O Peso do Ontem: Quem Decide Nossa Amizade? ("Hoje é o aluno de ontem." — Benjamin Franklin)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Dizem que "hoje é o aluno de ontem". Se Benjamin Franklin tiver razão, então o que colhemos no presente talvez seja fruto de sementes lançadas num solo árido, onde o afeto andava vigiado e a confiança custava caro.
No "velho normal", a escola muitas vezes parecia campo minado. O professor que ousasse estender a mão para além da lousa, buscando uma amizade sincera com o aluno, logo virava alvo de olhares tortos. Reinava o medo: medo do mexerico, da picuinha de corredor, da acusação sem prova que arranha reputações antes mesmo da defesa. O distanciamento, veja só, não era escolha pedagógica; era armadura. Cavamos um abismo para nos proteger e esquecemos que abismos não educam ninguém.
Ontem, durante a "Cantata de Natal" da escola, esse mesmo abismo veio cobrar a conta. O evento tinha clima de reencontro: portas abertas, ex-alunos circulando, inclusive aqueles que o sistema, em sua rigidez fria, acabou reprovando pelo caminho. No meio do burburinho, entre risos soltos e vozes cruzadas, ouvi uma frase que me atravessou como lâmina fina:
— "Este é o Claudeci, não precisa respeitar ele" (sic).
As palavras não vieram cheias de fúria. Vieram piores: vazias. O rapaz que as disse não enxergava ali um professor, tampouco um inimigo. Via alguém destituído de importância, quase apagado de humanidade.
Naquele instante, não senti indignação. Senti ferida. Senti o peso de ser "de antigamente" num tempo que parece ter perdido a bússola do respeito. Eu esperava ao menos a cordialidade de quem dividiu o mesmo teto escolar, respirou o mesmo pó de giz, ouviu os mesmos sinos de entrada e saída. Em vez disso, recebi a frieza de quem aprendeu que professor é só peça trocável numa engrenagem cansada. E, para ser honesto, talvez o erro também tenha sido nosso.
No "velho normal", plantamos distância. Agora, neste "novo normal" de redes sociais, curtidas e vitrines digitais, colhemos confusão. Hoje estamos no Instagram dos alunos, "dando aula" por telas de vidro, tentando encenar uma proximidade que o cotidiano da sala, muitas vezes, não sustenta. Ficamos no meio da ponte, sem chegar a lado nenhum: nem a autoridade respeitada de outrora, nem o amigo confidente de agora.
É aí que fico matutando sobre caráter, família e o rumo da escola. Às vezes, parece que o medo apenas mudou de endereço. Antes, o professor temia a fofoca; agora teme o julgamento instantâneo, a pressão dos pais, a vontade dos alunos, o tribunal das aparências.
Dói perceber que aquela busca pela nobreza, pela pureza e pelo que é amável — como lembra a carta aos Filipenses — foi trocada por uma corrida barulhenta atrás de sucesso, status e prosperidade a qualquer preço. O brilho venceu a luz.
Afinal, quem decide nossa amizade? A resposta que me escapava talvez seja simples — e dura: quem decide a amizade é a liberdade. Mas, não qualquer liberdade. Falo daquela que nasce quando o respeito não vem imposto pelo cargo, e sim reconhecido no humano.
O aluno de ontem decidiu que eu não merecia respeito porque, talvez, no passado, o sistema não lhe mostrou que por trás do mestre também batia o coração de um amigo.
E seguimos tentando. Entre um "não precisa respeitar" e um abraço sincero, entre a dureza do mundo e a esperança teimosa, seguimos provando que o conhecimento ainda é a ponte mais bonita que podemos construir — se o medo, enfim, nos deixar atravessar.
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Como professor de Sociologia, vejo que esse texto toca em feridas profundas da nossa estrutura social: a crise de autoridade, as mudanças nas relações de poder e como as instituições (como a escola e a família) estão se transformando na modernidade. O texto nos convida a pensar que a educação não é apenas transferência de dados, mas uma relação entre pessoas. Para a nossa aula, preparei 5 questões que vão ajudar vocês a exercitarem o olhar sociológico sobre essa crônica:
1. Transformações nas Instituições Sociais
O autor diferencia o "velho normal" do "novo normal" na escola. No primeiro, reinava o distanciamento e o medo; no segundo, as redes sociais criam uma falsa proximidade. De acordo com a sociologia, como a mudança nas formas de comunicação (redes sociais) alterou a relação de autoridade entre professores e alunos?
2. A Crise de Autoridade e o Respeito
Ao ouvir: "não precisa respeitar ele", o professor sente que se tornou uma "peça trocável numa engrenagem". Explique a diferença entre "respeito imposto pelo cargo" (poder) e "respeito reconhecido no humano" (autoridade legítima), utilizando o texto como base.
3. A Escola como Espaço de Socialização
O texto sugere que "plantamos distância" no passado e hoje colhemos "confusão". De que maneira a escola, enquanto instituição de socialização secundária, falha quando prioriza apenas o conteúdo técnico e ignora a construção de laços afetivos e éticos?
4. Valores e Sociedade de Consumo
O cronista menciona que a busca pela "nobreza e pureza" foi trocada pela "corrida barulhenta atrás de sucesso, status e prosperidade". Como os valores da sociedade de consumo e do individualismo influenciam o comportamento dos alunos e a forma como eles enxergam a figura do professor?
5. O Indivíduo e o Sistema
O autor afirma que "o aluno de ontem é o resultado de um sistema que não mostrou o coração por trás do mestre". A culpa pelo desrespeito é apenas do aluno ou é o reflexo de uma estrutura social que desvaloriza a educação? Justifique sua resposta pensando na relação entre o indivíduo e a estrutura social.
Dica do Prof: Para responder, tentem não focar apenas no sentimento do professor Claudeci, mas em como a nossa sociedade mudou a forma de enxergar quem "está no comando". O respeito é algo que se exige ou algo que se conquista através do reconhecimento do outro? Bom trabalho!
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