"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

A Dialética do Prazer: entre o ético, o sagrado e o profano ("O que não dá prazer não dá proveito." — William Shakespeare)

 


A Dialética do Prazer: entre o ético, o sagrado e o profano ("O que não dá prazer não dá proveito." — William Shakespeare)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Sou feito de sensibilidade. O mundo me alcança pelos sentidos, e é por eles que a vida se revela como experiência. O prazer, nesse horizonte, não é excesso nem desvio: é mediação. Engana-se, porém, quem o toma como absoluto sem medida. O prazer que afirma a vida nasce do encontro — nunca da violação. Ele só é legítimo quando respeita a autonomia do outro, quando é escolhido, partilhado ou, ao menos, não imposto. Epicuro já advertia: há prazeres que libertam e há prazeres que escravizam. Não é o prazer em si que corrompe, mas sua ruptura com a ética.

Ainda assim, aprendemos cedo a desconfiar do corpo. A culpa é uma pedagogia antiga. Certas instituições religiosas — não o sagrado em si, mas suas engrenagens de poder — converteram o desejo em mercadoria moral: vendem absolvição àqueles que antes ensinaram a se odiar. Erigem interditos rígidos e, paradoxalmente, fazem do proibido o centro da imaginação. Onde há medo, há controle; onde há culpa, há obediência. O divino, reduzido à contabilidade moral, transforma-se em negócio. Não por acaso, tantas tradições místicas — cristãs, islâmicas, orientais, indígenas — floresceram à margem das igrejas: nelas, o êxtase, o corpo e até o prazer reaparecem como vias de transcendência, não como pecados a serem extirpados.

O prazer, contudo, não se esgota no indivíduo isolado. Os mais duradouros raramente são solitários. Há o prazer discreto da amizade, da confiança partilhada, do amor que não consome, mas sustenta. Há o prazer de criar junto, de ensinar e aprender, de reconhecer-se no outro. Esses prazeres não clamam por atenção; permanecem. Menos intensos na superfície, são mais profundos no tempo. Reduzir o prazer ao instante sensorial é empobrecê-lo; ampliá-lo à dimensão relacional é torná-lo plenamente humano.

É verdade que o risco seduz. O desconhecido convoca. Existe uma euforia própria de atravessar limites — mas nem todo limite deve ser transposto. Há uma diferença decisiva entre o risco consciente, preparado e assumido como escolha, e a autodestruição impulsiva disfarçada de coragem. Amar a vida não é flertar com a morte por tédio. O corpo que busca intensidade também exige cuidado. Nem todo abismo é vocação; às vezes, é apenas ausência de amparo.

E a dor? Há quem encontre nela uma forma de prazer — e isso, por si só, não é patológico. Quando escolhida, consciente e reversível, a dor pode integrar jogos de desejo, rituais simbólicos, experiências-limite que não negam a vida. Mas há dores que não libertam: a automutilação silenciosa, os vínculos abusivos, o apego ao trauma. Romantizá-las é perpetuar a violência. O prazer que afirma a vida não exige a anulação de si.

Também não basta afirmar que o prazer é “natural”, como se isso o justificasse automaticamente. A natureza é ambígua: nela coexistem cuidado e brutalidade. O prazer não é legítimo por ser natural, mas por constituir uma condição de vida digna, desde que atravessado pela responsabilidade. Não se trata de liberar tudo, mas de reeducar o desejo. Afinal, como já intuiu a psicanálise, desejamos também aquilo que nos é negado. Uma sociedade sem proibições não é necessariamente um paraíso hedonista; pode tornar-se um deserto de sentido. O desafio não é abolir os limites, mas torná-los habitáveis.

Há, ainda, uma dimensão política incontornável. O controle do prazer sempre foi uma técnica de poder. Trabalha-se muito e frui-se pouco; produz-se sem tempo para sentir. O sistema oferece prazeres rápidos e compráveis, enquanto nega os prazeres profundos: o ócio, o corpo descansado, a convivência, a criação. Defender o prazer é também criticar o trabalho alienado, o consumo compensatório, o moralismo que transforma a exaustão em virtude. Sem tempo livre e sem condições materiais, o hedonismo converte-se em privilégio de poucos.

Talvez, por isso, precisemos de uma educação para o prazer: aprender a sentir sem culpa, a desejar sem destruir, a cuidar do próprio corpo e do corpo do outro. Ensinar com eros, como queria Rubem Alves; aprender com o corpo inteiro, como lembram as pedagogias do cuidado. O prazer não é inimigo da ética — pode ser sua aliada mais potente.

O que nos corrói não é a morte inevitável, mas a vida amputada antes dela. Não falo da dor que adoece, nem da miséria que bloqueia o sentir. Falo da negação moralista e voluntária do prazer, desse ascetismo neurótico que confunde virtude com secura. Isso, sim, nos mata enquanto ainda respiramos. O prazer, quando ético, relacional e consciente, não nos afasta da vida: devolve-nos a ela.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-//-/-/-/-/-/-/-


Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é uma excelente oportunidade para exercitarmos nossa imaginação sociológica. Ele nos mostra que o prazer, o corpo e o desejo não são apenas "coisas íntimas", mas estão mergulhados em relações de poder, economia e cultura. Para compreendermos como a sociedade molda o que sentimos e o que nos é permitido desfrutar, respondam às questões abaixo:


1. O Prazer como Técnica de Controle. O autor afirma que "o controle do prazer sempre foi uma técnica de poder", citando que o sistema oferece prazeres rápidos e compráveis enquanto nega o tempo para os prazeres profundos. Questão: Como a sociedade atual utiliza o consumo de "prazeres rápidos" (como redes sociais e compras) para compensar a exaustão do trabalho e manter os indivíduos obedientes ao sistema produtivo?

2. Culpa e Instituições Sociais. O texto menciona que certas instituições converteram o desejo em "mercadoria moral", usando a culpa para gerar obediência e lucro. Questão: De que maneira a criação de padrões morais rígidos sobre o corpo e o comportamento serve como uma forma de controle social, segundo a perspectiva sociológica de que as instituições moldam a subjetividade humana?

3. Ética e Autonomia nas Relações. O texto defende que o prazer só é legítimo quando respeita a autonomia do outro e é partilhado, citando que "o prazer não é inimigo da ética". Questão: Por que, em uma sociedade democrática, o consentimento e o respeito à vontade do próximo são fundamentais para que o exercício da liberdade individual não se transforme em opressão ou violência?

4. A Desigualdade do Hedonismo. O autor argumenta que, sem tempo livre e condições materiais, o prazer profundo torna-se um "privilégio de poucos". Questão: Como a desigualdade socioeconômica afeta o que chamamos de Direito ao Lazer? Explique por que o "ócio criativo" é distribuído de forma desigual entre as diferentes classes sociais.

5. Educação para o Sentir. Ao final, o texto propõe uma "educação para o prazer", que ensine a sentir sem culpa e a cuidar do próprio corpo e do corpo do outro. Questão: Por que a educação formal muitas vezes ignora as emoções e o corpo, focando apenas na produtividade? Como uma educação voltada para o cuidado e para a sensibilidade poderia transformar nossas relações sociais?

Dica do Prof: Para responder, pensem no conceito de Alienação. Às vezes, estamos tão focados em produzir e consumir que esquecemos de nos perguntar: "Este prazer é meu ou me foi vendido?".

Comentários

Nenhum comentário: