SÓ SE NASCE E MORRE UMA VEZ ("A coragem alimenta as guerras, mas é o medo que as faz nascer." — Émile-Auguste Chartier)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Demorei para cair na real, mas hoje entendo: a morte não é só o “fim”. Ela é o contorno da vida. É a moldura escura que faz a pintura saltar aos olhos. Sem ela, talvez a gente passasse os dias empurrando tudo com a barriga, adiando sonhos, tratando o tempo como se fosse infinito — e, por isso mesmo, barato.
Foi numa manhã qualquer que essa ficha despencou de vez. Um velório de bairro, simples, sem solenidade. Café morno na garrafa térmica, cadeira de plástico rangendo, gente cochichando baixo, como se o silêncio pudesse acordar quem já partiu. O cheiro de flor cansada misturado com vela derretida. E eu ali, parado, olhando um homem imóvel dentro da caixa. Pensei: tanta correria pra terminar nessa quietude absoluta.
Foi ali que percebi: a morte é muda. Quem faz espetáculo somos nós. A vida inteira a gente corre dela. Inventa distração, meta de ano-novo, dieta de segunda-feira, promessa de mudança para “depois”. Enquanto isso, ela segue lá, paciente, sem pressa nenhuma, como quem sabe que vence no último round. Talvez por isso eu desconfie dessas ideias que tratam a existência como rascunho. Repetir tudo? Voltar para tropeçar nas mesmas pedras? Reviver os mesmos erros com outra roupa? Não me convence.
A beleza da vida mora justamente no fato de ela ser única. Sem ensaio geral. Sem segunda temporada.
O prato quebra uma vez.
A infância passa uma vez.
O primeiro amor vem uma vez daquele jeito.
A voz da mãe chamando para almoço.
O cheiro de chuva batendo na terra quente.
O pai chegando cansado do trampo.
Tudo isso é artigo raro. Peça sem reposição.
É isso que dói. E é exatamente isso que faz cada segundo valer ouro. Só que, entre o berço e o túmulo, existe um carrasco mais presente que a própria morte: o medo.
Medo de fracassar.
Medo de envelhecer.
Medo de ficar sozinho.
Medo de dizer a verdade.
Medo de não ser amado.
Medo de ser visto como realmente se é.
Tem gente que não morre de uma vez só. Vai morrendo em parcelas.
Morre quando engole sapo para não criar clima.
Quando aceita humilhação como rotina.
Quando troca o que ama por aparência de sucesso.
Quando vive só para cumprir tabela.
Respira, mas não vive. Eu mesmo já pedi arrego sem saber pedir. Já quis largar o barco sem ter porto seguro. Já pedi, em silêncio, que me afastassem um cálice amargo — mesmo sabendo que o veneno já morava dentro dele.
Às vezes, ser feliz parece propaganda enganosa. Uma vitrine montada para os outros curtirem. Sorriso de comercial de pasta de dente. Frase pronta. Foto estratégica. Legenda motivacional escrita por quem chorou cinco minutos antes.
O mundo ensina a parecer bem antes de estar bem. Ensina pose, mas não entrega paz. E eu, para meu azar — ou sorte — nunca aprendi direito a arte de fingir. Por isso sofro mais do que mostro.
Descobri também que certas dores não nascem da falta de dinheiro, beleza ou status. Nascem da falta de reconhecimento. Não falo de aplauso barato, não. Falo de ser enxergado de verdade. Quem nunca? Você entra num lugar e parece vidro. Fala algo importante e mudam de assunto. Entrega afeto e recebem como obrigação. Volta para casa com aquela sensação azeda de ser invisível.
Lembro de mim menino, segurando um desenho que achei lindo. Fiquei na porta esperando meu pai chegar. Ele entrou cansado, largou as chaves na mesa, pediu água, reclamou do trânsito e foi para o banho. Meu desenho ficou na cadeira a noite inteira. No outro dia, estava amassado. Talvez a vida adulta seja, em parte, a soma desses desenhos esquecidos.
Aí a pergunta morde fundo: Como gostar de mim se o mundo parece nem notar que eu existo? Dizem por aí que “basta ter autoestima”. Bonito no papel. Mas, a verdade é que a gente é bicho de encontro. A identidade se costura no olhar do outro. A gente aprende o próprio nome porque alguém nos chama. Ninguém floresce sozinho no deserto.
Mas existe uma verdade dura que liberta: nem toda ausência é culpa sua. Às vezes, o outro está cego pela própria dor. Às vezes, está tão quebrado que não consegue enxergar ninguém.
Quem nunca foi reconhecido, muitas vezes, desaprende a reconhecer. Gente ferida costuma distribuir ausência.
Então sigo aqui, aprendendo na marra que viver talvez seja isso: manter a própria brasa acesa, mesmo quando ninguém chega perto para se aquecer. Só se nasce uma vez. Só se morre uma vez. E nesse intervalo breve, a vida não para de perguntar quem somos. Talvez a resposta mais honesta seja continuar tentando — com medo mesmo, com falha mesmo, com o coração cheio de remendo, mas sendo quem se é. Porque, no fim das contas, pior que morrer uma vez só... é atravessar a existência sem nunca ter vivido de verdade.
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Como professor de Sociologia, vejo no texto uma oportunidade incrível para discutirmos temas fundamentais como a construção da identidade, a sociedade do espetáculo, o reconhecimento social e a finitude. Seguindo uma proposta de Alinhamento Construtivo, elaborei 5 questões discursivas simples que conectam a narrativa pessoal do texto aos conceitos sociológicos.
1. O "Peso" do Olhar do Outro:
O texto afirma que "a identidade se costura no olhar do outro" e que "ninguém floresce sozinho no deserto". Explique, com suas palavras, como a sociedade e as pessoas ao nosso redor influenciam na construção de quem nós somos.
2. A Sociedade do Espetáculo e a Aparência:
O autor menciona que "o mundo ensina a parecer bem antes de estar bem", citando sorrisos de comerciais e fotos estratégicas. Como essa pressão social para "parecer feliz" nas redes sociais pode afetar a saúde mental e as relações reais entre os jovens hoje?
3. O Fenômeno da Invisibilidade Social:
No trecho sobre o "desenho esquecido" e a sensação de "parecer vidro", o texto aborda a dor da falta de reconhecimento. Na sua opinião, quais grupos de pessoas na nossa sociedade atual sofrem mais com essa "invisibilidade" e por que isso acontece?
4. O Medo como Mecanismo de Controle:
O texto lista vários medos (fracassar, envelhecer, não ser amado) que nos fazem "morrer em parcelas". De que maneira a sociedade e o mercado de consumo utilizam esses medos para ditar como devemos nos comportar ou o que devemos comprar?
5. Viver de Verdade vs. Cumprir Tabela:
Ao final, o autor diz que o pior é "atravessar a existência sem nunca ter vivido de verdade". Para a Sociologia, o ser humano é um ser de ação e transformação. O que significa, para você, exercer sua cidadania e "viver de verdade" dentro da sua comunidade, indo além de apenas "cumprir regras"?
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