Ensaio Teológico IX(1) Além da Sabedoria: A Importância das Instituições Sociais
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que me acompanha: numa enfermaria de interior, de madrugada, uma senhora de mãos calejadas vela o marido doente. Ela reza, e é sábia, pois sabe esperar, consolar e suportar. Mas o que salvará aquele homem não é só essa sabedoria; é também o plantonista que estudou anos, o antibiótico fruto de décadas de pesquisa e o hospital que uma comunidade decidiu construir. A sabedoria sustenta a alma, as instituições sustentam o corpo, e o ser humano precisa de ambos. Não pretendo rebaixar o tesouro de Provérbios 3:13-14, que declara a sabedoria melhor que a prata e o ouro. Lembro, porém, que o livro inteiro trata de tribunais, trabalho, governo e vizinhança: a sabedoria bíblica já nasce prática e comunitária, e minha tese é a seu favor, pois ela floresce quando encontra estruturas que a encarnem.
Nesse ponto, Yuval Noah Harari ajuda. Em Sapiens, ele sustenta que nossa espécie venceu por cooperar em larga escala, apoiada em ficções compartilhadas como leis, moedas e instituições. Embora ele trate a religião como uma dessas ficções, e eu não concorde com essa conclusão, reconheço a força do diagnóstico: nenhuma civilização se mantém só de boas intenções individuais. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, reforça a ideia ao documentar que a queda da violência e da miséria resultou de esforço coletivo, feito de comércio, ciência, direitos humanos e governos responsáveis. Também ele vê mais sombra que luz na religião, e é honesto admitir a divergência. Paulo, a seu modo, já intuía a lição: sabedoria, conhecimento e fé são dons distintos (1Co 12:8-9), e a sabedoria é um dom entre dons, não o corpo inteiro.
Além disso, o conhecimento muda. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, defende que a ciência vive de dúvida e autocorreção, e que isso é sua grandeza, não sua fraqueza. Curiosamente, o texto sapiencial concorda: "O sábio ouvirá e aumentará o aprendizado" (Pv 1:5). Quem aumenta o aprendizado admite não o possuir por inteiro, e essa humildade intelectual é, talvez, o ponto de encontro mais honesto entre o laboratório e o templo. Dela decorre a objeção mais séria: o pluralismo não enfraqueceria a fé? Penso o contrário. Se só uma "sabedoria divina", entendida como monopólio, conduzisse à vida plena, a vizinha que não crê, o médico que duvida e o professor de outra tradição seriam inúteis à nossa felicidade, e sabemos que não são. Paulo, ao lembrar que temos muitos membros num só corpo (Rm 12:4-5), me autoriza a ver na diversidade uma arquitetura, não uma ameaça.
Volto, então, à enfermaria. A senhora continua rezando, e faz bem, mas agradeço também, com igual sinceridade, à enfermeira que ajusta o soro, ao pesquisador que jamais conhecerei e ao legislador que garantiu aquele leito. A sabedoria, isolada, é uma lamparina preciosa num quarto escuro; unida à ciência, às instituições e à diversidade, torna-se cidade iluminada. Não é a sabedoria que perde com isso. É o ser humano que ganha.


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