Houve um tempo em que a palavra "vacina" dispensava adjetivos morais; era um gesto técnico, quase burocrático, que não exigia confissão de fé nem declarações de obediência. A pandemia, porém, dissolveu essa neutralidade. Subitamente, ciência, política e sobrevivência passaram a disputar o mesmo corpo — e a lucidez, sob pressão, deixou de ser um luxo garantido.
Cheguei a esse dilema movido por inquietação, não por ideologia. Leituras de John Le Carré e o impacto de O Jardineiro Fiel aguçaram uma suspeita antiga: quando interesses colossais entram em cena, a verdade costuma chegar escoltada. Mais do que revelar culpados, a CPI da Pandemia descortinou o emaranhado desconfortável entre urgência sanitária, lucro e poder.
Nesse cenário, a exigência institucional impôs-se. Quando o colégio onde leciono iniciou o levantamento do status vacinal, a escolha deixou de ser abstrata: tornou-se condição de permanência. Agi por pragmatismo, como quem teme o desemprego. Submeti-me não por entusiasmo, mas porque o dever civil apresentou-se como cláusula de existência material.
Recordei-me de Chateaubriand: “A ameaça do mais forte faz-me sempre passar para o lado do mais fraco.” Naquela equação, o elo frágil era o indivíduo isolado diante de normas que confundem convicção com conformidade. Fui ao posto de saúde e filmei o ato — um gesto talvez excessivo, mas sintomático de uma era em que o próprio corpo carece de provas.
Não me senti uma cobaia literal; reconheço que a ciência, embora imperfeita, não operava no escuro. Contudo, algo se rompe quando a adesão nasce do constrangimento. A obediência pode ser racional, mas a tranquilidade não se impõe por decreto. Dias depois, um desconforto físico real trouxe à tona um risco sutil: a erosão da confiança, matéria invisível sem a qual nenhuma política pública se sustenta.
A imunidade coletiva é um conceito legítimo e a proteção dos vulneráveis, um imperativo ético. Entretanto, quando a saúde pública silencia a dúvida e converte hesitação em desvio moral, o cidadão deixa de ser sujeito responsável para tornar-se destinatário de protocolos. Onde não há escuta, a adesão é apenas silêncio.
Escrevo para registrar a experiência de quem cumpre, mas não consente plenamente; de quem aceita, mas não celebra. Entre o dever e a desconfiança, resta esta crônica: a memória de um tempo em que muitos se sentiram salvos e outros, como eu, sentiram-se apenas corpos administrados.
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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é um excelente ponto de partida para discutirmos como as instituições sociais (escolas, governos, ciência) interagem com o indivíduo e como o poder é exercido sobre os nossos corpos. Preparei 5 questões discursivas simples para explorarmos esses conceitos sociológicos:
1. A Ciência como Instituição Social. O autor afirma que a vacina deixou de ser um "gesto técnico" para se tornar um campo de disputa política e moral. Questão: Na sociologia, as instituições não são neutras. Como o texto exemplifica que a ciência pode ser influenciada por fatores externos, como a política e a economia (mencionando lucros e poder)?
2. Coerção Social e Institucional. O narrador decide se vacinar para manter seu emprego como professor, descrevendo isso como uma "cláusula de existência material". Questão: Explique como a escola, funcionando como uma instituição social, exerceu coerção (pressão social/normativa) sobre o indivíduo. Por que ele sente que sua escolha não foi inteiramente livre?
3. O Conceito de Biopolítica (Corpos Administrados). Ao final, o autor menciona que se sentiu apenas "mais um corpo administrado" pelo Estado e por protocolos de saúde pública. Questão: Quando o Estado cria protocolos para gerenciar a saúde de toda a população, o cidadão pode se sentir desumanizado. Como o texto descreve a perda da autonomia do indivíduo perante as regras coletivas?
4. A Erosão da Confiança e o Tecido Social. O texto destaca que nenhuma política pública se sustenta sem a "confiança", que ele chama de "matéria invisível". Questão: Do ponto de vista sociológico, qual é o risco para a sociedade quando as pessoas cumprem as regras por medo ou obrigação, mas deixam de confiar nas instituições que criaram essas regras?
5. Conformidade vs. Convicção. O autor cita Chateaubriand para falar sobre a fragilidade do indivíduo isolado diante das normas que "confundem convicção com conformidade". Questão: Qual é a diferença entre uma pessoa que age por acreditar no benefício coletivo (convicção) e uma que age apenas para evitar punições ou exclusão social (conformidade)? Use exemplos do texto.
Dica do Prof: Não foquem apenas na questão da vacina em si, mas em como o poder e a autoridade das instituições moldam o que fazemos e como nos sentimos.