um paralelo simbólico entre a máscara (pós-pandemia) e a burca. A burca é definida por Wassyla Tamzali como “símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres”. Utilize o conceito de Poder Simbólico (Bourdieu) para discutir como objetos ou vestimentas podem transcender sua função prática ou religiosa, atuando como mecanismos de controle e coerção que limitam a liberdade e impõem códigos sociais de submissão.
2. Geopolítica e a Reconfiguração Pós-COVID-19
O texto descreve a China (o Dragão) consolidando seu poder e projetando influência global, enquanto a Ásia Central rejeita símbolos de submissão. Essa dinâmica é ligada a um rearranjamento de forças no plano internacional. Discuta como a pandemia (percebida como uma “missão” cumprida) serviu como um catalisador para a reordenação geopolítica. De que forma a ascensão de novas potências e a adaptação de modelos culturais estrangeiros (como o norte-americano) marcam essa fase de transição e inquietação global?
3. Crise de Identidade e a Imitação Comportamental
A máxima “as uvas amadurecem observando outras uvas” traduz uma crise subjetiva regida pela imitação e pelo contágio comportamental. O sujeito “já não se reconhece com nitidez”. Analise essa crise de identidade sob a perspectiva da Modernidade Líquida (Bauman) ou da Identidade Social. Por que a imitação e a erosão da memória levam à fragilização do self, e como a falta de raízes no passado torna a identidade apenas uma soma de “novas acepções” superficiais?
4. Memória, Juízo e Responsabilidade Social
O texto argumenta que a dissolução da memória conduz à dissolução do juízo e que, sem ela, “não há culpa, não há reconhecimento, nem possibilidade de reconstrução”. Discuta a função social da memória coletiva. De que forma a perda da memória histórica e individual afeta a capacidade de uma sociedade de sustentar o senso de responsabilidade, o julgamento ético e a coesão social, resultando na permanência do “caos como estado crônico”?
5. A Condição do Esquecimento como Existência Permanente
O autor conclui que o esquecimento deixa de ser uma falha e se torna a condição permanente da existência pós-pandemia. Explique as implicações sociológicas dessa conclusão. Se o passado é intencionalmente descartado em favor de "novas acepções", o que acontece com a capacidade da sociedade de aprender com seus erros e de criar um futuro que não seja apenas uma repetição descontextualizada de comportamentos e crises?
O período que se seguiu à pandemia da COVID-19 inaugurou um ciclo de transformações profundas no imaginário coletivo e nas dinâmicas de poder globais. Mais do que um evento sanitário, a pandemia funcionou como um catalisador simbólico, acelerando processos já em curso: a reorganização dos blocos geopolíticos, o redesenho dos discursos de autoridade e a redefinição dos signos que estruturam a vida em sociedade. Nesse cenário, a China passou a ocupar um papel central não apenas como potência econômica, mas como referência estratégica, observando, reinterpretando e adaptando práticas estrangeiras – sobretudo provenientes dos Estados Unidos – em um movimento típico das civilizações que buscam ampliar sua influência cultural e política.
É nesse contexto que objetos aparentemente banais, como a máscara, passaram a ser analisados para além de sua função sanitária. Em seu auge, ela operou como instrumento de proteção coletiva; posteriormente, revelou-se também como artefato simbólico, capaz de expressar medo, disciplina social e pertencimento. O debate que se seguiu não pretende negar sua legitimidade ou utilidade, mas investigar como objetos cotidianos podem se transformar em marcadores de comportamento e controle em determinados contextos históricos. O mesmo cuidado analítico se aplica à discussão em torno da burca, tema altamente sensível e atravessado por múltiplas realidades culturais e religiosas.
Nesse ponto, a reflexão encontra a contribuição de Wassyla Tamzali, que afirma que “a burka não é muçulmana, não integra uma tradição religiosa, mas é um símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres e, portanto, viola os direitos humanos e não pode ser tolerada.” A citação não pretende esgotar o debate, mas evidenciar que determinados símbolos podem ser interpretados, em certos contextos, como instrumentos de coerção. Aqui, a análise não busca equiparar realidades distintas nem deslegitimar escolhas individuais, mas pensar criticamente o modo como vestimentas e objetos podem ser investidos de significados políticos ao longo da história.
Do ponto de vista geopolítico, o imaginário do “Dragão” aplicado à China opera como metáfora de sua ascensão e de sua projeção simbólica no cenário internacional. A referência ao número 666 é aqui compreendida estritamente como imagem cultural, herdeira de tradições apocalípticas e mitológicas do Ocidente, funcionando não como denúncia literal ou conspiratória, mas como signo literário de inquietação, ruptura e transição de eras. Trata-se menos de profecia e mais de linguagem simbólica para expressar o sentimento difuso de que o mundo atravessa uma mutação de paradigmas.
Separadamente, no plano interior e existencial, emerge uma outra dimensão da crise contemporânea: a crise da identidade. A ideia de que “as uvas amadurecem observando outras uvas” torna-se metáfora potente de um mundo orientado pela repetição, pela imitação e pelo contágio de comportamentos. A subjetividade, pressionada por fluxos contínuos de informação e por transformações aceleradas, passa a sofrer um processo de rarefação. O sujeito já não se reconhece com clareza, e a memória — individual e coletiva — torna-se fragmentada, descontínua, instável.
Nesse horizonte, o esquecimento deixa de ser apenas uma falha e assume o estatuto de condição estrutural da experiência moderna. À medida que o sujeito perde a continuidade de si mesmo e a coerência de sua própria narrativa, também se enfraquecem as bases do juízo, da responsabilidade e da culpa. A identidade passa a ser construída a partir de fragmentos presentes, desligados de uma raiz histórica mais profunda. O resultado não é apenas a desorientação individual, mas a sensação civilizacional de habitar um tempo em que o caos já não é exceção, mas estado permanente.
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2013000100022
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Como seu professor de Sociologia, o texto que lemos é profundamente instigante, pois analisa a reconfiguração do poder global, o papel dos símbolos de controle e a crise de identidade no período pós-pandemia. Preparei cinco questões discursivas simples para explorarmos esses temas cruciais.
1. Símbolos de Controle: Máscara versus Burca
O texto estabelece um paralelo simbólico entre a máscara (pós-pandemia) e a burca. A burca é definida por Wassyla Tamzali como “símbolo de dominação, de terrorismo intelectual, religioso e moral contra a liberdade das mulheres”. Utilize o conceito de Poder Simbólico (Bourdieu) para discutir como objetos ou vestimentas podem transcender sua função prática ou religiosa, atuando como mecanismos de controle e coerção que limitam a liberdade e impõem códigos sociais de submissão.
2. Geopolítica e a Reconfiguração Pós-COVID-19
O texto descreve a China (o Dragão) consolidando seu poder e projetando influência global, enquanto a Ásia Central rejeita símbolos de submissão. Essa dinâmica é ligada a um rearranjamento de forças no plano internacional. Discuta como a pandemia (percebida como uma “missão” cumprida) serviu como um catalisador para a reordenação geopolítica. De que forma a ascensão de novas potências e a adaptação de modelos culturais estrangeiros (como o norte-americano) marcam essa fase de transição e inquietação global?
3. Crise de Identidade e a Imitação Comportamental
A máxima “as uvas amadurecem observando outras uvas” traduz uma crise subjetiva regida pela imitação e pelo contágio comportamental. O sujeito “já não se reconhece com nitidez”. Analise essa crise de identidade sob a perspectiva da Modernidade Líquida (Bauman) ou da Identidade Social. Por que a imitação e a erosão da memória levam à fragilização do self, e como a falta de raízes no passado torna a identidade apenas uma soma de “novas acepções” superficiais?
4. Memória, Juízo e Responsabilidade Social
O texto argumenta que a dissolução da memória conduz à dissolução do juízo e que, sem ela, “não há culpa, não há reconhecimento, nem possibilidade de reconstrução”. Discuta a função social da memória coletiva. De que forma a perda da memória histórica e individual afeta a capacidade de uma sociedade de sustentar o senso de responsabilidade, o julgamento ético e a coesão social, resultando na permanência do “caos como estado crônico”?
5. A Condição do Esquecimento como Existência Permanente
O autor conclui que o esquecimento deixa de ser uma falha e se torna a condição permanente da existência pós-pandemia. Explique as implicações sociológicas dessa conclusão. Se o passado é intencionalmente descartado em favor de "novas acepções", o que acontece com a capacidade da sociedade de aprender com seus erros e de criar um futuro que não seja apenas uma repetição descontextualizada de comportamentos e crises?
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