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MINHAS PÉROLAS

domingo, 31 de maio de 2009

Colega não é Amigo (Amizade é atributo do Céu, lugar que a escola não pode ser!)








Crônica

COLEGA NÃO É AMIGO (Amizade é atributo do Céu, lugar que a escola não pode ser!)

Claudeci Ferreira de Andrade


          Quando começa o turno na escola, parece que todo mundo é amigo, é bom dia para cá, boa tarde para lá ou boa noite, enfim essa fantasia dura até quando precisamos de alguém para nos dar razão em detrimento de um preço qualquer. Até porque, são os colegas que nos vigiam para denunciar.
          Era para trocar de professor, minha vez, os alunos estavam quase todos no lado de fora, aguardando-me; entrei na sala, e eles continuaram lá, convidei-os para entrar, uns poucos obedeceram, então tomei uma medida enérgica, avancei para fechar a porta, eles correram e entraram. Porém, um que estava longe, na porta de outra sala, perturbando o outro professor, era um aluno indisciplinado daqueles que transitam à sala o tempo todo sem interesse comum, veio depois; ordenei que não entrasse mais, ele se precipitou, forçando a entrada, então segurei em seu braço e empurrei-o para fora.
          Tudo estava em paz; até aí, eu estava certo que naquela unidade escolar todos nós éramos amigos. Doce ilusão! O coordenador logo me chamou na sala porque a diretora queria falar comigo. Para mostrar a solidariedade do inferno, na trajetória, ele “simpaticamente” me disse:
          — Olha, vou te adiantar um segredinho para você se preparar, mas aquele menino te denunciou, dizendo que você unhou o braço dele.
          Ora o tal coordenador foi quem encaminhou o menino para a diretora e ali estava a diretora, o menino, a secretária; o coordenador tratou logo de pegar seu caderninho e redigir um relatório do ocorrido – por que não a secretária da unidade escolar?!
          Sentir-me como um pobre animalzinho acuado num beco sem saída quando a diretora, num tom autoritário como quem quisesse se autoafirmar, revelou de fato os sentimentos que tinha por mim, ("belos sentimentos"!) colocando-me em meu lugar:
          — Professor, você unhou o aluno, e aí como é que vai ficar?
          Eu depois de um silêncio constrangedor, sem mesmo levantar a cabeça disse;
          — Não tive a intenção de machucar o menino, apenas segurei em seu braço, para que ele não entrasse, fazendo  valer, assim, minha ordem de professor que queria disciplina, respeitando o direito dos estudiosos. Como ele deu um puxão, arranhou-se, uso minhas unhas grandes na mão direita para tocar violão. Aí, aplique as medidas cabíveis!
          Eu já passara por situação semelhante em uma outra unidade escolar municipal, na qual um grande amigo tornara-se coordenador de turno e quando mais precisei dele me disse que não podia fazer nada a meu favor, apenas me conduziu a sala da diretora. Sai daquele constrangimento, dizendo que ia mudar de escola, então rasgaram o relatório, por isso vim parar aqui.
          Mas, dessa vez, assinei o relatório e sai daquele ajuntamento com a amargura do desamparo dos "amigos". Alias, quem me pareceu mais amigo foi o menino que permaneceu calado e me contou no dia seguinte que o coordenador lhe ameaçara à suspensão se não contasse o que eu tinha feito, ditando-lhe o texto, e que a porteira servente também o tinha incentivado me “ferrar”, só se esqueceu mesmo foi de me mostrar o tamanho do arranhão que fiz em seu braço. Contudo, o perdão que devia lhe pedir na reunião, peço-lhe agora, acho que não fui o amigo suficiente para tolerar seu comportamento improdutivo. Devemos considerar, para a educação, o que diz Jules Renard: "Não há amigos, apenas há momentos de amizade". E estes para benefício próprio.
            Então, a professora odiada de todos os alunos e considerada disciplinadora pelos colegas, se manifesta na reunião pedagógica para sugerir aos demais que pense e faça como ela, senão uns serão considerados bonzinhos e ela o terror! Queria uniformizar o trato com os alunos e o formato da aula dos outros por medo de afrouxar e mesmo assim não cair na admiração deles. Esse tipo que mendiga a simpatia de aluno só parece bem intencionado, mas não contribui em nada com a educação, força a direção e coordenadores continuarem jogando toda culpa no professor. Que me explique os tais, se eu ministro uma boa aula de Lígua portuguesa no sexto ano B, excelente, e já não consigo no sexto A, sendo eu a a mesma pessoa, usando o mesmo método para o mesmo conteúdo, Onde está a culpa?
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 25/06/2009
Código do texto: T1666585


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