ESCRAVOS DE ELOGIADORES: O Veneno Doce e a Armadilha do Ego ("Os piores escravos são aqueles que estão servindo constantemente as suas paixões." — Diógenes)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Tem gente que distribui elogio como quem acena na rua: automático, leve, quase sem pensar. Um “bom dia” com açúcar demais. De longe, soa como gentileza; de perto, muitas vezes, é cálculo — um jeitinho de se achegar, ganhar espaço, ser bem-visto sem precisar ser, de fato, verdadeiro. Bajulação barata nem exige esforço: o sujeito elogia antes mesmo de entender o que tá vendo.
Agora, o perigo mesmo não mora em quem oferece — mora em quem recebe. Porque o elogio, quando cai no ouvido desprevenido, vira um mel traiçoeiro. Não mata na hora, não. Vai adoçando por dentro, inflando um ego que cresce quieto, sem dar alarde. E não falo aqui de um pedestal, não. Já me peguei gostando mais do que devia de certas palavras. Já deixei elogio me levantar uns centímetros do chão — e, olha, às vezes é só isso que basta para gente perder o equilíbrio. Não foi tombo feio, mas foi o suficiente para me lembrar: ninguém tá imune a esse veneno doce.
Talvez por isso a vida tenha esse costume meio seco de corrigir a gente. Quando a gente começa a acreditar demais na própria imagem, ela vem — pá! — e puxa o tapete. Sem cerimônia. Não é maldade, não… é ajuste. Tem lição que só entra quando o orgulho dá passagem. No fim das contas, o caráter aparece é nesse intervalo: entre o aplauso e o tropeço.
Tem gente que cresce diante do elogio — mas cresce torto, inflado de ilusão. Endurece, perde o tato, confunde admiração com superioridade. Por outro lado, tem quem escute, sinta o peso e dê um passo pra trás, como quem testa o chão antes de pisar firme. Não é falsa modéstia, não — é consciência mesmo.
Eu, por exemplo, desenvolvi um certo vício: o da desconfiança. Quando alguém concorda demais comigo, já acende um alerta aqui dentro: “será que eu tô certo mesmo?”. Pode até parecer exagero — e talvez seja um pouco. Mas isso nasceu de pequenas quedas, dessas que a gente aprende a evitar. Hoje, quando recebo elogio, não rejeito… mas também não abraço de primeira. Deixo ali, em observação, como quem admira algo bonito — e perigoso.
E ó, não me coloco fora disso, não. Seria fácil demais dizer que aprendi, que tô resolvido. Não tô. Ainda tem hora que o reconhecimento me seduz, que a aprovação aquece mais do que devia. A diferença é que hoje eu percebo — e perceber já é meio caminho andado para não se perder.
Quando eu elogio alguém, tento fazer disso um ato de responsabilidade. Não por frieza, mas por respeito ao processo do outro. Evito o exagero que acomoda, o “perfeito” que encerra antes da hora. Tem quem estranhe — colegas que preferem o aplauso cheio, a nota máxima, o incentivo lá no alto. Eu entendo, de verdade. Mas, ainda assim, fico com um pé atrás com qualquer ponto final dado cedo demais.
Não dou nota dez com facilidade. Não porque ninguém mereça, mas porque — na minha cabeça — ninguém termina onde está. E posso estar errado, sim. Talvez existam momentos que pedem celebração inteira, sem economia. Eu mesmo ainda tô aprendendo a equilibrar esse rigor com um pouco mais de generosidade.
No fim, o que me inquieta nem é o elogio em si — é de onde ele vem e o que ele faz com a gente. Tem palavra que constrói, tem palavra que só enfeita… e tem aquelas que, de tão vazias, fazem barulho suficiente para distrair a gente de quem realmente é.
Se há alguma sabedoria nisso tudo, talvez esteja menos em rejeitar o elogio e mais em saber atravessá-lo sem se perder no caminho. Porque, no fim das contas, o perigo não é ser elogiado — é começar a acreditar demais no próprio reflexo.
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Olá! Como professor de sociologia, vejo que esse texto é um material riquíssimo para discutirmos temas como a construção da identidade, as relações de poder através do discurso e a influência das interações sociais na percepção do "eu". A sociologia nos ensina que não somos seres isolados; nós nos vemos, em grande parte, através do espelho que a sociedade nos oferece. Quando esse espelho é distorcido por elogios vazios ou interesses egoístas, nossa percepção de realidade e nosso caráter podem ser afetados. Preparei cinco questões discursivas para ajudar você a refletir sobre esses pontos:
1 Ação Social e Intencionalidade: O texto menciona que, muitas vezes, o elogio é um "cálculo" para obter vantagens. Como essa afirmação se relaciona com a ideia de que nossas ações no dia a dia podem ser motivadas por interesses estratégicos em vez de sentimentos genuínos?
2 Construção da Identidade: O autor afirma que o perigo é "começar a acreditar demais no próprio reflexo". Do ponto de vista sociológico, como a opinião constante dos outros (positiva ou negativa) pode moldar ou distorcer a imagem que um indivíduo tem de si mesmo?
3 Relações de Poder e Hierarquia: No ambiente escolar ou profissional, o texto sugere que o elogio pode causar "superioridade" ou "estagnação". Como o uso desmedido da aprovação social pode ser usado como uma ferramenta de controle ou manipulação nas relações entre as pessoas?
4 O Papel das Instituições (Educação): O autor explica por que evita dar "nota dez" com facilidade, visando o crescimento contínuo do aluno. Como você avalia o papel do elogio e da crítica dentro da escola? Eles ajudam na formação de um cidadão crítico ou podem gerar conformismo?
5 Cultura do Narcisismo: Vivemos em uma era de redes sociais baseada em "curtidas" e aprovação imediata. Relacione a metáfora do "mel traiçoeiro" citada no texto com a busca incessante por reconhecimento e validação que observamos na sociedade atual.
Espero que essas questões ajudem a aprofundar a análise sobre como as palavras e as interações moldam quem somos e como nos comportamos em grupo. Bons estudos!


Um comentário:
Pv 7:3 O Pregador usou esta parte de Provérbios para ensinar seu filho a respeito do grande perigo das mulheres prostituidas, e ele não queria que o seu filho se esquecesse das suas palavras (Pv 7:1-2). Os olhares e as adulações da mulher má são incrivelmente poderosos. Filho, não se esqueça dos meus avisos! As consequências das relações ilícitas são morte e inferno. Você arruinará a sua vida. Não se esqueça das minhas lições!
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