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MINHAS PÉROLAS

domingo, 25 de dezembro de 2022

O Ponto, a Marcha e o Vazio: Memórias de Senador Canedo ("Prefiro a decepção pelo conhecimento da realidade do que a comemoração de uma farsa." — Carlos Alberto Hang)

 


O Ponto, a Marcha e o Vazio: Memórias de Senador Canedo ("Prefiro a decepção pelo conhecimento da realidade do que a comemoração de uma farsa." — Carlos Alberto Hang)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que o calendário da cidade ainda tentava fabricar pertencimento. Datas cívicas, marchas, palanque, hino — tudo isso compunha um esforço quase pedagógico de afirmar: somos uma comunidade. Para o funcionalismo público, sobretudo na educação, não se tratava de escolha, mas de dever. Comparecer era menos celebrar e mais confirmar a própria existência administrativa: assinar o ponto.

Recordo-me de um sábado em que caminhei três quilômetros até o centro das comemorações do aniversário de Senador Canedo. Não fui movido por civismo ou entusiasmo, mas pela exigência burocrática de validar meu vínculo com o Município. Ao chegar, a festa ainda pulsava — discursos, som, bandeiras. O caderno, porém — esse objeto modesto e soberano — já havia partido. Às nove em ponto, a coordenadora pedagógica, indiferente ao fato de que o ritual coletivo seguia vivo, recolheu o documento e foi embora. A celebração podia continuar; a papelada, não.

Senti raiva. Não uma raiva histórica, dessas que teriam faltado aos escravizados — porque não faltou revolta, faltaram armas, vitórias e estruturas menos brutais. O que emergiu foi uma indignação menor, porém legítima, de quem vive num tempo em que a dignidade deveria ser regra, não exceção. Caminhar quilômetros para nada, ser descartado por um procedimento cego, revelou algo maior: uma burocracia que já não serve à vida, apenas a si mesma.

Hoje, o que resta é um vazio estranho. O aniversário da cidade passou sem marcha, sem ponto, sem festa. Não foi apenas a pandemia que silenciou as ruas. Antes dela, o espaço público já vinha sendo corroído: comunidades fragmentadas pelo consumo privado, praças substituídas por telas, rituais esvaziados pelo desencanto político. Senador Canedo, cidade jovem e periférica, talvez tenha tentado, nesses desfiles, inventar uma identidade que nunca se consolidou — ou que foi abandonada antes de amadurecer.

Curiosamente, senti falta. Não da imposição, mas da tentativa de encontro. Humanos precisam de rituais; o problema nunca foi a festa, mas sua forma autoritária. Talvez o desafio não seja resgatar a marcha obrigatória, e sim reinventar celebrações voluntárias, onde a presença seja desejo, não ameaça de desconto em folha.

Entre o ponto que humilha, a marcha que se esvaziou e o silêncio que ficou, resta a palavra. Escrever é também um gesto cívico: memória contra o esquecimento, crítica contra a naturalização do vazio. Talvez seja assim que uma comunidade recomece — não pelo "caderno de ponto", mas pela escuta.


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Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito com a profundidade desta crônica. Ela nos permite discutir temas fundamentais da nossa disciplina, como a burocracia, a formação da identidade coletiva e a diferença entre coerção (obrigação) e consenso (vontade). Para o nosso estudo, preparei 5 questões que conectam o seu relato aos conceitos sociológicos que trabalhamos em sala:


1. Burocracia e Desumanização: No texto, o autor descreve que a coordenadora levou o caderno de ponto embora às nove horas, ignorando que o evento ainda acontecia. Segundo a visão de Max Weber sobre a burocracia, como o foco excessivo em "regras e papéis" (como o caderno de ponto) pode acabar sufocando o sentido humano e social das atividades?

2. Rituais e Identidade Social: O autor menciona que os desfiles eram uma tentativa de "inventar uma identidade" para a cidade. Por que os rituais coletivos (festas, desfiles, comemorações) são importantes para que as pessoas sintam que pertencem a uma comunidade e não sejam apenas indivíduos isolados?

3. Coerção vs. Engajamento: O texto critica o fato de a participação ser uma "ameaça de desconto em folha" e sugere que as celebrações deveriam ser "voluntárias". Na sua opinião, o que faz com que um cidadão queira participar da vida da sua cidade sem que seja obrigado por uma lei ou contrato de trabalho?

4. O Esvaziamento do Espaço Público: O autor afirma que as praças foram substituídas por telas e as comunidades fragmentadas pelo consumo. Como o uso excessivo de redes sociais e o foco no consumo individual podem enfraquecer a nossa participação política e social na cidade onde moramos?

5. O Papel da Memória e da Escrita: Ao final, o texto diz que "escrever é um gesto cívico". Por que manter a memória sobre como as coisas eram (mesmo as ruins) é fundamental para que uma sociedade consiga criticar o presente e planejar um futuro melhor?

Dica do Prof: Ao responder, tente pensar na sua própria experiência em Senador Canedo ou na sua escola. Você sente que participa dos eventos por "pertencimento" ou por "obrigação"? Essa distinção é a chave para entender a legitimidade do poder na sociedade.

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