O Baralho sobre a Lousa: QUE TIPO DE ALUNO TRAZ BARALHO PARA A ESCOLA? ("Quem não tem um objetivo quase nunca sente prazer nas suas ações". — Giacomo Leopardi)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Finalmente entendi o jogo. Descobri por que uns alunos entram e saem da sala como se atravessassem porta giratória de shopping, enquanto outros berram — "truco" — com o baralho estalando na palma da mão. Eles tentam, sabe? É quase uma coreografia para minar minha aula de Português, mas eu simplesmente aciono o "modo avião". Primeiro, porque não nasci para dar palco a espetáculo patológico. Segundo, porque não caio nessa armadilha de favoritismo. Podem forçar a barra, dobrar a aposta, fazer cena à vontade: meu coração de professor não amolece. Sou profissional, não fantoche — embora, convenhamos, vez ou outra a gente se sinta um boneco de pano nas mãos deles.
No papel, para mim, é tudo farinha do mesmo saco. Mas confesso: essa turma do baralho me tira do eixo. É uma fauna completa. Tem quem ache que a sala é refeitório, quem confunda aquilo com vestiário e os que juram que a carteira dura é cama de hotel cinco estrelas. Mas ó, meu foco continua sendo o conteúdo. Planejo aula para quem está ali de verdade, para os que ainda conseguem me enxergar como mestre e querem sugar algum conhecimento da lousa. No fim das contas, a conta chega para todo mundo: eu serei vítima dos meus bons propósitos; eles, dos seus maus. "E por que não proibir?", você pode me perguntar.
Aí é que o nó aperta. A professora de Educação Física usa o baralho como ferramenta didática — quem sou eu para bancar o estraga-prazeres da interdisciplinaridade? O lanche? Bem, a fome tem pressa, e tem muito moleque ali que só encontra no prato o que a escola oferece. E os que dormem? Coitados. São operários da madrugada, viram a noite ralando para manter o corpo em pé durante o dia. É um nó social, cego e duro, desses que não se desfazem no grito.
Nesse cenário, vejo colega que gasta a aula inteira alimentando ego e carência dessa galera que implora por um pingo de atenção. O pior é o analfabetismo funcional berrando pelos cantos: muitos riscam o papel e nem conseguem ler o que acabaram de parir. Acabo virando o vilão, a ovelha negra, o sujeito odiado por ser a voz fora do coro. Se a maioria seguisse o ideal, a máscara caía e os índices das escolas públicas despencavam — sem filtro, sem maquiagem, sem desculpa.
Fico aqui matutando, entre um parágrafo e outro: será que os colegas "inescrupulosos", que nem sabem da minha existência, são prejudicados pelo meu rigor? Ou sou eu que pego carona nos resultados fantasiosamente altos que eles fabricam? A verdade nua e crua é simples: minhas "aulas bagunçadas", como as línguas de trapo adoram espalhar, não mudam um milímetro da engrenagem. Se o sucesso deles não me eleva, meu fracasso também não puxa o tapete de ninguém.
Mas, apesar desse peso todo, quando já exaustro de tanto pedir silêncio, e a poeira baixa, eu olho para aqueles poucos que não se envolvem com distrações e se senta nas primeiras cadeiras que abriram o caderno. É nessa fresta, nesse silêncio miúdo de quem entendeu uma metáfora, que a gente percebe que o jogo ainda não acabou.
Entre um "truco" e um ponto final, seguimos jogando — na esperança de que, amanhã, o conhecimento seja a carta mais forte da mesa.
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Como professor de Sociologia, lhe ofereço esse texto, porque vi que ele é um prato cheio para a gente analisar como a escola não é uma bolha, mas um reflexo de tudo o que acontece lá fora, na sociedade. As questões abaixo foram pensadas para a gente exercitar o nosso "olhar sociológico" sobre essa crônica. Vamos lá:
1. Desigualdade e Necessidades Básicas
No texto, o professor menciona que não proíbe o lanche nem o sono, pois muitos alunos só comem o que a escola oferece ou trabalham durante a madrugada. De que maneira esses fatores socioeconômicos rompem com a ideia de que a escola é um ambiente de igualdade de oportunidades (meritocracia)?
2. A Escola como Instituição Social
O autor descreve a sala de aula sendo usada como "refeitório, vestiário e dormitório". Considerando a função social da escola, por que esses comportamentos indicam uma crise ou uma reconfiguração da instituição escolar na atualidade?
3. Trabalho e Juventude
O texto cita os "operários da madrugada" que dormem na aula. Quais são as consequências sociais e educacionais do fenômeno do "aluno-trabalhador" no Brasil, e como isso afeta o desempenho escolar mencionado pelo autor?
4. Capital Cultural e Analfabetismo Funcional
O professor desabafa sobre alunos que "riscam o papel e nem conseguem ler o que acabaram de parir". Relacione essa dificuldade com o conceito de capital cultural: a escola está conseguindo diminuir o abismo entre o saber acadêmico e a realidade desses jovens? Justifique.
5. Ética e Índices Educacionais
O autor levanta uma dúvida sobre "resultados fantasiosamente altos" e a "máscara" dos índices das escolas públicas. Do ponto de vista sociológico, qual é o perigo de priorizar estatísticas e aprovações automáticas em vez da aprendizagem real para a formação da cidadania?
Dica do prof: Para responder, não precisa de "decoreba". Pense nas estruturas sociais (família, trabalho, economia) que empurram o aluno para dentro da sala e como isso molda o comportamento dele ali dentro. Bom estudo!


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