"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 14 de maio de 2022

Coleção 77 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

 


Coleção 77 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

Por Claudeci Andrade

1 A hipocrisia social transforma o elogio em assédio conforme o rosto e o bolso de quem o diz, exaltando o belo e o rico enquanto silencia o feio e o pobre, que, como um peixe fora d’água, já não encontra lugar no mundo que adora a aparência.

2 Quando a autoridade do saber é desarmada pelo medo e pela impunidade, o professor, que deveria guiar; torna-se refém de um sistema onde a força cala o intelecto e a indisciplina vence a educação.

3 Na paternidade emprestada do padrasto, todo gesto é culpa: o afeto soa suspeito, a distância parece frieza, e só o perverso encontra lucro onde o amor é sempre mal interpretado.

4 Na selva social que despreza o saber, o professor sobrevive mascarado; não por vaidade, mas por instinto; disfarçando-se para resistir à violência e à indiferença de um mundo que o tornou espécie em extinção.

5 A religião, nascida do pacto entre o esperto e o ingênuo, corrompeu lar e escola, trocando o saber pela fé cega e provando, em dois milênios de preces, que multiplicar templos não é o mesmo que evoluir o homem.

6 Entre a fé que censura e a escola que silencia, o pensamento livre agoniza; e o professor, cercado por dogmas e diplomas, descobre que tanto o púlpito quanto a lousa servem ao mesmo senhor: o controle das mentes.

7 Quando tudo se torna fácil e gratuito, o caráter se atrofia; e a educação, privada do esforço que forma o espírito, colhe gerações fortes em direitos, mas fracas em vontade.

8 Na escola convertida em campo de tensão, onde mestres e alunos se temem, o silêncio do Dia do Professor revela não só a ingratidão dos outros, mas o fracasso da própria classe em merecer celebração.

9 Entre o amor livre e o matrimônio possessivo, o adultério nasce como fruto do egoísmo que confunde afeto com propriedade, enquanto a prostituição, assumida e regulada, revela-se menos pecaminosa que o amor enjaulado pelo cartório.

10 Nas redes sociais, entre os que pensam e os que apenas postam, a escrita revela o abismo entre o saber e o ruído; e ao bom leitor resta a solidão de compreender demais num mundo que lê de menos.

11 A humanidade caminha para o próprio fim não por catástrofe externa, mas por confusão interna; ao humanizar os animais e bestializar-se, perde o instinto de amar e prepara-se para devorar a si mesma.

12 Quem cospe no prato que o sustenta é capaz de envenenar o que oferece; por isso, até a caridade perde o gosto quando nasce de mãos impuras.

13 Na escola que teme o “decoreba”, o saber escapa como peixe escaldado; pois, sem a repetição que fixa, o aprendizado morre na primeira isca esquecida.

14 Na feira da fé, o dinheiro compra tanto o prazer quanto a salvação; e, ao fim, quem pagou por Deus ou por desejo descobre o mesmo saldo: o nada.

15 O professor que recusa ser fantoche dos indisciplinados torna-se inimigo dos medíocres; mas é melhor ser odiado pela verdade do que amado pela pedagogia do fracasso.

16 O elogio é o veneno mais doce: alimenta a vaidade dos fracos, testa a humildade dos fortes e, por isso, só o sábio desconfia quando o aplaudem.

17 Na escola que desconfia de quem ensina, até o sinal do Wi-Fi vira instrumento de controle; prova de que o medo do pensamento livre vale mais que a própria educação.

18 Na escola que pune a excelência e recompensa a submissão, o idealismo morre de fome; e só sobrevive quem troca o magistério pelo simples ofício de ganhar o pão.

19 A infelicidade não depende do tamanho do balde, mas do quanto falta para enchê-lo; sofre igual quem deseja muito e quem carece do pouco que lhe falta.

20 O amor não é o remédio das feridas, mas a recompensa de quem já aprendeu a curá-las sozinho.

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sábado, 7 de maio de 2022

Coleção 76 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

 

Coleção 76 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

Por Claudeci Andrade

1 A prostituição, como qualquer trabalho, é a troca legítima de tempo, corpo e habilidade por sustento; condená-la revela mais a hipocrisia social e religiosa do que uma verdadeira defesa da moral, pois onde há demanda, a marginalização apenas perpetua a exploração e nega direitos que a legalização poderia garantir.

2 A reputação, outrora símbolo de virtude, tornou-se um artifício de sobrevivência: quem não tem riqueza precisa comprar aceitação com gentileza, pois, em um mundo que valoriza aparência e utilidade, o caráter serve menos à moral que à conveniência dos que julgam.

3 A rebeldia juvenil, disfarçada de indiferença, revela uma resistência à instrução que se manifesta no corpo e no olhar; enquanto os jovens desprezam o saber por considerá-lo antiquado, o professor persiste, não por glória, mas por dever, e nessa teimosa fidelidade ao ofício encontra a prova de que ainda merece existir.

4 A enfermidade e a pobreza desnudam a fragilidade dos vínculos humanos, revelando que a maioria das relações se sustenta no interesse; quando o bolso esvazia, a lealdade desaparece, e resta ao desiludido fingir autossuficiência para disfarçar o abandono que a miséria expõe.

5 A falsa erudição se revela na incapacidade de sustentar ideias sob crítica; nas arenas virtuais, onde a ignorância se disfarça de autoridade, quem questiona é punido, provando que a sabedoria não está em impor opiniões, mas em submeter o próprio pensamento ao exame que liberta do autoengano.

6 Toda exposição de ideias atrai inimigos, e medir-se por eles é reconhecer o valor do próprio pensamento; contudo, quando a incompreensão e a dor se acumulam, a ausência torna-se refúgio e castigo; um silêncio que separa os que aprendem dos que apenas observam, pois as pérolas do espírito não se lançam aos que não sabem vê-las brilhar.

7 Contra o narcisismo disfarçado de autoajuda, o pensamento proclama a humildade como forma de lucidez: reconhecer-se pequeno, esperar o pior e agir em silêncio é o antídoto contra a ilusão de grandeza que faz do homem um tolo satisfeito com sua própria mentira.

8 A rebeldia juvenil nasce do ressentimento por uma infância perdida e transforma-se em vingança disfarçada de liberdade; quem aprendeu a brincar com o pouco e em paz não precisa usar os outros como brinquedos, pois a verdadeira maturidade vem de quem nunca precisou ferir para se sentir vivo.

9 A celebração da consciência negra, esvaziada de propósito, torna-se símbolo de uma escravidão moderna; a da ociosidade e da desculpa, pois, sob o disfarce das causas coletivas, Vê-se apenas a fuga individual da responsabilidade e o culto à própria impotência.

10 O mal espalha-se com a naturalidade de uma doença, enquanto o bem exige esforço e consciência; quem convive com o vício aprende seus gestos, pois o pecado é sedutor e fiel à própria natureza, ao passo que a virtude, rara e silenciosa, é o único escudo que dispensa o medo da morte.

11 A escola, que deveria ser refúgio de saber, tornou-se território de hostilidade, onde a experiência incomoda e o mérito envelhece; ali, o professor veterano descobre que décadas de serviço valem menos que a conveniência dos medíocres, e que o reconhecimento só é dado a quem nada ameaça.

12 A Bíblia, tida como Palavra de Deus, revela-se espelho do leitor: quanto mais o homem tenta “clareá-la”, mais a transforma em suas próprias palavras; assim, o sagrado não se perde no texto, mas na ignorância de quem o interpreta sem sabedoria.

13 A doença revela o que somos: nela, o corpo fraqueja para que o espírito se prove; e, na solidão, descobre-se que amar sem possuir é a forma mais pura de caridade. Pois o bem não está no reconhecimento alheio, mas na intenção silenciosa; e é por isso que o céu se enche dos que agiram por respeito, não dos que esperaram gratidão.

14 A mediocridade das massas teme a luz da inteligência e, por isso, apaga quem brilha; na escola e na vida, os melhores são punidos por não se dobrarem ao comum, tornando-se minoria oprimida num mundo que confunde igualdade com nivelamento por baixo.

15 O cinema, exaltado como arte popular, tornou-se espelho da degradação moral: alimenta a ilusão dos acorrentados da caverna, que tomam sombras por cultura, enquanto a verdadeira elevação; intelectual, ética e espiritual, se perde num mundo que confunde prazer com valor e espetáculo com sabedoria.

16 A fé, corrompida pelo comércio e pela arrogância dos que dizem servir a Deus, perde seu sentido quando o homem percebe que existir basta, e que nem ele precisa de Deus, nem Deus dele — pois a verdadeira descrença nasce não da dúvida, mas da decepção com os que fingem crer.

17 O afeto humano raramente é puro: o sucesso e o dinheiro reconciliam o que o amor não sustenta, pois, no fim, todos gostam de quem oferece ganhos; e poucos amam sem receber nada em troca.

18 A autoridade da coordenadora revela-se ilusória: domina a teoria, mas foge da prática, ditando métodos que ela mesma é incapaz de aplicar; prova de que, na escola, o poder muitas vezes se sustenta mais na burocracia que no saber.

19 O egoísmo disfarçado de hábito revela-se nas reuniões onde cada um ocupa mais espaço do que precisa; ali, até as bolsas têm assento, enquanto o respeito coletivo permanece de pé; sinal de que a convivência profissional cedeu lugar à vaidade e à falta de consideração.

20 A escola vangloria-se dos que triunfam sem ela, celebrando como mérito próprio o sucesso que a desmente; e, no ritmo dessa ironia, chegará o dia em que bastará ser poeta para receber um diploma; prova de que o ensino se tornará homenagem ao acaso, não à educação.

sábado, 30 de abril de 2022

Coleção 75 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

 


Coleção 75 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

Por Claudeci Andrade

1 O professor, frustrado com a perda de autoridade diante de alunos que confundem igualdade com arrogância, ironiza a máxima de Paulo Freire e vê na indisciplina deles o reflexo de um sistema educacional corrompido pela burocracia e pela inveja; afinal, “o osso é doce”; e poucos aceitam largar o conforto da ignorância para saborear o amargo do verdadeiro saber.

2 Entre o “ENEM” do esforço e o “ah, nem” da distração digital, denuncia-se a superficialidade das leituras inúteis que sufocam a reflexão e empobrecem a alma, lembrando que vale mais ler pouco, mas com profundidade, do que consumir muito sem aprender nada.

3 Em meio a uma juventude que confunde ouro com valor e fertilidade com virtude, denuncia-se a ostentação vazia que esconde a pobreza moral, lembrando que a verdadeira grandeza nasce da sabedoria herdada e da obediência a um pai piedoso; pois só o caráter, e não a aparência, resiste ao tempo e às tentações humanas.

4 Critica-se a rejeição à internet como sintoma de ignorância disfarçada de prudência, afirmando que, em tempos de saber compartilhado, evitar o mundo digital revela não virtude, mas incapacidade; pois quem teme a rede demonstra não dominar nem a tecnologia nem o pensamento que dela emerge.

5 Lamenta-se a domesticação do poder político, defendendo que um verdadeiro líder; como o leão de Maquiavel, deveria ser temido e respeitado, não submisso às formalidades democráticas; pois, onde a autoridade se fragiliza em gestos e justificativas, o mal encontra espaço para reinar sob o disfarce do “jeitinho” nacional.

6 Denuncia-se a arrogância dos que falam mais do que ouvem, vendo na pressa de responder sem compreender a prova maior da ignorância moderna; pois quem escreve sem escutar transforma a palavra em ruído e a comunicação em espelho de sua própria confusão interior.

7 Contrapõe-se o falso professor, movido pelo lucro e pela vaidade, ao verdadeiro mestre, guiado pela justiça e pelo amor ao saber, afirmando que apenas este, fiel à vocação e à elevação do aluno, transforma o amargo do ofício em doçura; enquanto aquele, escravo do aplauso e do salário, cava a própria ruína.

8 Denuncia-se a hipocrisia de uma sociedade que se diz moral e religiosa, mas lucra com o vício e fecha os olhos ao crime, mostrando que a fé, quando serva do interesse, não purifica; pois nem a religião mais fervorosa impediu que o mal florescesse onde o amor deveria reinar.

9 Reflete-se sobre a relatividade da beleza e da pureza, mostrando que a obsessão por limpeza e perfeição revela mais egoísmo que virtude, pois, ao tentar padronizar o belo, a sociedade apaga as diferenças; e, nessa ânsia de parecer limpa e ideal, torna-se paradoxalmente a mais impura das criações.

10 Questionando o culto à limpeza e à aparência, o pensamento usa o porco; nem intrinsecamente feio nem doente, para afirmar que a obsessão higiênica, quando patológica ou prejudicial, vira egoísmo, e que a humanidade, embora possua a mesma "química" do belo, se torna feia ao transformar a estética em medição e padronização, onde a ditadura social do gosto dissolve as diferenças.

11 Reconhece-se que todo caos externo reflete a desordem interior, afirmando que ninguém é vítima do acaso, a solidão, o fracasso e a pobreza são espelhos do próprio caráter, e negar isso com frases de autoajuda é apenas perpetuar a ilusão que impede a verdadeira mudança.

12 Transforma-se o câncer em metáfora de revelação e purificação, vendo na doença o impulso para romper com tudo o que é estagnado ou indiferente; pois, diante da urgência de viver, a neutralidade torna-se cumplicidade, e afastar-se dos passivos é um ato de defesa da própria energia e da saúde do espírito.

13 Denuncia-se a hipocrisia que silencia o debate sobre sexualidade nas escolas, mostrando que, enquanto a mídia educa sem pudor, o professor é censurado por medo e moralismo; e que, sob o domínio do mercado e da fé disfarçada de virtude, o medo substituiu a ética tornando o silêncio a maior forma de conivência.

14 Afirma-se que o inferno, ao punir, humaniza, enquanto a igreja, ao simplificar Deus, O profana; tornando-se o céu dos condenados e o inferno do divino; pois bem e mal se confundem no uso que a razão lhes dá, e apenas o tolo, preso à ignorância, continua com a cabeça no buraco, incapaz de ver a verdade.

15 Sustenta-se que toda imposição moral revela carência e frustração, pois quem dita regras tenta compensar o que lhe falta; por isso, ninguém deve ser modelo para ninguém; afinal, até o conselho gratuito, como o afeto sem desejo, carece de valor quando não nasce da troca justa e consciente.

16 Denuncia-se a moralidade fingida dos fanáticos, que pregam virtude enquanto ocultam o vício, lembrando que a verdadeira imoralidade não está em quem vive com transparência, mas na inveja dos que disfarçam seus desejos sob o manto da fé e da correção.

17 Afirma-se que o saber habita até o inconsciente e se revela na fala, mas que a existência é finita e sem herança: a árvore morre em si mesma, enquanto a semente, autônoma, carrega outro destino; pois nenhum ser gera continuidade, apenas variações efêmeras de uma vida que nunca se repete.

18 Denuncia-se a falsidade profissional disfarçada de atendimento, mostrando que quem não domina o próprio ofício nem assume seu papel trai a função que representa; pois servir sem preparo ou comprometimento é a forma mais comum de não “vestir a camisa” e de fraudar o valor do trabalho.

19 Propõe-se que o excesso de proteção às mulheres, ao invés de equilibrar os gêneros, acabou invertendo seus papéis, enfraquecendo o modelo heteronormativo e revelando a ironia de uma moral que, ao tentar conter o desejo, acabou por reinventá-lo fora dos limites que ela mesma impôs.

20 Ironiza-se a fé hipócrita ao afirmar que um Deus moldado por sentimentos humanos só age conforme a pureza de quem O invoca; e que toda oração nascida do ódio nada cria, pois revela mais o limite do orador do que o poder do divino.

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quinta-feira, 21 de abril de 2022

Coleção 74 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

 

Coleção 74 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

Por Claudeci Andrade

1 Amam uns e devoram outros; assim revelam que a ternura exibida aos cães é apenas o disfarce de uma humanidade seletiva, onde a compaixão virou modinha e o caráter se corrompe no mesmo prato em que se serve a hipocrisia.

2 Se a fé realmente movesse montanhas, não haveria pobres nem doentes; mas como o acaso continua premiando os mesmos bilhetes, resta crer que o milagre é loteria, não devoção.

3 Passar a mão na cabeça do aluno pode ferir tanto quanto o abuso físico; pois ao poupá-lo do rigor, corrompe-se não o corpo, mas o caráter, tornando-o incapaz de crescer com responsabilidade e verdade.

4 Num sistema onde cumprir o dever não basta, o trabalhador descobre que só conquista seus direitos lutando por eles; como quem saqueia o que lhe pertence, pagando com desgaste e incerteza o preço da justiça que lhe foi negada.

5 Não sou eu quem morre, mas o outro que se apaga de minha percepção; eu persisto nas lembranças que deixo, enquanto só Deus, que domina o nada, existe sem precisar ser lembrado.

6 O “Efeito Ema” é o autoengano de quem, ao pintar o mundo com as cores dos próprios óculos, acredita que todos enxergam o mesmo tom; e, iludido por essa miragem, fala com a segurança de quem confunde fantasia com realidade.

7 A rebeldia juvenil nasce da infância roubada; é o protesto tardio de quem foi tratado como brinquedo e nunca pôde brincar; talvez por isso ensino com rigor, pois aprendi cedo a construir meus próprios jogos sem precisar de infância alheia.

8 O amor romântico é um mito elegante que disfarça acordos de conveniência; casam-se por interesse, traem por encanto, e chamam de sentimento o que não passa de egoísmo bem enfeitado.

9 A escola, cercada de proibições, ensinou apenas o “não”; não pode isso, não pode aquilo, até que já não se pode aprender; e, ironicamente, os piores sentam na frente, enquanto os melhores ficam esquecidos no fundo, como se o mérito também tivesse sido reprovado.

10 Na escola-caverna, os alunos, acorrentados pela uniformidade, temem a luz do saber; e, em vez de se libertarem, preferem matar o filósofo que ousa mostrar-lhes a saída.

11 O fraco vence quando aprende a vestir a pele do inimigo; imita, finge pertencer e, sob o feitiço da hipocrisia, transforma a dissimulação em sua mais eficaz forma de sobrevivência.

12 O aluno trai o professor que o tratou como amigo, denunciando-o por permitir o jogo que ele próprio não terminou; ironia amarga de uma escola onde se pune a tolerância e se absolve a irresponsabilidade.

13 A falsa moral nasce da frustração: quem não pode viver o prazer faz dele um crime e, ao proibir nos outros o que lhe falta, torna-se carrasco da própria carência.

14 Na escola pública, já não há estudantes, apenas iguais no desinteresse; e os piores, ao humilhar o professor, fazem da insolência uma aula de poder, buscando na violência a fama que o saber não lhes dá.

15 Na escola, reina a lei do talião; quem bate apanha, e no trabalho, o desemprego virou sinônimo de incompetência; assim, a sociedade chama de justiça natural o que, na verdade, é apenas a barbárie travestida de mérito.

16 A escola virou espelho da rua; ali, quem bate apanha, e o saber cede lugar à vingança; do mesmo modo, no trabalho, o desemprego é tratado como castigo justo, como se a miséria fosse sempre culpa de quem a sofre.

17 Na escola pública, qualquer crápula matriculado sente-se no direito de humilhar quem o ensina; ali, títulos não valem nada, e a dor do mestre ou do doutor é a mesma, pois basta ser chamado de professor para ser desrespeitado por igual.

18 Ao promover o bagunceiro só para se livrar dele, o professor dá um tiro no próprio pé; alimenta o fracasso que o sufoca, obedece à secretaria que manda e se acomoda na facilidade viciosa de empurrar o problema adiante.

19 Quando o professor precisa comprar a atenção ou ameaçar para ensinar, já perdeu a lição; pois o fruto do saber não nasce de suborno nem de medo, mas morre onde o mérito é trocado por conveniência.

20 Meus colegas não se envergonham de mim, mas da verdade que minhas palavras revelam; vivemos o mesmo caos, apenas eu o confesso, enquanto eles o escondem sob o silêncio que os preserva da própria consciência.

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