ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (5): Entre Deveres e Devoções.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Ele chegou ao culto com o envelope do dízimo guardado no bolso interno do paletó velho — o mesmo de todos os sábados. O tecido já denunciava o tempo, mas ainda carregava o cuidado de quem talvez não tivesse muito na vida, embora zelasse pelo pouco como se fosse tesouro. O paletó estava passado a ferro, alinhado com dignidade silenciosa. Ele se sentou na segunda fila, como sempre fazia, abriu o hinário e cantou com a boca inteira, daquele jeito que mistura fé, costume e sobrevivência.
Ninguém ali imaginava que, enquanto os hinos subiam, a mãe dele permanecia em casa, deitada, ardendo em febre desde quinta-feira, sem remédio e sem melhora. Eu sabia. E, sinceramente, nunca consegui olhar para aquele envelope sem sentir um nó atravessando o peito.
Depois do culto, puxei conversa com cuidado, quase pisando em ovos. Perguntei sobre a mãe dele. Sobre a situação. Sobre o dinheiro. Ele me respondeu com uma convicção tão calma que chegou a me gelar por dentro: "O dízimo é sagrado. Deus provê o resto."
Não havia revolta na voz. Nem culpa. Nem sequer hesitação. Era a serenidade de alguém treinado durante anos a nunca questionar a ordem das prioridades espirituais. Primeiro a instituição. Depois a casa. Depois a família. E, se sobrasse alguma coisa, o remédio.
Demorei muito tempo para entender o peso daquela lógica. Foi só anos depois, relendo Mateus com os olhos menos domesticados pela religião e mais atentos ao homem Jesus, que encontrei uma fala que desmontou tudo dentro de mim. E o mais inquietante é que Ele não estava falando com pecadores de rua, mas com religiosos especialistas em regras: "Mesmo que seus pais estejam passando necessidade, você pode dar o dinheiro do sustento deles para a igreja, em lugar de dar a eles. E assim, por meio da sua regra feita pelos homens, vocês anulam a ordem direta de Deus para que honrem e cuidem dos seus pais" (Mt 15:5-6 BV).
Eu parei. Reli devagar. E senti o peso daquelas palavras cair sobre mim como uma porta antiga se abrindo depois de anos emperrada. Jesus não estava propondo equilíbrio entre dever espiritual e responsabilidade familiar. Não. Ele estava denunciando um sistema. Um mecanismo religioso capaz de usar a linguagem do sagrado para justificar abandono. Estava expondo, sem rodeios, a perversidade de transformar negligência em virtude e culpa em fidelidade.
Em outras palavras: nenhuma regra criada por homens pode valer mais do que um filho cuidando da própria mãe. E chamar isso de “vontade de Deus” é só uma mentira vestida de devoção.
O homem do paletó velho não era cruel. Também não era egoísta. Era apenas fruto de uma teologia moldada para proteger estruturas antes de proteger pessoas. Aprendeu que piedade é envelope entregue no prazo. Que fidelidade se mede em relatórios financeiros. Que Deus acompanha com mais atenção a coluna do tesoureiro do que a febre de uma mãe esquecida num quarto escuro.
Alguém ensinou aquilo a ele. E ensinou com paciência, com sermões bem construídos, com versículos pinçados fora do contexto, com autoridade de púlpito e aparência de santidade. Então ele escolheu. Ou, pelo menos, acreditou que escolheu. Porque certas escolhas já chegam prontas na consciência da gente, implantadas anos antes por vozes que aprendemos a chamar de “voz de Deus”.
Isso não é devoção. É submissão fantasiada de fé. E, às vezes, a diferença entre uma coisa e outra cabe exatamente no intervalo entre um envelope colocado no gazofilácio e um filho atravessando a cidade com o remédio que a mãe esperou… mas que nunca chegou.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de abrigo para quem finalmente aprendeu a ordem correta do amor.
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