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domingo, 18 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(28) A Sabedoria que Nasce entre a Fé e a Dúvida

 


Ensaio Teológico VIII(28) A Sabedoria que Nasce entre a Fé e a Dúvida

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma pergunta que fiz ainda menino, durante um velório, e que ninguém soube responder. Não era rebeldia, muito menos provocação; era apenas uma pergunta sincera, dessas que nascem quando a gente se depara com os mistérios da vida e da morte: por quê? O silêncio que veio depois me ensinou mais do que muitas respostas prontas. Desde então, desconfio das certezas que nunca passaram pelo fogo da dúvida. Penso naquela máxima atribuída a Leonardo da Vinci, segundo a qual a sabedoria é filha da experiência. Afinal, não a recebo como herança, tampouco a decoro como uma lição escolar. Ela vai nascendo no contato demorado com a vida, no tropeço, no erro, nas perdas e, sobretudo, no tempo, esse professor que não costuma antecipar suas lições. Isso não significa excluir o divino dessa caminhada, mas reconhecer que até mesmo aquilo que consideramos revelação precisa ser vivido, refletido e compreendido.

É justamente aí que encontro uma tensão que um ensaio honesto não pode varrer para debaixo do tapete. Provérbios 1:7 afirma que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria", enquanto 1 Tessalonicenses 5:21 nos orienta: "Examinai tudo. Retende o bem." À primeira vista, alguém poderia enxergar contradição entre reverenciar e questionar. Mas, será que existe mesmo? Para mim, a chave está na palavra princípio, entendida como começo e fundamento: o temor do Senhor representa o ponto de partida, não necessariamente a linha de chegada. Reverenciar, portanto, não é desligar a consciência nem entregar o pensamento de porteira fechada; é reconhecer que estamos diante de algo maior do que a nossa capacidade de compreender. Não por acaso, os cristãos de Bereia foram elogiados por examinar diariamente as Escrituras (Atos 17:11), e Provérbios 25:2 destaca a glória de esquadrinhar as coisas. Ora, se a própria tradição bíblica valoriza a investigação, por que transformar a dúvida em inimiga da fé? Reconheço que essa tensão não desaparece por completo — e talvez nem deva. Afinal, uma fé que nunca foi questionada pode até parecer firme, mas será que sabe, de fato, do que é feita?

Dessa fricção entre fé e questionamento, passo à ciência, que vem desvendando mecanismos antes atribuídos exclusivamente ao mistério e, de quebra, ensinando-nos uma boa dose de humildade. Carl Sagan nos lembra da importância de exigir evidências proporcionais à grandeza de uma afirmação, enquanto Richard Feynman adverte que o primeiro princípio é não enganar a si mesmo, sendo nós mesmos as pessoas mais fáceis de enganar. Eis uma lição que serve tanto para o laboratório quanto para o púlpito, para a sala de aula e para a mesa de casa. Por isso, procuro verificar aquilo que cito antes de transformar uma frase bonita em argumento. A conhecida afirmação sobre a ilusão de conhecimento, frequentemente atribuída a Stephen Hawking, parece ter origem em Daniel Boorstin, historiador que merece ser lembrado pela autoria que lhe cabe. Afinal, citar sem conferir, num ensaio que defende o questionamento, seria tropeçar na própria contradição. Pelo mesmo cuidado, leio Romanos 1:20 como uma convicção teológica sobre a possibilidade de reconhecer o divino na criação, e não como uma demonstração experimental nos moldes científicos. Uma coisa não precisa vestir a roupa da outra para ter significado. A ciência não precisa provar Deus para cumprir seu papel, assim como a teologia não precisa se disfarçar de laboratório para refletir sobre a fé. Talvez parte da sabedoria consista justamente em discernir qual pergunta pertence a cada campo, sem confundir os métodos nem fechar as portas ao diálogo.

Concluo, portanto, que a sabedoria não brota exclusivamente dos textos sagrados, das pregações ou da erudição acumulada nos livros. Ela amadurece no encontro entre escuta e dúvida, instrução e experiência, reverência e autocrítica. Provérbios 18:15 fala de um coração que busca conhecimento, e quem busca, convenhamos, ainda não chegou ao fim da estrada. Talvez seja essa a beleza da sabedoria: menos uma medalha que se pendura no peito e mais uma caminhada que exige disposição para rever os próprios passos. Aquele menino do velório não encontrou resposta naquele dia, mas aprendeu algo que o tempo só fez aprofundar: não precisava ter medo da própria pergunta. Hoje, depois de tantas leituras, experiências e mudanças de perspectiva, continuo desconfiando das certezas que exigem silêncio e das respostas que proíbem a investigação. Se há uma lição que posso deixar, é esta: que minha fé tenha coragem de ser interrogada e que minha dúvida tenha a decência de reconhecer seus limites. Porque, entre uma e outra, sem a arrogância de quem acredita saber tudo nem o orgulho de quem duvida de tudo, talvez seja justamente aí que a sabedoria encontre morada.

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