Ensaio Teológico VIII(29) O Mar, a Ciência e o Assombro: Dois Caminhos em Busca da Verdade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma tarde à beira-mar, quando fiquei observando a maré recuar e deixar para trás uma pequena concha, vazia e ainda molhada. Peguei-a sem saber bem por quê. Era leve demais para o peso do sentimento que despertou em mim: a sensação de estar diante de algo imenso, antigo, que existia muito antes de mim e continuaria existindo sem se importar com a minha pressa de compreender o mundo. Desde então, carrego comigo duas perguntas que, durante muito tempo, julguei inimigas: de onde vem tudo isto? e por que isto me comove? O salmista expressou seu assombro ao exclamar: "Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras!" (Salmo 104:24). Já o geólogo, diante do mesmo mar, talvez faça outra pergunta: como tudo isso se formou? Ora, por que não ouvir as duas vozes? Convido o leitor a caminhar comigo por essas duas trilhas, sem exigir que uma silencie a outra.
A ciência nos conta uma história que, por si só, tem algo de épico. Nos primórdios da Terra, quando o planeta ainda era extremamente quente e parte de sua superfície permanecia fundida, a atividade vulcânica liberava vapor de água. À medida que a superfície esfriou, esse vapor pôde se condensar, dando origem a chuvas que, ao longo de períodos imensos, contribuíram para a formação dos primeiros reservatórios de água líquida. Os antigos zircões encontrados em Jack Hills, na Austrália, fornecem indícios de que já havia água líquida na superfície terrestre há cerca de 4,4 bilhões de anos. Mas a história não termina aí. Parte da água também pode ter chegado por meio de materiais vindos do espaço. Meteoritos ricos em minerais hidratados, especialmente os condritos carbonáceos, apresentam características isotópicas do hidrogênio semelhantes às encontradas nos oceanos, sugerindo que asteroides contribuíram para abastecê-los. Quanto aos cometas, seu papel continua sendo investigado e debatido. E, veja só, há beleza nisso: a ciência não perde sua grandeza por ainda ter perguntas sem respostas; pelo contrário, é justamente essa disposição para investigar que a mantém viva. Mais tarde, a dinâmica das placas tectônicas passou a desempenhar um papel fundamental na configuração dos continentes e oceanos. A fragmentação da Pangeia, iniciada há cerca de 200 milhões de anos, contribuiu para a abertura do Atlântico, enquanto a formação de crosta nas dorsais oceânicas e seu afundamento nas zonas de subducção continuam remodelando o planeta. Os oceanos, portanto, não são apenas heranças de um passado remoto: são parte de uma história geológica que continua acontecendo debaixo dos nossos pés — e, sobretudo, debaixo das águas.
Se a geologia procura explicar como os oceanos se formaram, a teologia se aventura por outra pergunta: o que significa existirem oceanos e existirmos nós, seres humanos, capazes de contemplá-los e nos maravilhar com sua grandeza? O paleontólogo e historiador da ciência Stephen Jay Gould propôs a ideia de que ciência e religião pertencem a "magistérios" distintos, cada qual com seu campo de atuação. Essa proposta é debatida, naturalmente, mas oferece uma reflexão interessante sobre os limites e as possibilidades do diálogo entre essas duas formas de compreender a realidade. Em 1615, Galileu Galilei recorreu a uma fórmula tradicionalmente atribuída ao cardeal Cesare Baronio: a Bíblia ensina como se vai para o céu, não como o céu vai. Isso não significa, porém, que as Escrituras deixem de falar sobre a natureza. Basta lembrar Jó 38, quando Deus pergunta quem encerrou o mar com portas e estabeleceu limites para suas ondas. Não leio essa passagem como um tratado de geologia, mas como uma linguagem poética que expressa espanto diante de uma realidade que ultrapassa o domínio humano. Para mim, não é necessário transformar a Bíblia num manual científico, nem exigir que a ciência responda a todas as perguntas sobre o sentido da existência. São maneiras distintas de olhar para o mundo. Enquanto a geologia explica a transformação das costas por meio de processos como erosão e sedimentação, a poesia bíblica dá voz ao sentimento de quem contempla o limite das águas e reconhece que não é o autor de tudo aquilo que existe. Uma perspectiva investiga os mecanismos; a outra convida à reflexão sobre o significado. E o diálogo entre ambas pode ser mais fecundo quando nenhuma pretende ocupar, à força, o lugar da outra.
Mas, a admiração, por mais bonita que seja, precisa produzir consequências. De que adianta contemplar a imensidão do mar, falar de sua beleza e reconhecer sua importância se, na prática, não nos preocupamos com sua preservação? Os oceanos participam da produção de grande parte do oxigênio gerado pela atividade fotossintética na Terra, ajudam a regular o clima e abrigam uma biodiversidade cuja complexidade ainda estamos longe de conhecer por completo. Diante disso, a pesquisa oceanográfica e a conservação marinha tornam-se, a meu ver, pontos de encontro entre o conhecimento científico, a responsabilidade ética e a fé daqueles que reconhecem valor na criação. Cuidar dos oceanos não é apenas uma questão de interesse ambiental; é também um compromisso com a vida e com as gerações que virão. Volto, então, àquela pequena concha que recolhi na areia. Hoje compreendo que posso investigar sua composição, conhecer os processos que lhe deram forma e estudar os caminhos pelos quais o mar a trouxe até meus pés e, ainda assim, continuar maravilhado. Saber como algo acontece não elimina o encanto de sua existência. Pelo contrário, às vezes, o conhecimento amplia o assombro, como quem abre uma janela e descobre que o horizonte é ainda maior do que imaginava. Encerro com as palavras do Salmo 111:2, segundo as quais as obras do Senhor são "procuradas por todos os que nelas se comprazem". Repare bem: são procuradas, não apenas aceitas sem reflexão. Que eu continue, portanto, a procurá-las com o rigor da ciência e a sensibilidade da oração, sem abandonar a humildade de quem sabe que ainda há muito a aprender. E que, nessa caminhada, eu nunca me esqueça de cuidar do mar — essa imensidão de águas que, mesmo sem pronunciar palavra alguma, continua me ensinando a perguntar.


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