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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(21) A fé não é bilhete de loteria: quando a prosperidade vira culpa

 



Ensaio Teológico VIII(21) A fé não é bilhete de loteria: quando a prosperidade vira culpa

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Ouço, nos púlpitos, nas telas e até nos estádios, uma promessa vendida como bilhete premiado: tenha fé suficiente, e a prosperidade virá. É o que chamam de teologia da prosperidade. Mas, antes de refutá-la, quero fazer justiça aos que acreditam nela. Seus defensores partem de uma intuição legítima: a de que Deus não é indiferente às necessidades materiais de seus filhos. Além disso, muita gente que abraça essa doutrina é sincera, gente simples, de coração apertado, que se agarra à fé como quem segura a última tábua antes de afundar. O problema começa quando a promessa não se cumpre. Afinal, uma promessa frustrada não apenas decepciona; ela também acusa. E quem passa a ser acusado pela própria fé carrega duas dores: a da falta e a da culpa.

Penso, então, em Dona Raimunda, uma personagem que imagino, mas que tem milhões de rostos reais por este Brasil afora. Costureira, viúva, dizimista fiel por vinte anos. Sempre que o dinheiro faltava, ouvia que lhe faltava ousadia espiritual. Sem dinheiro para as próprias necessidades, semeou o pouco que tinha, esperando colher a prosperidade anunciada. Mas, em vez da colheita prometida, vieram o aluguel atrasado, as contas acumuladas e o desespero silencioso de quem já não sabe a quem recorrer. No meio de tantas dificuldades, nasceu uma pergunta cruel, daquelas que nenhum sermão deveria plantar no coração de ninguém: "O que há de errado comigo?". Ora, se uma doutrina não consegue olhar para Dona Raimunda nos olhos sem fazê-la sentir-se culpada pela própria pobreza, alguma coisa precisa ser revista. E com urgência!

Essa experiência não revela falta de fé, mas uma realidade social que não se explica apenas pela vontade individual. Em O Capital no Século XXI e Capital e Ideologia, Thomas Piketty demonstra como a distribuição da riqueza é moldada por arranjos históricos, jurídicos e fiscais, sustentados por narrativas que procuram justificá-los. A teologia da prosperidade pode funcionar como uma dessas narrativas quando transforma desigualdades estruturais em mérito pessoal e circunstâncias econômicas em sentenças morais. Já Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, compreende a pobreza como privação de capacidades e oportunidades reais. Afinal, ninguém escolhe estudar numa escola sem professores, consultar-se num posto de saúde sem médico ou conseguir um emprego digno quando as portas permanecem fechadas. Dizer ao pobre que sua condição é resultado exclusivo de suas escolhas é ignorar as barreiras que o cercam e, ainda por cima, culpá-lo por não conseguir superá-las. É somar insulto à injúria, como se a falta de dinheiro já não doesse o bastante.

Por isso, volto à Escritura, procurando não separar um suposto mundo "espiritual" puro de uma realidade "material" impura, dualismo muito mais próximo de certas tradições filosóficas platônicas do que da complexidade da mensagem bíblica. Em Mateus 6:19-21, Jesus não despreza o pão, o teto ou as necessidades da vida; ele chama a atenção para aquilo que ocupa o centro do coração. Em 1 Timóteo 6:10, o problema não é o dinheiro em si, mas o amor ao dinheiro. E uma idolatria semelhante se manifesta quando alguém mede a bênção divina pelo saldo bancário, como se a conta recheada fosse certificado de santidade e a carteira vazia, prova de abandono celestial. Os profetas e a Carta de Tiago, por sua vez, denunciam a exploração dos pobres e as injustiças cometidas pelos ricos, mostrando que a miséria não deve ser tratada simplesmente como castigo divino, mas também como consequência de relações sociais injustas. Se a pobreza é, em grande medida, produzida por estruturas humanas, também pode ser combatida pela ação humana. Para isso, não basta orar: são necessárias políticas públicas responsáveis, oportunidades reais, trabalho digno e solidariedade. Afinal, a fé que não se traduz em cuidado, justiça e compromisso com o próximo corre o risco de se tornar apenas discurso. Que a fé, portanto, deixe de ser bilhete de loteria e se transforme em abrigo para Dona Raimunda, em pão sobre a mesa, em dignidade para quem trabalha e em voz contra tudo aquilo que a deixou desamparada. Porque, se a religião promete o céu, não pode fechar os olhos para o inferno que tanta gente enfrenta aqui na Terra.

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