Ensaio Teológico VIII(22) De onde vem a sabedoria: entre o dom divino e os erros da vida
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Carrego comigo uma pergunta antiga e teimosa: de onde vem a sabedoria? A tradição bíblica responde que "o Senhor dá a sabedoria; da sua boca procedem o conhecimento e o entendimento" (Provérbios 2:6). Cresci ouvindo essa resposta e nunca deixei de acreditar nela. Com o passar dos anos, porém, aprendi que uma resposta verdadeira nem sempre é completa e que inquietar-se diante dela não significa falta de fé. Pelo contrário, às vezes, questionar é também uma forma de reverência. Afinal, quem disse que a fé precisa caminhar de mãos dadas com a ausência de perguntas?
Penso, então, em Dona Aparecida, uma personagem que imagino, mas que reconheço em tantas casas deste Brasil afora. Analfabeta, lavadeira e mãe de seis filhos, era procurada pela vizinhança quando surgiam brigas entre casais, filhos se desgarravam ou decisões difíceis tiravam o sono de alguém. Ela não citava filósofos, não recorria a livros nem fazia discursos bonitos. Escutava muito, falava pouco e, não raro, acertava na mosca. Quando lhe perguntavam de onde vinha tanta sabedoria, respondia: "Do que eu errei, meu filho." Eis aí uma lição e tanto! Sua sabedoria tinha duas raízes profundas: o temor reverente de quem reconhecia sua dependência de Deus e a memória lúcida de quem sabia que não era dona da verdade. Dona Aparecida talvez não conhecesse as palavras dos grandes pensadores, mas conhecia a vida — e, convenhamos, há experiências que nenhuma escola ensina por inteiro.
Por isso, recuso-me a colocar o dom divino de um lado e a conquista humana do outro, como se fossem adversários disputando o mesmo território. A própria Bíblia desfaz essa falsa oposição. O mesmo capítulo de Provérbios que afirma que o Senhor concede sabedoria também me ensina a acolher as palavras, inclinar os ouvidos e buscar o entendimento como quem procura prata (Provérbios 2:1-5). Ou seja, a sabedoria vem de Deus, mas exige disposição para aprender, esforço e perseverança. Em Jó 28, encontramos o ser humano capaz de escavar minas e arrancar tesouros das profundezas da terra, mas incapaz de dominar, por suas próprias forças, o mistério da sabedoria. Já Eclesiastes nos apresenta a confissão de um buscador que percorreu os caminhos da existência e voltou com as mãos cheias de perguntas. Nessa mesma encruzilhada, encontramos Sócrates, cuja trajetória é apresentada por Platão na Apologia. Ao interrogar homens considerados sábios, ele descobriu o perigo de presumir que se sabe aquilo que, na verdade, se ignora. Embora a conhecida fórmula "só sei que nada sei" não apareça literalmente dessa maneira nos diálogos platônicos, ela sintetiza essa postura de humildade intelectual. E há um detalhe interessante: sua investigação começou com um oráculo, um sinal que vinha de fora e o levou a examinar o conhecimento humano. Até nesse caso, portanto, inspiração e busca, experiência e reflexão, caminham lado a lado.
Concluo, então, que definir sabedoria simplesmente como "o poder do julgamento correto" me parece pouco, pois julgar bem exige compreender, e compreender de verdade exige disposição para enxergar o mundo também pelos olhos de quem pensa diferente de mim. Sem empatia, o julgamento vira sentença; sem humildade, transforma-se em soberba vestida de boas maneiras. Aprendi isso da pior maneira: certa vez, defendi com firmeza uma posição que, semanas depois, descobri estar errada. A vergonha passou depressa, mas a lição ficou. Desde então, procuro desconfiar um pouco mais das minhas certezas e ouvir com mais atenção as razões alheias. Afinal, reconhecer um erro não diminui ninguém; o que nos apequena é insistir nele só para salvar as aparências. A sabedoria é dom, recebido de mãos abertas, mas também é caminho, percorrido com paciência, reflexão e disposição para aprender com os próprios tropeços. E volto, assim, à pergunta que abriu esta reflexão: de onde vem a sabedoria? Talvez venha de Deus, floresça na experiência e amadureça na humildade de quem reconhece que ainda tem muito a aprender. Porque, no fim das contas, a sabedoria mora menos na boca de quem afirma saber tudo e mais no coração de quem nunca perde a coragem de perguntar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário