"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sábado, 31 de dezembro de 2022

DEVAGAR QUASE PARANDO ("Escalar colinas difíceis requer um ritmo lento no início." — William Shakespeare)

 


DEVAGAR QUASE PARANDO ("Escalar colinas difíceis requer um ritmo lento no início." — William Shakespeare)

Por Claudeci Ferrfeira de Andrade

Naquela manhã de domingo, enquanto caminhava pelas ruas vazias da cidade, senti o peso do silêncio. As igrejas, outrora cheias de fiéis em busca de conforto espiritual, agora mantinham suas portas fechadas. Ironicamente, no momento em que mais precisávamos de fé e esperança, aqueles que se diziam portadores da palavra divina se escondiam atrás de suas próprias muralhas. Refleti sobre como as instituições que deveriam nos amparar pareciam ter falhado conosco, prometendo milagres e transformações, mas se retraindo em momentos de necessidade.

Passei em frente à escola onde leciono há anos. As salas de aula, antes repletas de vozes animadas e risadas contagiantes, agora ecoavam um vazio ensurdecedor. Pensei em como nós, educadores, nos vimos forçados a reinventar nossa profissão da noite para o dia. Aulas online, videoconferências intermináveis e a constante sensação de que algo se perdia na tradução digital do conhecimento. As escolas, guardiãs do conhecimento e da socialização, foram reduzidas a telas frias de computador.

Continuei meu caminho, observando as pessoas que cruzavam meu caminho. Todas mascaradas, como personagens de um filme distópico que se tornara nossa realidade. Percebi que já não reconhecia rostos familiares, apenas olhos que expressavam uma mistura de medo e resignação. As máscaras, que um dia foram símbolo de proteção, tornaram-se um manto que nos separava ainda mais, sufocando a essência do que somos.

Cheguei ao parque da cidade, meu refúgio habitual. Sentei-me em um banco solitário, contemplando o cenário ao meu redor. As crianças que antes corriam e brincavam livremente agora estavam confinadas em suas casas, privadas da simplicidade da infância. Os idosos que costumavam jogar xadrez ou conversar animadamente agora eram aconselhados a se isolarem para sua própria proteção. Senti-me como um habitante solitário em meio a multidões, preferindo a solidão à agitação que antes me incomodava.

Refleti sobre meu papel nesse grande teatro social. Sempre busquei inovar, mas a inovação é um ato que demanda coragem. Como ensinar criatividade a quem nunca teve a oportunidade de exercê-la? O pobre, em sua essência, é criativo, mas a falta de iniciativa pode transformar essa criatividade em mera frustração. Percebi que minha própria produção no trabalho refletia esse embaraço interno, como se a armadura que vestia fosse tão pesada que me impedia de avançar.

Senti-me cansado, não apenas fisicamente, mas espiritualmente. A máscara que usava não era apenas uma proteção contra o vírus, mas um símbolo de tudo o que havíamos perdido: nossa liberdade, nossos sorrisos, nossa capacidade de nos conectarmos verdadeiramente uns com os outros. Era como se estivéssemos todos presos em uma linha tênue entre o ser e o parecer, entre a ação e a inércia.

Enquanto observava o sol se pôr no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, percebi que, apesar de tudo, ainda havia beleza no mundo. Talvez fosse esse o nosso papel agora: encontrar a luz em meio à escuridão, criar conexões mesmo à distância, e manter viva a chama da esperança. A verdadeira revolução poderia começar quando decidíssemos tirar a máscara e, por um momento, permitir que a vulnerabilidade nos unisse.

Levantei-me do banco, ajustando minha máscara. Amanhã seria outra segunda-feira de aulas online, outro dia de sorrisos escondidos e vozes abafadas. Mas também seria mais um dia de oportunidade para fazer a diferença, mesmo que de forma pequena e aparentemente insignificante. Ao invés de me perguntar o que posso fazer do que fizeram de mim, comecei a refletir sobre o que posso criar a partir dessa dor.

Caminhei de volta para casa, carregando o peso de minhas reflexões, mas também uma centelha de determinação. Se as instituições que deveriam nos guiar haviam falhado, cabia a cada um de nós ser a mudança que queríamos ver no mundo. Afinal, não são as máscaras que definem quem somos, mas sim nossas ações e a compaixão que demonstramos uns pelos outros, mesmo nos tempos mais sombrios. E, quem sabe, esse processo de transformação não comece por nós mesmos, libertando-nos da armadura que nos aprisiona e transformando este mundo em um lugar onde respirar é um ato de coragem, e não de receio. (CiFA


Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e detalhadas para as seguintes questões:


O texto inicia com uma descrição da experiência pessoal do narrador durante a pandemia. Qual a importância dessa experiência individual para a compreensão dos impactos sociais mais amplos do período?


Como as instituições sociais, como igrejas e escolas, são retratadas no texto? Quais as críticas implícitas e explícitas à atuação dessas instituições durante a pandemia?


A máscara é utilizada como um símbolo no texto. Quais os diferentes significados atribuídos à máscara ao longo da narrativa?


O narrador reflete sobre a importância da criatividade e da inovação, especialmente no contexto da pandemia. Qual a relação entre esses conceitos e a capacidade de superar desafios?


Qual a mensagem central do texto? Como as reflexões do narrador podem inspirar mudanças individuais e coletivas?


Estas questões abordam os seguintes aspectos do texto:


A experiência individual e o contexto social: A primeira questão busca conectar a experiência pessoal do narrador com os desafios enfrentados pela sociedade como um todo.

Crítica às instituições: A segunda questão analisa a visão crítica do autor em relação às instituições sociais, como igrejas e escolas.

Simbolismo da máscara: A terceira questão explora os diferentes significados atribuídos à máscara ao longo da narrativa.

Criatividade e inovação: A quarta questão aprofunda a reflexão sobre a importância da criatividade e da inovação para superar desafios.

Mensagem central e perspectivas futuras: A quinta questão busca sintetizar a mensagem principal do texto e as perspectivas de futuro apresentadas pelo autor.

Comentários

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw) ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

 


O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No ensino básico — sobretudo no terreno irregular da escola regular, pública ou privada — o professor ainda é apresentado como o “guardião da sala de aula”. Espera-se dele a autoridade máxima, capaz de manter corpos sentados, bocas fechadas e olhares fixos na lousa. Essa autoridade, porém, é uma máscara mal ajustada. O conteúdo, o ritmo, o volume de avaliações e até os critérios de nota chegam prontos, definidos previamente. A soberania docente termina onde começa a planilha da coordenação. Quando pais e alunos percebem que o professor é apenas o executor de ordens — um mediador treinado para ser “agradável” em nome de uma didática supostamente moderna — o respeito se esvai. Ele deixa de ser referência e passa a ocupar um lugar incômodo: o de bode expiatório, alvo permanente da erosão cotidiana de sua dignidade profissional.

Nesse cenário, a autoridade real desloca-se em silêncio. Já não está na sala, mas nos bastidores: nos fornecedores de materiais, nos discursos pedagógicos de ocasião e, paradoxalmente, nos próprios alunos. Estes aprendem cedo a lógica do jogo: fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Instala-se uma vigilância difusa, quase foucaultiana, em que qualquer gesto vira prova e qualquer palavra, processo. O docente vive sob uma CPI permanente, sempre à espera de ser convocado à diretoria por um boato, uma queixa ou uma interpretação enviesada. Se o sistema legitima sua humilhação, por que o aluno haveria de reconhecê-lo como autoridade? Todo acordo de remanejamento ou alteração na dinâmica das aulas esconde, no fundo, uma exigência de subserviência — não pedagógica, mas simbólica.

É nesse ponto que a virada digital, muitas vezes tratada como detalhe técnico, revela seu peso filosófico. A virtualização das aulas não surge como moda, mas como ruptura no regime de presença e vigilância. O corpo do professor deixa de ser o principal campo de controle. Conflitos típicos do espaço físico arrefecem: diminuem os casos de assédio direto, as acusações baseadas na proximidade corporal e o constrangimento gerado pelo contato inevitável. No ambiente digital, a interação passa a ser mediada por registros, horários e telas. A presença de alunos menores nas redes institucionais do professor torna-se comum, e o envio de textos, links ou ilustrações já não carrega automaticamente a suspeita moral que antes pairava sobre qualquer aproximação. A disciplina muda de forma; o olhar vigilante não desaparece, mas se redistribui.

O que, afinal, está em jogo nessa transformação? Não se trata de romantizar o ensino remoto nem de negar seus limites evidentes, mas de reconhecer que a crise — sanitária, social e institucional — expôs a falência de um modelo de autoridade sustentado apenas pela presença física e pelo controle. A aprovação automática, adotada como paliativo, não resolve o problema; apenas reduz o confronto direto e escancara o esvaziamento do sentido avaliativo. O vírus, sem metáforas excessivas, forçou a educação a encarar sua própria contradição: ou repensa a autoridade como responsabilidade compartilhada e reconhecimento mútuo, ou continuará produzindo máscaras cada vez mais frágeis para um poder que já não convence. A reconfiguração está em curso; resta saber se teremos coragem de conduzi-la conscientemente — ou se seguiremos fingindo que tudo ainda funciona como antes.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/


Olá! Como professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no meu texto acima. O foco aqui é estimular a reflexão crítica sobre as relações de poder, as instituições e as mudanças sociais provocadas pela tecnologia no ambiente escolar.


1. A Ilusão da Autoridade: O texto afirma que o professor é visto como o "guardião da sala de aula", mas que essa autoridade é, na verdade, uma "máscara mal ajustada". Explique, com base no texto, por que o autor considera que o poder real do professor é limitado em relação à coordenação escolar.

2. O Fingimento Institucional: O autor descreve uma "lógica do jogo" onde os alunos fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Na sua visão, como esse "teatro" prejudica a função social da escola e a formação do indivíduo?

3. Vigilância e Controle: O texto menciona uma "vigilância difusa, quase foucaultiana". Utilizando o conceito de controle social, explique como a "CPI permanente" (boatos, queixas e interpretações enviesadas) afeta o comportamento e a liberdade do docente no exercício de sua profissão.

4. O Impacto do Digital: Segundo o texto, a virtualização das aulas causou uma "ruptura no regime de presença". De que maneira o ambiente digital alterou os conflitos de proximidade física e a suspeita moral que pairava sobre a relação entre professores e alunos menores?

5. Crise e Reconfiguração: O autor conclui que a crise sanitária expôs a falência de um modelo de autoridade baseado apenas no controle físico. O que o texto sugere como alternativa para que a educação não continue produzindo "máscaras frágeis"?

Comentários

A TERRA É O INFERNO, MORADA DOS DEMÔNIOS ("Aqueles que repudiaram o seu demônio importunam-nos com os seus anjos." — (Henri Michaux)

 


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Simulacro da Gestão: Entre Chefes Impostos e a Ética da Resistência ("Muitos dos que entram para a vida pública deixam a ética na privada. Literalmente." — Drabowski)

 


O Simulacro da Gestão: Entre Chefes Impostos e a Ética da Resistência ("Muitos dos que entram para a vida pública deixam a ética na privada. Literalmente." — Drabowski)

 Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na escola pública, convém lembrar um princípio elementar que costuma se perder nos corredores do poder: hierarquia não é propriedade. Diretores não são patrões; são servidores. Administram um serviço público, não um feudo pessoal. Respondemos ao Estado e à comunidade, não ao humor de quem ocupa temporariamente a cadeira da gestão. Quando esse limite se dissolve, o que deveria ser coordenação vira dominação — e o administrativo, arma.

Há situações em que atrasos documentais, entraves burocráticos e ruídos no fluxo salarial parecem nascer mais da incompetência técnica do que da má-fé. Em outras, porém, o uso seletivo da norma sugere algo mais grave: a transformação da engrenagem institucional em instrumento de pressão. Se isso ocorre por retaliação deliberada, trata-se de abuso que exige denúncia formal; se ocorre por despreparo, revela o mesmo resultado perverso. Em ambos os casos, a dignidade do trabalhador é a primeira vítima — e isso jamais deveria ser tratado como detalhe administrativo.

Nem toda gestão é igual, e negar isso empobrece a crítica. Há gestores por indicação política, há gestores que fracassaram na sala de aula e apenas deslocaram a ineficácia para outro espaço, mas há também aqueles que escolheram a gestão por vocação pedagógica, eleitos democraticamente e comprometidos com o coletivo. O problema não é o cargo; é a lógica que o atravessa. Mesmo líderes legitimados podem sucumbir ao autoritarismo — o poder corrói — assim como chefes impostos podem, por competência e ética, conquistar respeito. A realidade é mais ambígua do que a oposição simplista entre monstros e salvadores.

Minha experiência recente revela esse paradoxo. Recebo elogios sobre inteligência e lucidez, seguidos de correções constantes que esvaziam minhas decisões. O elogio, percebo, funciona como espelho narcísico da chefia; a crítica, como mecanismo de controle. Uma mente reflexiva não aceita a ordem pela ordem. Liderar não é mandar, é justificar, convencer, sustentar o conflito e, sobretudo, não temer ser superado. O verdadeiro líder sabe que cresce quando o outro cresce. O chefe, ao contrário, vê na excelência alheia uma ameaça direta ao simulacro do poder.

É preciso cautela ao julgar gestores como um bloco homogêneo. Ainda assim, não se pode ignorar um padrão recorrente: muitos chegam à gestão sem formação para a gestão democrática, carregando práticas autoritárias herdadas de uma cultura escolar vertical, marcada por indicações políticas, precarização estrutural e competição por recursos escassos. A escola brasileira ainda reproduz, em miniatura, a herança colonial que naturaliza vigilância, punição e obediência cega. Como advertiu Jean Guéhenno: "A raça que acredita nos chefes sempre me pareceu a mais estúpida de todas as espécies humanas."

Nesse ambiente, o erro deixa de ser aprendizagem e passa a ser ameaça. Para o chefe, o inovador é um problema; para o educador, o erro é campo fértil. Onde a autoridade se sustenta pelo medo, toda criatividade soa como insubordinação.

O efeito colateral é o isolamento. Antigos colegas se afastam — não apenas por medo de rótulos, mas também por cansaço, divergência legítima ou desejo de paz em meio ao desgaste cotidiano. Precisei reconhecer que, muitas vezes, a resistência solitária também constrói muros. Talvez minha forma de confrontar — direta, inflexível — contribua para o silêncio ao redor. Resistir sozinho pode parecer coragem; resistir em rede exige algo mais difícil: escuta, alianças imperfeitas, paciência política.

Quando afirmo que não aceito discípulos, não o faço por desprezo ao coletivo, mas por desconfiança do consenso fácil. A adulação alimenta o chefe; a divergência sustenta o pensamento livre. Ainda assim, aprendi que nenhuma resistência se sustenta sem pedagogia política. Sócrates recusou o papel de guru, mas formou escola; Paulo Freire rejeitou o vanguardismo, mas organizou movimentos. Não basta estar certo — é preciso formar outros capazes de questionar, inclusive a nós mesmos.

Hoje, minha busca é mais modesta e, talvez, mais radical: resgatar o prazer pelo ofício. Em meio ao desgaste da pandemia, ao ceticismo profissional e à gestão por desempenho imagético, tento ressignificar minha prática. O sistema insiste em nos fazer sentir velhos, não pelo tempo vivido, mas pela sensação de impotência programada. No entanto, a história mostra que a maturidade pode ser fonte de radicalidade lúcida, não de resignação.

Vivemos sob o império das imagens. Projetos vistosos rendem aplausos; fotos em redes sociais substituem aprendizagem real; assembleias encenam democracia enquanto decisões já estão tomadas. A “boa aparência” abre portas que a virtude intelectual raramente consegue destrancar. Minhas qualidades, como as de tantos outros, não cabem no enquadramento superficial — e talvez por isso incomodem.

Resta, então, a pergunta que não deve ficar sem resposta: o que dói mais — ser subjugado por um chefe imposto ou ser traído por um gestor eleito? A traição fere mais fundo, pois quebra a confiança; o chefe imposto, porém, é politicamente mais nocivo, pois nega a própria ideia de democracia. A saída não está em escolher o mal menor, mas em construir mecanismos reais de antiabusos: conselhos escolares deliberativos, transparência radical, mandatos revogáveis, participação efetiva de professores, estudantes e comunidade.

Não escrevo para demonizar indivíduos, mas para expor estruturas. Um chefe que legisla para si cria normas frágeis que convidam à desobediência silenciosa. Onde reina o autoritarismo, nunca haverá um trabalhador bom o suficiente, porque toda competência ameaça o teatro do poder. A resistência, para deixar de ser apenas ética individual, precisa tornar-se projeto coletivo — ou continuará sendo apenas um gesto digno, porém solitário, contra o simulacro da gestão.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-


Aqui estão 5 questões discursivas para refletirmos sobre essa realidade:


1. Hierarquia vs. Patrimonialismo: O texto afirma que "hierarquia não é propriedade" e que diretores não são "patrões". Na Sociologia, chamamos de patrimonialismo quando alguém confunde o que é público (o cargo, a escola) com o que é privado (seus desejos, seu humor). Explique por que essa confusão entre o público e o privado prejudica a democracia dentro da escola.

2. O Uso Político da Burocracia: O autor menciona que "entraves burocráticos" e "fluxo salarial" podem ser usados como instrumentos de pressão ou retaliação. Como o uso da burocracia para punir adversários políticos ou pessoais fere o princípio da impessoalidade, que deveria reger todo o serviço público?

3. Liderança vs. Chefia Autoritária: Segundo o texto, o líder "não teme ser superado", enquanto o chefe vê na excelência alheia uma "ameaça ao simulacro do poder". Relacione essa ideia ao conceito de autoridade legítima: por que um gestor que convence e motiva a equipe tem mais autoridade real do que aquele que apenas manda por ter um cargo?

4. A Cultura Escolar e a Herança Colonial: O texto sugere que a escola brasileira reproduz uma "herança colonial" que naturaliza a "obediência cega". De que forma a falta de uma gestão democrática (com participação de alunos, pais e professores) contribui para manter esse modelo de escola autoritária e punitiva?

5. Imagem vs. Realidade (Sociedade do Espetáculo): O autor critica o "império das imagens", onde fotos em redes sociais e projetos vistosos substituem a aprendizagem real. Como a preocupação excessiva com o "marketing" e a "boa aparência" da escola pode acabar escondendo os problemas reais vividos por professores e estudantes?

Dica do Prof: Ao responderem, pensem no conceito de Cidadania Ativa. O texto termina sugerindo que a resistência não pode ser apenas individual, mas precisa de "mecanismos reais de antiabusos". Que tipos de conselhos ou espaços de fala vocês acham que faltam na nossa escola para que todos sejam ouvidos de verdade?

Comentários

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Rigor Sob Ataque: A Ética do Registro contra o Simulacro Pedagógico ("Há tantos paradigmas na sociedade atual que nossa educação deve voltar para a Grécia Antiga para sobreviver." — Cassio Murilo)

 


O Rigor Sob Ataque: A Ética do Registro contra o Simulacro Pedagógico ("Há tantos paradigmas na sociedade atual que nossa educação deve voltar para a Grécia Antiga para sobreviver." — Cassio Murilo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Não é o rigor que está sob ataque — é a sua caricatura. Compreendi isso quando passei a ser questionado por manter registros cuidadosos do percurso dos meus alunos. Não anotações por fetiche burocrático, mas vestígios da aprendizagem: tentativas, avanços, tropeços e retornos. Registro não como sentença, mas como memória do caminho. Ainda assim — ou talvez justamente por isso — fui acusado de dureza excessiva, como se avaliar com critério fosse sinônimo de insensibilidade.

Com o tempo, aprendi que o problema não está no registro em si, mas na ilusão de que ele basta. Contar atividades não é medir aprendizagem; é apenas um indício. A justiça pedagógica não nasce da quantidade de marcas no caderno, mas da leitura atenta do que elas revelam: compreensão conceitual, capacidade de aplicação e progressão possível dentro das condições concretas de cada estudante. Rigor não é rigidez; é responsabilidade intelectual.

Nos conselhos de classe, esse debate raramente amadurece. O que predomina é um embaraço coletivo diante da complexidade do processo educativo. Alguns recorrem a atalhos: ora o contexto social se torna álibi absoluto, ora a simpatia pessoal pesa mais do que o percurso acadêmico. Não falo de equidade pedagógica — essa é indispensável e exige suporte diferenciado para que todos aprendam de fato. Refiro-me ao risco oposto: o assistencialismo vazio que aprova sem ensinar, que absolve sem formar, que confunde cuidado com desistência.

É inegável: criança com fome não aprende; aluno exausto não rende; quem vive sob violência não se concentra. Reconhecer isso não é sentimentalismo, mas rigor pedagógico ampliado. O equívoco está em tratar a adversidade como ponto final, quando deveria ser ponto de partida para intervenções concretas — apoio, reforço, tempo, mediação. Aprovar sem oferecer esses meios não é justiça social; é apenas empurrar o problema adiante.

O mal-estar se intensifica quando o debate cede lugar à personalização. Discordar passa a ser ataque; questionar, afronta. A divergência pedagógica é lida como deslealdade, e o diálogo se dissolve em ironias sutis e silêncios calculados. Talvez não se trate de covardia, mas de exaustão, medo, precariedade, salários indignos ou gestões autoritárias. Culpabilizar indivíduos é simples; difícil é encarar o peso estrutural que atravessa o trabalho docente.

Também precisei rever minhas próprias metáforas. A escola não é um hospital, nem os alunos são pacientes. Não há diagnóstico único nem cura prescrita por especialista. Há conflitos legítimos de concepções e disputas éticas e políticas sobre o que significa ensinar, avaliar e promover. Pedagogia não é ciência exata; é relação humana mediada por saberes. Emoção não é inimiga da objetividade — o que a compromete é a arbitrariedade sem fundamento.

Ainda assim, recuso o conforto do simulacro. Há algo profundamente adoecido em um sistema que mascara fracassos com discursos otimistas, que troca aprendizagem por estatística e chama de sucesso aquilo que apenas evita o conflito. No entanto, aprendi que denunciar, por si só, não transforma. Transparência sem organização vira desabafo; crítica sem proposta vira ruído.

Talvez o verdadeiro desafio seja outro: construir espaços reais de deliberação pedagógica, onde rigor e sensibilidade não se anulem, onde a avaliação seja instrumento de aprendizagem — não de punição nem de maquiagem. Uma escola que reprova menos porque ensina mais; que promove com apoio, não por abandono; que registra para compreender, não para se blindar.

Não escrevo para apontar culpados, mas para recusar a anestesia. Entre o silêncio conivente e o grito estéril, escolho a palavra que insiste — não como vacina milagrosa, mas como convite incômodo a pensar, juntos, o que estamos fazendo da educação e do futuro que fingimos avaliar.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/


Como seu professor de Sociologia, fico entusiasmado com a profundidade deste texto. Ele nos convida a pensar a educação não apenas como uma técnica de ensino, mas como uma instituição social atravessada por questões de ética, poder e justiça. Para nossa aula, elaborei 5 questões que conectam esses dilemas ao nosso cotidiano e aos conceitos sociológicos de objetividade, subjetividade e responsabilidade institucional:


1. Rigor vs. Rigidez: O texto diferencia "rigor" (responsabilidade intelectual) de "rigidez" (punição ou frieza). Sociologicamente, por que é importante que o professor mantenha critérios claros de avaliação em vez de decidir a aprovação de um aluno baseando-se apenas em "simpatia pessoal" ou "sentimentalismo"?

2. A Função Social do Registro: O autor afirma que o registro não deve ser um "fetiche burocrático", mas uma "memória do caminho". Como o registro detalhado da aprendizagem de cada aluno pode servir como uma ferramenta de justiça social, garantindo que as dificuldades individuais sejam vistas e tratadas, em vez de ignoradas?

3. Assistencialismo vs. Equidade: O texto critica o "assistencialismo vazio que aprova sem ensinar". Qual é a diferença entre equidade pedagógica (dar suporte diferenciado para quem mais precisa) e a aprovação automática sem garantia de aprendizado? Qual dessas práticas realmente combate a desigualdade social a longo prazo?

4. O Peso das Estruturas: O autor menciona que o silêncio e o mal-estar dos professores podem ser causados por "exaustão, medo, precariedade ou salários indignos". Como as condições materiais de trabalho (o ambiente e o salário) influenciam a capacidade de um profissional de ser ético e cuidadoso com seus alunos?

5. A Escola como Espaço de Verdade: Ao final, o texto recusa o "simulacro" (a mentira organizada) de mascarar fracassos com estatísticas otimistas. Por que uma sociedade que aceita "maquiar" dados de educação, em vez de enfrentar a falta de aprendizado, está prejudicando o seu próprio futuro e a formação de seus cidadãos?

Dica do Prof: Para responder, lembrem-se que a escola é o lugar onde aprendemos a viver em sociedade. Se a escola aceita a "mentira" ou o "jeitinho" na avaliação, que tipo de valores estamos ensinando para os futuros cidadãos do Brasil? Reflitam sobre a importância da verdade para a construção de uma nação justa.

Comentários

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A LEVEZA DA SOCIALIZAÇÃO: O Simulacro da Inclusão e a Ética da "Leveza" ("Gentil é aquele que passa pela vida do outro, toca-o com leveza e marca-o onde ninguém mais pode ver." — Josie Conti)

 


A LEVEZA DA SOCIALIZAÇÃO: O Simulacro da Inclusão e a Ética da "Leveza" ("Gentil é aquele que passa pela vida do outro, toca-o com leveza e marca-o onde ninguém mais pode ver." — Josie Conti)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A inclusão, quando nasce como direito, é um gesto civilizatório; quando sobrevive apenas como protocolo, converte-se em encenação. Não é o convívio entre diferenças que fracassa na escola, mas a maneira descuidada com que ele é conduzido. Repete-se a palavra socialização como um mantra burocrático, enquanto se negligencia o essencial: acessibilidade concreta, apoio especializado, formação docente e condições materiais mínimas. O efeito não é inclusão — é abandono coletivo travestido de virtude administrativa.

Não se questiona o princípio de que todos pertencem aos mesmos espaços, mas a recusa em admitir que pertencimento exige responsabilidade. Inserir alunos em salas regulares sem garantir mediações adequadas não é emancipar; é transferir o peso do fracasso aos mais vulneráveis e, depois, celebrar estatísticas. Direitos humanos não se medem por planilhas de eficiência, mas tampouco resistem ao descaso cotidiano.

Recordo um episódio aparentemente banal, ocorrido em um corredor escolar. Caminhava entre as salas, distraído, com a mochila aberta. Bastaram alguns minutos para que meus pertences desaparecessem. O fato, isoladamente, não sustenta tese alguma — furtos acontecem em qualquer espaço humano. O que inquieta é o entorno silencioso do ocorrido: ninguém viu, ninguém soube, ninguém se responsabilizou. Apenas após insistência, diálogo e certo constrangimento ético, os objetos começaram a reaparecer, fragmentados, como se a devolução fosse concessão, não obrigação.

A escola, destinada à formação moral e intelectual, não pode tratar a desonestidade como ruído tolerável nem a omissão como neutralidade pedagógica. Educar não se limita à transmissão de conteúdos ou à gestão de conflitos: implica nomear valores, estabelecer limites e compreender causas — sociais, econômicas, afetivas — sem jamais naturalizar o erro. Punir sem compreender é fracasso; compreender sem agir também o é.

É fácil dormir tranquilo quando a consciência foi anestesiada pela retórica do “estamos fazendo o possível”. Mais difícil é reconhecer que, ao economizar em profissionais de apoio, improvisar adaptações e sobrecarregar docentes, a instituição não inclui: expõe. E, ao expor, produz exatamente aquilo que depois lamenta — vínculos frágeis, ética rarefeita, convivência sem cuidado.

A fé, quando invocada, deveria aprofundar a responsabilidade, jamais substituí-la. Nenhuma tradição moral consistente legitima a negligência disfarçada de boa intenção. Cuidar dos vulneráveis exige mais do que discursos piedosos: requer estruturas, escolhas e coragem institucional.

Ao fim do dia, persiste a pergunta incômoda: que tipo de leveza se experimenta ao cumprir um dever apenas no papel? Talvez a leveza de quem confundiu direito com favor, inclusão com mera presença física, justiça com conformismo. A história, porém, é paciente. E a ética, ainda que tarde, sempre cobra.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-


Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto nos traz um debate urgente sobre a ética das instituições. Ele nos provoca a pensar se a escola está realmente incluindo as pessoas ou apenas "cumprindo tabela". Para nossa atividade, elaborei 5 questões discursivas que conectam o texto aos conceitos de Direitos Humanos, Instituições Sociais e Responsabilidade Ética:


1. Inclusão Real vs. Inclusão de Protocolo: O texto afirma que a inclusão sem apoio especializado é um "abandono coletivo travestido de virtude". Explique, com suas palavras, por que apenas colocar um aluno com deficiência em uma sala regular, sem oferecer os profissionais e materiais necessários, não pode ser considerado um processo de inclusão verdadeiro.

2. A Responsabilidade no Espaço Público: No episódio da mochila, o autor destaca que o que mais incomodou não foi o furto, mas o "entorno silencioso" (ninguém viu, ninguém se responsabilizou). Como a falta de compromisso dos indivíduos com o que acontece ao seu redor enfraquece a vida em comunidade e a confiança na escola?

3. O Perigo da Naturalização do Erro: O autor diz que educar "implica nomear valores [...] sem jamais naturalizar o erro". Na Sociologia, "naturalizar" algo significa acreditar que aquilo "é assim mesmo e não pode mudar". Por que é perigoso para uma sociedade quando a escola começa a tratar a desonestidade ou o descaso como algo "normal"?

4. Estatística vs. Dignidade Humana: Segundo o texto, celebrar estatísticas de inclusão enquanto se "transfere o peso do fracasso aos mais vulneráveis" é uma forma de desonestidade. Como a busca por "números positivos" nas planilhas do governo pode acabar escondendo a realidade precária que alunos e professores vivem no dia a dia?

5. Ética e Consciência: A pergunta final do texto questiona a "leveza" de quem cumpre o dever apenas no papel. Relacione essa reflexão ao conceito de Cidadania: Ser um bom cidadão e um bom profissional da educação exige apenas seguir as regras escritas ou exige um compromisso ético real com o outro?

Dica do Prof: Para responder, pensem no conceito de Alteridade — que é a capacidade de reconhecer o outro como alguém que tem direitos e necessidades diferentes das nossas. O texto sugere que a inclusão só acontece de verdade quando a gente para de olhar para o "papel" e começa a olhar para a "pessoa".

Comentários