O CIFRÃO É O SINAL DA BESTA (“Quem vê cara não vê cifrão". — Vivian Cristina Schlinz Rubio Baratto)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Vi o envelope pardo passar de mão em mão, como bastão numa corrida cuja linha de chegada era o próprio bolso. No altar, o terno impecável reluzia sob as luzes; mas era o suor no rosto do fiel da terceira fila que contava a história verdadeira. Ele abriu a carteira com a reverência de quem abre um sacrário e tirou as últimas notas de cinquenta como se pagasse um resgate. E, no fundo, pagava mesmo.
Dizem que o crente, por exigir mais do além, deveria pagar mais caro pela salvação. O mercado da fé não reconhece inflação; reconhece entrega total. Para esses novos mercadores, a graça de Cristo já não é perdão, mas prosperidade. Virou benefício imediato, prêmio instantâneo, adiantamento de um Reino que, ironia das ironias, Jesus disse não ser daqui.
O transtorno que o carpinteiro de Nazaré mais combateu não foi a dúvida, nem o pecado da carne, mas a hipocrisia. Aquele teatro sagrado em que o lábio louva o que o coração nunca conheceu. Confesso: herdei esse asco. Olho para os palcos — outrora chamados púlpitos — e já não vejo a cruz de madeira. Vejo a serpente de bronze enrolada no poste, a mesma que Moisés ergueu, só que agora torcida até assumir a forma de um $.
O sinal da besta, ao que me parece, não é marca invisível nem código de barras futurista escondido sob a pele. Basta olhar direito. Ele está gravado no cifrão estampado na testa de quem só pensa em lucro e no poder acumulado nas mãos de quem deveria lavar os pés dos discípulos. O dinheiro deixou de ser ferramenta e foi coroado objeto de liturgia.
Naquele café barulhento, enquanto eu observava o desfile dos homens de negócio fantasiados de profetas, entendi outra coisa: quando alguém é assinalado pelo ganho, torna-se "salvador" de si mesmo, um deus de bolso, portátil e obediente. Citam manuscritos, discutem se o número é 666 ou 616, brigam pelo iota e pelo digama do alfabeto grego, como se a fumaça da erudição pudesse esconder o cheiro da avareza. Conversa fiada. A matemática do espírito é mais singela: ou se serve ao Amor, ou se serve ao Acúmulo.
Recuso o carnê. Prefiro a graça — esse presente imerecido que não cabe em envelope pardo, não parcela em doze vezes e não exige assinatura. Se a minha sinceridade incomoda, se o meu desprezo pela falsidade de quem usa o Nome para vender o Chão soa arrogante, paciência. Que soe. Reprove-me se puder, mas não tente me vender aquilo que já foi pago com sangue.
No fim das contas, quem vê cara realmente não vê cifrão. Mas quem enxerga com os olhos da alma percebe o abismo entre o Deus que se fez homem e o homem que tenta transformar Deus no seu investimento mais rentável.
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Como professor de sociologia, fico muito empolgado com textos que usam a literatura para "desnaturalizar" comportamentos do nosso cotidiano. Esta crônica é um prato cheio para estudarmos a Sociologia da Religião, a Ética e o Capitalismo. O autor nos mostra como a lógica do mercado (lucro, investimento, rentabilidade) pode acabar invadindo esferas da vida que, teoricamente, deveriam ser pautadas por outros valores, como a fé e a solidariedade. Preparei estas 5 questões para que vocês possam exercitar o olhar sociológico sobre o texto:
1. A Religião como Instituição Social e Econômica:
O texto descreve o "mercado da fé" e o uso de termos como "investimento rentável" e "lucro". Segundo a visão sociológica, como a transformação de valores espirituais em mercadoria (a chamada "comercialização do sagrado") altera a relação entre o fiel e a sua comunidade?
2. O Conceito de Hipocrisia e Máscaras Sociais:
O cronista menciona um "teatro sagrado" e "homens de negócio fantasiados de profetas". Relacione essa observação com a ideia de que a vida social muitas vezes exige a interpretação de papéis. Por que, no contexto do texto, essa interpretação de papel é vista como um problema ético e social?
3. Desigualdade e Vulnerabilidade Social:
Ao descrever o fiel da terceira fila que retira as "últimas notas de cinquenta como se pagasse um resgate", o texto aponta para uma questão de poder. De que maneira as instituições podem usar a vulnerabilidade e a esperança das pessoas para exercer controle social e financeiro?
4. A Simbologia do "Cifrão" ($) na Fronte:
O autor sugere que o "sinal da besta" é o cifrão estampado na testa de quem busca apenas o lucro. Sociologicamente, os símbolos comunicam valores. O que a substituição da "cruz" pelo "cifrão" nos diz sobre as prioridades da sociedade de consumo atual?
5. O Indivíduo contra o Sistema:
No final, o autor diz: "Recuso o carnê. Prefiro a graça". Como esse posicionamento representa um ato de resistência individual frente a uma estrutura social que tenta transformar tudo — até a fé — em um produto parcelado?
Dica do Prof: Para responder, não use apenas a sua opinião pessoal. Tente observar como o texto descreve as estruturas (a igreja, o mercado, os líderes) e como essas estruturas afetam o comportamento das pessoas (o fiel, o cronista). Bons estudos!
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