O Crepúsculo das Certezas: OS TEMPOS SÃO OUTROS ("O mal dos tempos de hoje é que os estúpidos vivem cheios de si e os inteligentes cheios de dúvidas." — Bertrand Russell)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Bertrand Russell, com a precisão de quem talhava ideias como quem lapida pedra bruta, observou certa vez que o mal do mundo está na autoconfiança dos tolos e na hesitação dos sábios. Pois bem: quando olho o silêncio que hoje paira nos corredores das escolas, não consigo evitar a pergunta — será que transformamos a dúvida, que deveria mover a ciência, em altar para a vaidade?
Lembro-me de um professor que entrava em sala trazendo debaixo do braço o peso dos séculos. Os livros pareciam extensões do próprio corpo. Ele não precisava reivindicar autoridade; sua presença bastava. Era guia num território desconhecido, alguém que apontava caminhos onde os outros só viam neblina. Agora, porém, vejo o mestre vacilar diante de Joãozinho. “O que você acha?”, pergunta, com um sorriso que parece buscar aprovação, não entendimento. Ao colocar sobre os ombros de uma criança — que ainda tropeça nos próprios cadarços — o peso da verdade, não estamos democratizando o saber coisa nenhuma; estamos, isso sim, adubando a soberba. É a renúncia ao alto em troca do espelho. E, convenhamos, haveria mais nobreza em cultuar a lua, porque ao menos os olhos se ergueriam para algo vasto, silencioso e indiferente à nossa miúda ignorância cotidiana.
Essa inversão não para na escola; ela escorre pelas calçadas da cidade. Outro dia vi uma cena daquelas que ficam martelando na cabeça: um jovem cercava o cão de mimos e acessórios caros, enquanto desviava o olhar de um idoso sentado no banco ao lado, quase dissolvido na paisagem do abandono. Eis a ironia amarga dos nossos dias: somos a geração que se comove com o corte de uma árvore, mas permanece muda diante da solidão de quem nos criou e agora repousa, “bem acomodado”, no frio burocrático de um asilo.
A compaixão virou artigo seletivo, quase decorativo. Sofremos quando convém, amamos quando rende aplauso. Celebramos prazeres sem consequência e chamamos de arte aquilo que muitas vezes não passa de ruído travestido de liberdade. Enquanto isso, fé e cultura — temas densos, antigos, essenciais — são reduzidos a slogans apressados ou transformados em alvo de desprezo, conforme a moda do dia. No palco das vaidades, o sagrado e o profano apenas trocaram de figurino.
Questionar esse novo dogma não deveria soar como declaração de guerra, mas como gesto de cuidado. Será que ainda podemos defender um olhar que coloque o humano em primeiro lugar — a criança que precisa de mestre, o velho que precisa de colo — sem sermos imediatamente lançados ao exílio moral do nosso tempo? Talvez a verdadeira inteligência já não esteja apenas na dúvida de Russell, mas na coragem de dizer, em voz firme, que entre tantos “estilos de vida” e “novas verdades” estamos esquecendo o que sempre foi essencial.
Escrevo não contra o tempo, mas para quem ainda consegue ouvir o que as entrelinhas berram. Estamos órfãos de referências, à deriva num oceano de opiniões onde quase ninguém mais ousa afirmar, sem pedir desculpas: isto é o correto.
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Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito em ver sua disposição para aprofundar a análise crítica deste texto. Ele toca em pontos centrais da nossa disciplina: autoridade, socialização, valores morais e a estrutura das relações sociais na modernidade. Para ajudar você a refletir sobre essas "entrelinhas que berram", preparei estas 5 questões discursivas fundamentadas em conceitos sociológicos clássicos e contemporâneos:
1. Crise de Autoridade e Socialização: O texto narra a transição de um professor que "era guia" para um que "busca aprovação" do aluno. Com base nos conceitos de socialização, como a renúncia da autoridade pedagógica por parte dos adultos pode afetar a formação da identidade e do sentido de limite nos jovens?
2. O Narcisismo e a "Cultura do Espelho":
O autor menciona que estamos trocando o "alto" (referências externas e superiores) pelo "espelho" (a própria opinião). Relacione essa passagem com a ideia de individualismo moderno: de que forma o foco excessivo no "eu" pode enfraquecer os laços de solidariedade social?
3. Inversão de Valores e Alteridade:
A crônica descreve a cena de um jovem que mima um animal enquanto ignora um idoso. Sociologicamente, como podemos interpretar essa mudança de sensibilidade, onde objetos ou animais parecem receber mais "humanidade" do que certos grupos de pessoas marginalizados (como os idosos)?
4. O Fenômeno da "Compaixão Seletiva":
O texto afirma que a compaixão virou um "artigo decorativo" que rende aplausos. Como as redes sociais e a necessidade de "performance" pública podem estar transformando a ética e a moral em meros instrumentos de aceitação social ou "slogans apressados"?
5. Instituições em Declínio (Escola e Família):
O autor sugere que estamos "órfãos de referências". Analise o papel das instituições sociais tradicionais (escola, família, religião) mencionadas no texto. Elas ainda cumprem o papel de dar um norte moral à sociedade ou foram substituídas por "novas verdades" fluidas?
Dica do Professor: Ao responder, tente não apenas concordar ou discordar do autor, mas entender os processos sociais que levaram a essas mudanças. Use o texto como um ponto de partida para observar o mundo ao seu redor com um olhar clínico e questionador. Bom estudo!


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