E SE A PANDEMIA VOLTAR: O Retorno do Invisível? ("Conta-me o teu passado e saberei o teu futuro." — Confúcio)
por Claudeci Ferreira de Andrade
"A escola passou a ser uma tela fria; e a casa, um confinamento sem teto." E se o pesadelo resolvesse bater à porta outra vez? E se o vírus, numa dessas ironias cruéis que a história gosta de aprontar, nos empurrasse novamente para dentro de casa? Fecho os olhos e o que surge não tem cheiro de ficção científica; tem cheiro de memória. Não parece futuro: parece um eco mal cicatrizado do que ainda pulsa debaixo da pele. Mais uma batalha silenciosa se armaria nos bastidores da educação, e famílias e escolas, que antes dividiam responsabilidades no mesmo chão, seriam lançadas para um território nebuloso, onde as paredes da casa e da sala de aula deixariam, de vez, de existir.
Mas, essa cena não mora nas abstrações. Ela tem endereço, nome e rotina. É o celular da dona Maria, com a tela rachada e o pacote de internet vencido, apoiado na mesa da cozinha enquanto o pequeno Enzo, de oito anos, tenta decifrar a voz metálica da professora atravessando falhas e ruídos. Na sala ao lado, o padrasto divide o home office com o choro do filho menor, com a panela vazia e com a conta do gás, que insiste em subir como se desconhecesse a palavra limite. E aí mora a rachadura do país: para alguns, o desafio será organizar o quarto, administrar aplicativos novos e sobreviver ao tédio revestido de conforto; para outros, o confinamento ganha outro nome — sobrevivência.
Porque, na periferia, as câmeras desligadas contam histórias que nunca aparecem nas estatísticas. Escondem a fome avançando devagar, escondem o silêncio pesado da violência doméstica sufocada entre paredes estreitas, escondem ausências que ninguém registra. Ali, a escola deixa de ser apenas uma instituição de ensino. Ela vira prato de comida, abrigo, encontro, presença. Vira memória. Um fantasma de tijolos, vozes e merenda que um dia fechou os portões e desapareceu da rotina.
No Brasil, esse abismo adquire contornos ainda mais duros, quase como uma tragédia anunciada que insistimos em assistir da plateia. O medo permanente, a falta de consensos e as divisões que atravessam a sociedade alimentam feridas que já estavam abertas muito antes de qualquer crise sanitária. E, no meio desse incêndio, a educação acaba sendo arrastada para disputas que pouco enxergam quem está sentado na carteira escolar. Enquanto discursos se enfrentam, cadernos se fecham. Enquanto narrativas disputam espaço, matrículas acumulam poeira. O resultado não aparece apenas nos números frios ou nas planilhas; ele anda pelas ruas. Tem rosto de adolescente que troca o lápis pela mochila de entregas, de criança que desaparece da chamada sem fazer barulho. É o absenteísmo silencioso. É a evasão escolar chegando sem pedir licença.
Do outro lado da tela, existe ainda quem tente segurar os pedaços. Penso em Jacinto. Vejo Jacinto gravando videoaulas tarde da noite, improvisando um cenário entre livros empilhados para erguer o notebook até a altura dos olhos. Escuto o choro do próprio filho atravessando a gravação enquanto ele procura, em algum canto do cansaço, uma voz tranquila para ensinar. Há algo quase heroico e doloroso nisso: espremer doçura de uma webcam fria, insistir em manter acesa uma chama que o próprio sistema parece soprar para apagar.
Talvez terminar essa reflexão com uma esperança suave fosse bonito. Seria confortável. Mas, conforto demais, nessas horas, pode virar anestesia. E anestesia nenhuma constrói ponte sobre abismo. Se as escolas precisarem abrir as portas depois de uma nova tormenta, que não seja para ressuscitar o mesmo "normal" que já deixava tanta gente do lado de fora. A valorização dos professores, a reconciliação com a educação e a reconstrução de vínculos não nascerão da nostalgia ou de discursos emocionados. Nascerão da coragem — essa coragem difícil — de encarar o tamanho do fosso e, finalmente, decidir fechá-lo.
Porque o futuro ainda está sendo disputado. E ele não costuma esperar quem chega atrasado.
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Que texto impactante e necessário para discutirmos na nossa aula de Sociologia! Se nos textos anteriores nós olhamos para a cultura e a linguagem, esta crônica é um prato cheio para trabalharmos os conceitos de Desigualdade Estrutural, Função Social das Instituições, e Trabalho e Precarização no Ensino Médio. Ela humaniza os dados estatísticos que os alunos costumam ver nos livros didáticos. Mantendo o nosso compromisso com o Alinhamento Construtivo, elaborei 5 questões discursivas, simples e profundas, focadas nas competências sociológicas de leitura crítica da realidade.
1. A Escola para além do Ensino: Função Social das Instituições
No terceiro parágrafo, o autor afirma que, na periferia, a escola deixa de ser apenas uma instituição de ensino e "vira prato de comida, abrigo, encontro, presença".
Pergunta: A partir dessa afirmação e dos seus estudos sobre as instituições sociais, explique qual é a função social da escola pública na periferia e por que o seu fechamento causa impactos que vão muito além da interrupção das aulas de conteúdo formal.
O que se espera na resposta: O aluno deve identificar que a escola pública cumpre uma função social complexa de rede de apoio, proteção social e segurança alimentar (merenda) para famílias vulneráveis. Ao fechar os portões, rompe-se o espaço de socialização, o refúgio contra a violência doméstica e a garantia da subsistência básica, escancarando o papel da escola como amortecedora da pobreza.
2. Desigualdade Digital e Estrutura Social
O texto traça um contraste nítido: para alguns, o desafio do ensino remoto é "administrar aplicativos novos e sobreviver ao tédio" em um quarto confortável; para outros, significa estudar com o "celular da dona Maria, com a tela rachada e o pacote de internet vencido".
Pergunta: Como o conceito de desigualdade social nos ajuda a entender que o acesso à tecnologia e à internet não depende apenas do esforço individual (meritocracia), mas sim da posição socioeconômica da família?
O que se espera na resposta: O estudante deve argumentar que o acesso à internet de qualidade e a ambientes adequados de estudo são reflexos da distribuição desigual de renda e infraestrutura no país. A crônica desmistifica a ideia de que o sucesso no ensino remoto depende apenas do esforço do aluno (mérito), provando que as condições materiais de vida determinam as chances de aprendizado.
3. Evasão Escolar e o Mercado de Trabalho Precarizado
O quarto parágrafo descreve o resultado das disputas sociais na educação: "Tem rosto de adolescente que troca o lápis pela mochila de entregas... É a evasão escolar chegando sem pedir licença".
Pergunta: Relacione a evasão escolar mencionada no texto com a necessidade de sobrevivência econômica das famílias periféricas. Por que o trabalho informal e precarizado (como o de entregador de aplicativos) acaba disputando espaço com o direito do jovem de estudar?
O que se espera na resposta: O aluno deve perceber que, diante de crises e do empobrecimento das famílias, os jovens da periferia são empurrados precocemente para o mercado de trabalho informal para ajudar na renda de casa. A necessidade imediata de sobrevivência (fome, contas) atropela o projeto de futuro dos estudos, gerando a evasão escolar e perpetuando o ciclo da pobreza.
4. A Precarização do Trabalho Docente
O personagem Jacinto representa milhares de professores. Ele aparece gravando videoaulas de madrugada, improvisando cenários com livros empilhados e tentando "espremer doçura de uma webcam fria".
Pergunta: Com base na realidade vivida por Jacinto, de que maneira o ensino remoto evidenciou a precarização do trabalho e a invasão do espaço privado (a casa) pela jornada profissional dos professores?
O que se espera na resposta: Espera-se que o aluno analise que o professor teve que arcar com os custos de infraestrutura do próprio bolso (notebook, internet, espaço de casa) e sofreu com a sobrecarga de trabalho. O texto mostra o esgotamento físico e mental (Burnout) e o esforço emocional dos docentes ao tentarem manter o afeto pedagógico mediado por uma tela fria, sem o apoio devido do sistema público.
5. Crítica ao "Novo Normal" e a Mudança Social
No encerramento, o cronista avisa que a esperança não pode virar anestesia e defende que, quando as escolas abrirem de vez, não se deve "ressuscitar o mesmo 'normal' que já deixava tanta gente do lado de fora".
Pergunta: Pensando sociologicamente sobre o futuro, o que era o "normal" da educação brasileira antes da pandemia e o que significa, na prática, a sugestão do autor de "encarar o tamanho do fosso e, finalmente, decidir fechá-lo"?
O que se espera na resposta: O estudante deve explicar que o "normal" anterior já era marcado por exclusão, escolas sucateadas e falta de oportunidades iguais. "Fechar o fosso" significa que a sociedade e o Estado não devem apenas tentar voltar ao passado, mas sim reformar radicalmente a estrutura educacional, investindo em igualdade de condições, valorização salarial dos professores e políticas públicas que combatam a exclusão de forma definitiva.
Dica do Professor para a Avaliação:
Para esta atividade, vale a pena pedir para os estudantes destacarem trechos do próprio texto para justificar suas respostas. Isso estimula a interpretação de texto literário/jornalístico aplicada às ciências humanas, competência muito cobrada no ENEM e em vestibulares!
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