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domingo, 18 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

 


Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu acreditava que duvidar era uma espécie de traição. Aprendi cedo que a fé devia ser guardada inteira, como uma herança sagrada, e que fazer perguntas demais era mexer onde não se devia. Mas, a vida, ah, a vida nem sempre respeita as cercas que levantamos ao redor das nossas certezas! Quando as perguntas chegaram, não pediram licença nem bateram à porta. Vieram, remexeram o que parecia intocável e me obrigaram a rever muita coisa. No caminho, perdi o conforto de algumas respostas prontas e até a companhia de quem não suportava me ver questionando aquilo que, para essa gente, não admitia discussão. Foi nessa travessia que comecei a desconfiar do próprio título deste ensaio: falar em "sabedoria divina em evolução" pode dar a entender que Deus aprende, muda de opinião ou aperfeiçoa aquilo que antes não sabia. Não é isso que defendo. A tradição cristã afirma a constância divina, a ideia de um Deus que não muda como as sombras. O que evolui, na verdade, é a minha compreensão a respeito dele. A sabedoria divina é o horizonte; meu entendimento, a caminhada. E, convenhamos, confundir uma coisa com a outra é como imaginar que o horizonte se desloca porque nossos pés continuam andando.

Poucos expressaram os limites do conhecimento humano com tanta franqueza quanto Paulo: "agora vemos por espelho, em enigma [...] agora conheço em parte" (1 Coríntios 13:12). Repare bem: não estamos diante de um cético de gabinete, mas de um apóstolo cuja formação intelectual e religiosa marcou profundamente o cristianismo. Naquele tempo, os espelhos de metal polido não ofereciam a nitidez dos que conhecemos hoje; devolviam imagens imperfeitas, por vezes difíceis de distinguir. Paulo reconhecia que seu conhecimento era parcial e, ainda assim, não desistia de buscar. Eis uma lição que merece ser levada a sério: reconhecer os limites da própria compreensão não significa abandonar a fé, mas admitir que ainda há muito a aprender. A história da interpretação bíblica também nos oferece exemplos dessa realidade. Durante séculos, passagens como o Salmo 104:5, que fala da terra firmada em seus fundamentos, foram interpretadas por alguns como evidência de que nosso planeta permaneceria imóvel. Com o desenvolvimento da astronomia, porém, tornou-se necessário rever determinadas leituras. O texto bíblico permaneceu; o entendimento humano é que precisou mudar. Lembro, nesse contexto, de uma sentença atribuída a Gregório Magno, segundo a qual a Escritura cresce com quem a lê. Não tomo essa ideia como licença para fazer o texto dizer qualquer coisa, conforme a conveniência de cada época, mas como um convite a reconhecer que a compreensão amadurece, que o contexto importa e que cada geração pode descobrir aspectos antes despercebidos. Afinal, uma coisa é respeitar as Escrituras; outra, bem diferente, é imaginar que nossa interpretação delas já nasceu pronta, acabada e imune a qualquer revisão.

Resta, contudo, uma tensão que não quero esconder debaixo do tapete. Hebreus 4:12 afirma que a palavra de Deus é "viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes". Ora, se essa palavra possui tamanha força, que lugar haveria para a dúvida? Acredito que uma pista esteja na própria continuação do texto, que afirma que ela discerne "os pensamentos e intenções do coração". A imagem da espada, portanto, não precisa ser entendida como uma arma destinada a impedir perguntas, mas como uma lâmina que alcança o íntimo de quem se coloca diante dela. Em vez de cortar a investigação, a palavra pode cortar minhas ilusões, minhas justificativas convenientes e aquela mania tão humana de confundir convicção pessoal com verdade absoluta. Nesse sentido, uma palavra viva não é apenas aquela que eu leio; é também aquela que me interroga, me confronta e não me deixa sair da leitura exatamente como entrei. Não pretendo, com isso, dissolver todas as tensões entre fé e dúvida. Respeito quem teme que questionamentos sucessivos acabem enfraquecendo suas convicções, pois esse receio pode nascer de um desejo sincero de preservar aquilo que considera sagrado. Mas, há uma diferença importante entre duvidar para fugir e duvidar para compreender. A primeira usa a pergunta como desculpa para abandonar a busca; a segunda permanece diante dela, mesmo quando a resposta demora a chegar. E é nessa permanência, nesse desconforto de quem não se satisfaz com qualquer explicação, que encontro uma possibilidade de amadurecimento espiritual.

A ciência moderna, por sua vez, construiu parte importante de sua força sobre a disposição de questionar hipóteses, examinar evidências e corrigir os próprios erros. Albert Einstein é frequentemente lembrado por defender a importância de não abandonar o questionamento, enquanto Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, apresenta a ciência como "uma vela no escuro". Gosto dessa imagem porque ela nos devolve à medida das nossas limitações. Quem investiga o cosmos e quem se recolhe em oração diante do mistério podem estar em caminhos diferentes, com métodos e objetivos distintos, mas ambos se deparam com algo que ultrapassa suas certezas imediatas. É como segurar uma pequena chama diante de uma noite imensa: a luz revela alguma coisa, permite enxergar alguns passos, mas não elimina a vastidão do que permanece oculto. A humildade começa, talvez, quando reconheço que minha chama ilumina apenas uma parte do caminho e que, além dela, ainda existe muito a descobrir. Não preciso apagar a luz para admitir a escuridão, nem fingir que iluminei tudo só porque consegui enxergar alguns metros à frente.

Concluo, então, não com uma exigência, mas com um convite à reflexão. Se minha compreensão é parcial, como reconheceu Paulo, talvez o gesto mais fiel não seja agarrar-me desesperadamente às respostas que recebi na infância, mas continuar olhando, examinando e aprendendo. Isso não significa transformar a dúvida em dona da verdade, assim como não significa fazer da fé uma licença para ignorar perguntas legítimas. Significa aceitar que posso rever minhas interpretações sem, necessariamente, abandonar aquilo que considero essencial. Hoje compreendo que a expressão "sabedoria divina em evolução" só faz sentido, para mim, quando se refere ao amadurecimento da compreensão humana diante do divino, e não a uma suposta transformação do próprio Deus. Afinal, o horizonte não precisa mudar para que eu enxergue mais longe; sou eu que preciso caminhar, abrir os olhos e reconhecer os limites da minha visão. E, se há algo que essa jornada me ensinou, é que Deus não se assusta com perguntas. Quem se assusta, muitas vezes, sou eu, temendo perder as certezas que me deram abrigo durante tanto tempo. Ainda assim, prefiro continuar a caminhada: com a fé que me inspira, a dúvida que me examina e a humildade de quem sabe que a própria vela, por mais necessária que seja, jamais iluminará a noite inteira.

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