As manhãs de sábado costumam me pertencer. Aprecio o silêncio espesso que antecede o dia, quando a casa ainda respira devagar e a mente vagueia sem cobrança. Eu estava nesse estado — meio sonho, meio balanço de erros e promessas — quando o som seco de batidas no portão rasgou a quietude. Não foi metáfora: madeira contra ferro, insistente. A realidade, impaciente, chamou-me de volta.
Levantei contrariado, ainda preso ao torpor do pensamento interrompido. Do outro lado do portão, duas Testemunhas de Jeová aguardavam. Rosto sereno, roupas discretas, a cordialidade treinada de quem chega sempre cedo demais à vida alheia. Cumprimentaram-me como se eu fosse esperado. O dia, até então previsível, já havia mudado de curso.
— Bom dia, irmão. Podemos conversar um pouco sobre a Palavra de Deus?
Havia ali uma confiança quase comovente. Falaram-me de estudo bíblico, de propósito, de um caminho claro em meio ao caos. Eu escutava, mas também observava: o cuidado na entonação, o brilho contido nos olhos, a convicção que dispensava alarde. Respondi com a cautela de quem já fora abordado por muitos vendedores de esperança, cada qual com sua embalagem sedutora. Disse-lhes que estava cansado de promessas prontas e de soluções universais para almas complexas. Eles sorriram — não com desdém, mas com paciência.
— Não estamos aqui para convencer — disse um deles —, apenas para compartilhar.
Foi nesse intervalo mínimo e decisivo que algo se moveu. Não foi a doutrina que me alcançou, mas o gesto. A disponibilidade gratuita. Percebi, com certo constrangimento, o quanto eu próprio vinha medindo encontros pela régua da utilidade: o que ganho, o que perco, quanto custa. Ali, diante do portão ainda entreaberto, compreendi que afeto não se negocia — se oferece. E, curiosamente, retorna.
Conversamos pouco, mas o suficiente. Falaram, ouvi. Ouvi, falei. Nenhuma conversão, nenhum milagre espetacular. Apenas o raro exercício da presença. Ao se despedirem, levaram consigo apenas o tempo que lhes concedi e deixaram algo maior: a sensação de que nada é inútil quando há troca verdadeira.
Fechei o portão e, pela primeira vez naquela manhã, senti-me plenamente desperto. O encontro desmontara, sem violência, algumas certezas antigas. Pensar que o mundo funciona apenas à base de interesse talvez seja uma forma sofisticada de cinismo. Ainda há quem bata à porta apenas para oferecer sentido.
O restante do dia seguiu outro ritmo. Estudei, li, deixei que a ideia fermentasse. À noite, encontrei amigos. Rimos, celebramos, partilhamos vinho. Não precisei explicar nada: o vinho novo falava por si. Algumas percepções antigas já não comportavam o que eu havia experimentado naquela manhã. O odre velho cedeu — não por excesso, mas por maturação.
E assim compreendi: às vezes, despertar não é apenas abrir os olhos, mas ter coragem de abrir a porta.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito com a produção desse texto, ficou como eu queria. Ele é riquíssimo para discutirmos como as interações sociais cotidianas moldam nossa percepção de mundo. Ele nos leva a refletir sobre o encontro com o "outro" e como as instituições (sejam elas religiosas ou a própria estrutura de pensamento do indivíduo) afetam nossa convivência. Para nossa atividade, elaborei 5 questões discursivas simples que conectam a narrativa aos conceitos fundamentais da Sociologia:
1. A Instituição Religiosa e a Interação Social. No texto, os visitantes são identificados como Testemunhas de Jeová. Na sociologia, as religiões são instituições que oferecem um sistema de crenças e valores. Como o autor descreve a abordagem dessas pessoas e de que forma essa "convicção treinada" influencia o início da interação social no portão?
2. A Ética do Interesse vs. A Ética do Afeto. O narrador confessa que costumava medir seus encontros pela "régua da utilidade" (o que ganho, o que perco). Relacione essa reflexão com a lógica da sociedade moderna, que muitas vezes prioriza relações baseadas no interesse econômico ou pessoal, em vez da disponibilidade gratuita mencionada no texto.
3. O Papel do "Outro" na Construção da Identidade. O autor afirma que "despertar não é apenas abrir os olhos, mas ter coragem de abrir a porta". Do ponto de vista sociológico, como o encontro com pessoas que pensam de forma diferente da nossa pode ajudar a transformar nossas próprias certezas e "moldes" de pensamento?
4. O Conceito de Solidariedade e Troca Social. Ao final do encontro, o texto diz que "nada é inútil quando há troca verdadeira". Como essa ideia se opõe ao "cinismo" citado pelo autor e como a sociologia explica a importância das trocas simbólicas (tempo, atenção, escuta) para a manutenção dos laços sociais?
5. Mudança Social e o "Vinho Novo". A metáfora do "vinho novo" que rompe o "odre velho" sugere uma mudança de mentalidade. Por que é difícil para as instituições e para os indivíduos mudarem suas tradições ou formas antigas de pensar, mesmo quando novas experiências demonstram que os modelos antigos já não funcionam?
Dica do Professor:
Ao responder, não se preocupe em encontrar "uma única resposta certa". A Sociologia nos convida a observar o comportamento humano. Use passagens do texto para justificar sua opinião sobre como nós, seres humanos, reagimos quando nossa rotina e nossos preconceitos são desafiados por um estranho no portão.