"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PAGANDO LIMPA FICHA ("A dívida é a mãe prolífica de loucuras e crimes." — Benjamin Disraeli)

 


PAGANDO LIMPA FICHA ("A dívida é a mãe prolífica de loucuras e crimes." — Benjamin Disraeli)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo — talvez cedo demais — que certas palavras servem de atalho para escapar da responsabilidade. Perdão é uma delas. Há quem a pronuncie como quem joga cal sobre escombros ainda quentes, acreditando que o silêncio fará o estrago desaparecer. Não faz. Apenas o oculta por um tempo.

Perdoar quem não reconhece o erro não é gesto nobre; é risco calculado. Não porque o perdão seja pequeno, mas porque, sem reconhecimento, deixa de ser encontro e se transforma em permissão. O ofensor que transfere a culpa à vítima não busca absolvição: pede licença para repetir. E, quando a repetição acontece, todos fingem surpresa — como se o passado não tivesse avisado.

A questão, porém, nunca foi simples. Justiça e perdão não são inimigos naturais, embora frequentemente apresentados assim, como dois cães disputando o mesmo osso moral. A experiência — e alguma filosofia menos apressada — ensina o contrário: responsabilizar não impede perdoar; impede que o perdão se torne anestesia. Hannah Arendt lembrava que perdoar é libertar o futuro do cárcere do passado. Mas o tempo não se liberta apagando os fatos; liberta-se ao enfrentá-los sem fantasia.

O problema surge quando toda transgressão é tratada como se tivesse o mesmo peso, o mesmo preço, a mesma forma de quitação. Há ofensas cotidianas que se resolvem com conversa e reparo. Há crimes materiais que exigem devolução, correção e resposta clara. E há violências que não cabem em balanço algum — traumas, abusos, massacres — diante dos quais falar em “conta paga” soa quase obsceno. Que restituição recompõe um corpo violado? Que acerto encerra um genocídio? Nesses casos, a lógica contábil falha; insistir nela é acrescentar violência à violência.

Também é preciso dizer o que raramente se diz: nem todo perdão é escolha livre. Em contextos marcados por assimetrias brutais de poder, perdoar pode ser estratégia de sobrevivência. Há quem perdoe para não morrer, para não perder o pouco chão que ainda resta. Cobrar dívida pressupõe força para cobrar — e muitos jamais a tiveram. Ignorar isso é transformar ética em privilégio.

Ainda assim, há uma linha que não pode ser apagada sem custo coletivo. Isentar um ladrão de devolver o que roubou não é compaixão; é desorganização moral. Não porque o castigo cure, mas porque a ausência total de consequência adoece a vida comum. Onde ninguém responde por nada, todos pagam — sobretudo os mais frágeis.

O perdão que realmente importa não elimina rastros, não zera histórias, não fecha livros à força. Ele convive com a memória, com a exigência de reparação possível e com a recusa em normalizar o dano. Talvez por isso seja tão raro. Talvez por isso doa tanto.

Resta, então, a pergunta incômoda que quase ninguém quer enfrentar: depois que toda dívida é quitada — se é que pode ser —, o que permanece entre nós? Relações reduzidas a saldo zero são corretas, mas pobres. A vida comum exige mais do que acertos: pede responsabilidade sem vingança, lucidez sem crueldade, compaixão sem ingenuidade.

Escrevo não da torre, mas da ferida. E sei que a dor, quando não interrogada, endurece em sistema fechado. Por isso desconfio das certezas que não tremem. Talvez a tarefa não seja escolher entre justiça ou perdão, mas impedir que qualquer um deles seja usado para encobrir a violência — ou para eternizá-la.


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Como seu professor de sociologia, fico muito feliz em lhe oferecer um texto que provoca reflexões tão profundas sobre a estrutura das nossas relações sociais. O texto "Pagando Limpa Ficha" nos convida a pensar além do senso comum, analisando como o perdão, a justiça e o poder se entrelaçam na construção da vida em sociedade. Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas que ajudam a "descascar" essas camadas sociológicas. Vamos lá:


1. A Institucionalização do Abuso: O texto afirma que perdoar quem não reconhece o erro pode se transformar em uma "licença para repetir". Do ponto de vista sociológico, como a ausência de consequências para quem detém o poder pode contribuir para a manutenção de ciclos de violência e desigualdade em uma sociedade?

2. O Perdão como Estratégia de Sobrevivência: O autor menciona que, em contextos de "assimetrias brutais de poder", o perdão pode ser uma estratégia de sobrevivência. Explique como a posição social de um indivíduo (classe, gênero ou raça) pode influenciar sua capacidade de cobrar uma "dívida" moral ou material de quem o ofendeu.

3. Justiça vs. Impunidade e a Ordem Social: Segundo o texto, a ausência total de consequências "adoece a vida comum". Relacione essa afirmação com o conceito de coesão social: por que a sensação de impunidade pode fragilizar os laços de confiança entre os cidadãos e as instituições?

4. A Lógica Contábil e os Direitos Humanos: O texto argumenta que crimes como massacres e violações de corpos não cabem em uma "lógica contábil" de dívida e pagamento. Diante de graves violações de Direitos Humanos, por que apenas a reparação financeira ou material muitas vezes é considerada insuficiente para a restauração da dignidade das vítimas?

5. Memória e Futuro segundo Hannah Arendt: Citando a filósofa Hannah Arendt, o autor diz que o perdão "liberta o futuro do cárcere do passado". Explique, com suas palavras, a diferença apresentada no texto entre "apagar os fatos" e "enfrentá-los sem fantasia" para que uma sociedade possa, de fato, seguir em frente após um conflito.

Dica do Professor:

Ao responder, tente observar não apenas o comportamento individual, mas como as regras invisíveis da sociedade (as normas e as relações de força) moldam o que consideramos "justo" ou "perdoável".

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HÁ VIDA NA PODRIDÃO ("Gosto de lugares assim, com a podridão humana estampada no rosto das pessoas." — Raphael Montes)

 


HÁ VIDA NA PODRIDÃO ("Gosto de lugares assim, com a podridão humana estampada no rosto das pessoas." — Raphael Montes)

Por Claudeci Ferreia de Andrade

Entrei naquele mercado ao fim da tarde, quando o cheiro da fruta passada já não tenta se disfarçar. As bananas negras repousavam como cadáveres aceitos, e um homem, encostado na parede, mastigava lentamente algo que já não parecia alimento, mas hábito. Foi ali, entre o doce fermentado e o suor antigo, que me ocorreu a sentença incômoda de Camilo Castelo Branco: “A torpeza, a ignomínia, a podridão das entranhas vivas… é só do homem.”

Perguntei-me, então, se também carrego esse rosto — não o visível, mas o outro, o que se forma por dentro. Serei um zumbi civilizado? Um ser ordinário que aprende a sobreviver sugando sombra até da árvore que o abriga?

Voltei para casa com folhas secas no bolso, recolhidas do chão como quem aceita esmola da terra. Caíram mortas, como eu caio um pouco todos os dias. À noite, preparei um chá espesso e amargo, mais próximo do lodo do que do conforto. Bebi consciente da contradição: busco cura justamente no que já se entregou à decomposição. Sou raiz sem mapa, nutrindo-me do que apodreceu antes de mim.

Enquanto a água fervia, observei meus próprios vícios com a mesma atenção que costumo lançar aos erros alheios — erros que não educam, apenas se repetem. Ri de mim ao perceber que condeno o mundo enquanto engulo comprimidos industrializados, embalados a vácuo, como se a limpeza química pudesse me absolver do ciclo que me constitui. Não há acusação aqui; há espelho.

Se a podridão é constitutiva, por que ainda insisto em remédio? Por que busco alívio, sabendo que o corpo é matéria em trânsito para o colapso? Talvez porque, apesar de tudo, eu ainda queira durar — não por negação, mas por apego. Amor fati, diria Nietzsche: não a resignação asséptica, mas a afirmação trágica — aceitar o apodrecer sem desistir de viver.

Cansei do verniz da higienização moral. Essa obsessão por superfícies esterilizadas adoece mais do que o mofo. Se o corpo é a prisão da alma, então minha alma também está encarcerada e aprende a adoecer junto. Não peço libertação; peço lucidez. Sei que a morte nos conduzirá, a todos, ao mesmo chão fértil e sujo — é de lá que algo sempre retorna.

O podre não é a doença. Doente é a alma que se nega ao escuro, que se recusa a tocar o que fede. Por isso ainda busco o curandeiro, mesmo sabendo que suas mezinhas não purificam nada. Elas apenas sustentam — e isso basta. Viver, afinal, nunca foi sobre estar limpo, mas sobre permanecer pulsando no meio daquilo que se desfaz.

Há vida na podridão. O resto é fantasia asséptica para quem tem medo de cheirar a si mesmo.


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Como seu professor de Sociologia, vejo aqui um prato cheio para discutirmos a condição humana, a modernidade e como a sociedade tenta "esconder" processos naturais sob uma camada de consumo e higiene. O texto toca em pontos fundamentais da sociologia clássica e contemporânea: a alienação, a relação homem-natureza e a construção moral das aparências. Abaixo, preparei 5 questões discursivas para ajudar você e seus colegas a aprofundarem essa análise:

Questões Propostas:


A Estetização da Vida: No início do texto, o autor menciona a "fantasia asséptica" e a "higiene moral". De que maneira a sociedade moderna utiliza o consumo e a estética para esconder processos naturais como o envelhecimento e a finitude?

Alienação e Natureza: O narrador descreve-se como uma "raiz sem mapa" que se nutre do que apodreceu, contrapondo isso ao uso de "comprimidos industrializados". Como essa metáfora ilustra o distanciamento do ser humano moderno em relação aos ciclos naturais da vida?

Moralidade e Julgamento: O texto afirma que "erros não educam, apenas se repetem" e que o autor vê no mundo um "espelho". Do ponto de vista sociológico, como as normas sociais de "limpeza moral" influenciam a forma como julgamos o comportamento alheio em comparação ao nosso?

Institucionalização da Cura: O autor questiona o uso de remédios químicos em busca de uma "absolvição". Como a medicalização da vida (o hábito de buscar soluções químicas para sofrimentos existenciais) reflete uma tentativa da sociedade de controlar o que é considerado "doente" ou "saudável"?

A Aceitação do Ciclo Social: Ao final, o texto sugere que "há vida na podridão". Relacionando essa ideia ao conceito de renovação social, por que o reconhecimento das crises e das falhas de uma sociedade é necessário para que algo novo possa "nascer ou retornar"?

Dica do Professor:

Ao responder, tente conectar o texto com o conceito de "Civilização" de Norbert Elias, que discute como aprendemos a sentir nojo e a esconder nossas funções biológicas para parecermos "civilizados".

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

FAZER SEXO PARA SE HUMANIZAR ("Pois que o amor e a afeição com facilidade cegam os olhos do entendimento." — Dom Quixote)

 


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

RECONHECIMENTO E GRATIDÃO ("Não se preocupe quando não for reconhecido, mas se esforce para ser digno de reconhecimento." — Abraham Lincoln)


 

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

NÃO HÁ LEITE SEM CHUPETA: O Espetáculo da Inversão ("A chupeta do capeta é o pecador sem Deus." — Helgir Girodo)



NÃO HÁ LEITE SEM CHUPETA: O Espetáculo da Inversão ("A chupeta do capeta é o pecador sem Deus." — Helgir Girodo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Uma aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), na extensão do colégio — alguém que mal domina a composição de um texto, por vezes nem um simples bilhete — travava uma disputa por nota integral, humilhando o professor ao se colocar em pé de igualdade com ele. Quem, sem domínio da escrita, se julga capaz de avaliar os critérios de correção de quem vive o ofício diariamente?

A seu lado, um colega de caligrafia garrancheira e ilegível, cuja única propriedade era o tamanho do papel, mantinha os fones nos ouvidos como um muro simbólico. Apoiada por ele, a aluna reivindicava sem sequer fundamentar seu pedido. Os semelhantes se defendem. Queria a mesma nota da colega de quem colou ou apenas o espetáculo de me constranger? Afinal, ninguém produz uma redação idêntica à de outrem, porque ninguém pensa de modo igual. Ao final, dobrei-me às pressões.

Foi então que o cenário se configurou como um teatro de papéis invertidos: o mestre transformado em réu; o erro reivindicando razão; a fragilidade julgando a experiência, como se todo saber pudesse ser medido pelo volume do protesto. Havia ali menos aprendizagem e mais disputa de vaidades — um silêncio calculado no qual o mérito se dissolvia no desejo de igualdade sem esforço. Observava, calado, o peso da superficialidade que revestia gestos simples e os convertia em acusações. Ainda assim, mantive a dignidade da palavra, como quem segura uma tocha contra o vento: tremendo, porém acesa.

A loucura que me atribuem não é delírio, mas sobrevivência — abrigo derradeiro de quem insiste em ensinar algo que tenha sentido. Ser “louco”, aqui, é não ceder ao vazio. E talvez seja justamente nesse abismo que minha sanidade se firma.

Sempre há um incompetente nas relações sociais: naquele episódio, atribuí a mim esse papel por não conseguir compreendê-los; eles, porém, não se culpam por não compreender a mim. Alguns colegas, vivendo os mesmos cenários, aconselham-me a buscar tratamento psicológico, como se o desgaste fosse sinal de fraqueza. Tornaram-se aliados do conforto, da diplomacia do nada. Mas pergunto: quem é o enfermo — o que sente demais ou o que finge não sentir nada?

Escolhi permanecer autêntico, pois ser professor é, antes de tudo, aceitar a tarefa árdua de convencer corações distraídos. Meu destino será moldado pela loucura criativa que insiste em ensinar o que é útil; o deles, pela hipocrisia imóvel das promessas vazias.

O futuro pertence aos loucos lúcidos, enquanto os hipócritas se sustentam em amizades interesseiras. Não é pecado ser louco; pecado é condenar a lucidez inquieta em nome de um politicamente correto que produz silêncio, mas não paz.

Sei que o parasita não preserva nada do que consome — vive de desfrutar, espoliar e descartar — e, por isso, devora o hospedeiro até o fim. Que sugue. Pois está escrito: “Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12:20).

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Abaixo, apresento 5 questões discursivas e simples que visam estimular a reflexão dos alunos sobre as ideias centrais tratadas no meu relato, conectando-as à teoria social.

1. Relações de Poder e Inversão de Papéis: O narrador descreve a situação como um "teatro de papéis invertidos: o mestre transformado em réu; o erro reivindicando razão; a fragilidade julgando a experiência". Com base nas relações sociais e de poder, explique o que essa "inversão de papéis" pode significar para a autoridade e o reconhecimento do saber formal (do professor) na sociedade contemporânea.

2. Meritocracia e Igualdade sem Esforço: O texto critica o momento em que "o mérito se dissolvia no desejo de igualdade sem esforço". Diferencie, sociologicamente, o conceito de Equidade (que busca justiça e oportunidades iguais) do ideal de Igualdade Superficial (ou "sem esforço") que o narrador aponta. Qual o risco social de exigir a mesma recompensa sem o reconhecimento do esforço ou da competência?

3. Autenticidade Profissional vs. "Diplomacia do Nada": O professor confronta a postura de colegas que o aconselham a buscar tratamento psicológico, caracterizando-os como "aliados do conforto, da diplomacia do nada". Analise como o conceito de Autenticidade (a escolha de "permanecer autêntico") é apresentado no texto como uma forma de resistência ao Vazio ou à Anomia (ausência de normas/valores fortes) no ambiente de trabalho e nas relações sociais.

4. A Crítica ao "Politicamente Correto" e a Lucidez Inquieta: O autor afirma que "pecado é condenar a lucidez inquieta em nome de um politicamente correto que produz silêncio, mas não paz". Discuta como o uso excessivo e não reflexivo do "politicamente correto" pode, segundo o texto, sufocar o debate e a crítica construtiva, criando um ambiente de superficialidade e inautenticidade nas relações.

5. Solidariedade e Dinâmica de Grupo: A união entre os alunos é resumida na frase: "Os semelhantes se defendem". Qual tipo de Solidariedade Social (mecanismo de coesão social, segundo Émile Durkheim, por exemplo) está em ação nessa cena? O que, no contexto narrado, une esses indivíduos e qual é a função dessa união para o grupo, considerando o objetivo de "constranger" o professor?

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NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

 


NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A proximidade do meu aniversário empurra-me, sem delicadeza, para a soleira da terceira idade. Digo a mim mesmo que não há pranto — e talvez isso seja verdade apenas em parte. Com o tempo, a dor aprende a se disfarçar de método: muda o gesto, ajusta o tom, transforma-se em escolha. Para evitar o desgaste psicológico e as frustrações sentimentais, passamos a ignorar indiretas, a reduzir círculos, a deixar de perseguir quem não deseja ficar. Chamamos isso de paz. Georg Lichtenberg sussurra ao fundo: “Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião.” Repito como um mantra, embora saiba que minha serenidade não nasce da ausência de opiniões, mas do cansaço de vê-las recusadas.

Não me iludo: minhas opiniões permanecem todas aqui, sentadas comigo à mesa. Sobre a carne, as bebidas, o volume da música, a pressa em confundir convivência com ruído. O que amadureceu não foi o silêncio, mas a fadiga. Reconhecer isso parece-me mais honesto do que vestir o desapego como virtude incontestável.

Na confraternização de encerramento do semestre escolar, essa contradição expôs-se sem pudor. Fui — e fui sabendo que me cansaria. O ambiente me estranha tanto quanto eu a ele. Já fui mais hábil na arte de conviver; hoje, contento-me com o respeito mútuo. Não discuto, não confronto, não ensino. Sigo acreditando que não se vingar já é uma forma de perdão. Ainda assim, reconheço minha própria intransigência: não partilho dos mesmos gostos, não me entusiasmo com os mesmos excessos. O convívio, para mim, tornou-se um exercício de contenção.

“A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, transmite-nos esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo.” — Sêneca

Apoio-me em Sêneca como quem busca abrigo, embora saiba que ele não defendia a fuga, mas a escolha. Entre cultivar poucos vínculos e desistir da convivência por exaustão, há um abismo que tento atravessar com passos curtos. Pergunto-me, sem resposta pronta, se pratico estoicismo ou se apenas racionalizo uma rendição emocional. Chamo de maturidade aquilo que pode ser também autodefesa. Jung talvez fosse mais incisivo: individuação não é isolamento; é a coragem de integrar as feridas sem transformá-las em muros.

Digo que não há pranto, mas ele existe — discreto, contido, escondido nas pausas. A contenção estilística me protege, mas também me trai. Apesar da fadiga, permaneço. Vou às confraternizações que me cansam, sento-me entre colegas fora do horário letivo, escuto, lembro, projeto. Há algo ali que o desapego não entrega: a confirmação de que, mesmo cansado, ainda pertenço. Entre histórias antigas e futuros imaginados, entrelaçam-se lembranças e ambições; e nesse emaranhado imperfeito, ruidoso e humano, descubro uma verdade incômoda.

O desapego não me libertou da necessidade do outro; apenas a tornou mais exigente. É nessa tensão — entre querer menos e ainda precisar — que encontro, sem heroísmo, o verdadeiro valor do tempo vivido.


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Olá! Que texto potente e reflexivo. Como professor de Sociologia, vejo aqui uma oportunidade incrível para discutirmos temas fundamentais da nossa disciplina, como a socialização, as relações de pertencimento, o isolamento na modernidade e a construção da identidade. Preparei estas 5 questões discursivas focadas na análise sociológica do texto, com uma linguagem acessível para o Ensino Médio:


1. O Processo de Socialização e a Maturidade. No início do texto, o autor descreve como a chegada da terceira idade altera seu comportamento em relação aos outros (ignorar indiretas, reduzir círculos sociais). Do ponto de vista sociológico, como podemos interpretar essa mudança de comportamento: trata-se de um novo processo de socialização ou apenas um isolamento social? Justifique.

2. Cultura e Convivência em Grupos. O autor menciona um "descompasso" entre seus gostos pessoais (carne, volume da música, bebidas) e os do grupo na confraternização. Como a Sociologia explica a dificuldade de um indivíduo em se integrar quando seus valores e hábitos culturais não coincidem com o padrão do grupo dominante?

3. O Pensamento de Sêneca e a Pressão Social. A citação de Sêneca sugere que "a companhia da multidão é nociva" e pode transmitir vícios. Relacione essa ideia ao conceito de conformidade social — a tendência de as pessoas mudarem seu comportamento para se ajustarem ao grupo. Por que o autor vê o "convívio como um exercício de contenção"?

4. Pertencimento vs. Individualismo. Ao final do texto, o autor afirma: "O desapego não me libertou da necessidade do outro". Mesmo sentindo-se deslocado, ele escolhe permanecer e participar das histórias e projetos com os colegas. Por que o sentimento de pertencimento é fundamental para o ser humano, segundo a visão sociológica, mesmo quando há conflitos de opinião?

5. Identidade e Autodefesa. O texto questiona se o comportamento do narrador é "maturidade" ou "autodefesa". Considerando o conceito de identidade social, como as nossas experiências passadas e as feridas emocionais citadas (referenciando Jung) influenciam a forma como nos apresentamos e interagimos na sociedade hoje?

Sugestão de uso: Você pode utilizar estas questões para um debate em sala de aula ou como uma atividade de redação reflexiva.

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