"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sábado, 24 de dezembro de 2022

NÃO FUI CON/VI(N)CENTE: A Fragilidade das Certezas e o Estigma do Mestre ("A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa nem medir o que se diz". — George Eliot)

 


NÃO FUI CON/VI(N)CENTE: A Fragilidade das Certezas e o Estigma do Mestre ("A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa nem medir o que se diz". — George Eliot)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Certezas não são, em si, o problema. O risco começa quando se cristalizam em dogmas precoces, imunes à revisão. Há conhecimentos solidamente fundamentados — a Terra não é plana, a gravidade não é opinião —, mas persiste a tentação humana de converter convicções provisórias em verdades finais. É nesse excesso de segurança que a ignorância costuma se esconder, travestida de autoridade.

O Titanic não afundou por erro de cálculo, mas por decisões humanas: alertas ignorados, velocidade mantida, botes insuficientes. A técnica fez o que podia; a soberba gerencial completou o desastre. Não foi a ciência que falhou, e sim seu uso arrogante. O mesmo vale para aviões que caem ou projetos que naufragam: não é o conhecimento que trai, é a recusa em reconhecer limites. A dúvida, longe de ser fraqueza, mantém a razão viva. Quem jamais a admite não inspira confiança — inspira obediência.

Esse culto à onisciência encontra no professor seu bode expiatório preferido. Durante séculos, ele foi o raro letrado da aldeia; hoje, mal remunerado e socialmente desvalorizado, carrega ainda o peso simbólico de “mestre”. Exige-se que saiba tudo, responda a tudo, que nunca diga “não sei”. Muitos acabam simulando certezas não por vaidade, mas por sobrevivência: em ambientes autoritários, admitir ignorância soa como perda de legitimidade. Chama-se isso, de modo vago, de “politicamente correto”, quando, na verdade, é medo de decepcionar, de ser julgado incompetente, de não corresponder ao papel.

Lembro-me de um açougueiro do bairro, vendedor de espetinhos de retalhos. Sempre me tratou com deferência ao saber que eu era professor. Um dia, porém, comentou que não acreditava muito nisso. Talvez porque eu não performasse a intelectualidade esperada: roupa simples, conversa direta, almoço na calçada. Talvez porque, no imaginário social, um professor devesse frequentar restaurantes, não balcões populares. Respondi apenas que não vivo de aparências. Nunca mais voltei. Minha retirada foi digna, mas silenciosa demais; perdi a chance de perguntar por que ele duvidava e de reconhecer que éramos, afinal, trabalhadores da mesma engrenagem.

Há algo de cruel nessa expectativa de pureza simbólica. O professor, de salário apertado, vigia o próprio corpo — o que come, onde anda — para sustentar um mito que não o sustenta materialmente. Exemplos, dizem, comunicam mais que discurso. Mas, exemplo de quê? De austeridade forçada? De autocensura cotidiana?

Talvez a resistência possível comece em gestos mínimos: dizer “não sei” em sala de aula e ensinar que pensar é conviver com incertezas; recusar a fantasia do mestre infalível; lembrar que conhecimento não é altar, é oficina. O resto — dignidade, crítica, solidariedade de classe — vem depois, se ainda houver fôlego.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/


Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler toca em pontos centrais da nossa disciplina: como a sociedade constrói imagens sobre as profissões, como o poder se manifesta através do conhecimento e como a desigualdade afeta até a forma como nos comportamos em público. Para refletirmos sobre esses temas, preparei 5 questões discursivas simples. Vamos lá:


1. A Ciência e a Decisão Humana. O autor argumenta que o Titanic não afundou por falha da ciência, mas pela "soberba gerencial" e decisões humanas erradas. Questão: Na sociologia, estudamos que a tecnologia não é neutra. Como o exemplo do Titanic demonstra que o conhecimento técnico precisa estar aliado à ética e à responsabilidade social para evitar desastres?

2. O Papel Social do Professor. O texto menciona que a sociedade exige que o professor "saiba tudo" e nunca admita ignorância, transformando-o em um "mestre infalível". Questão: Por que a sociedade cria expectativas tão rígidas sobre certas profissões (como professores ou médicos) e como essa pressão pode prejudicar o profissional, impedindo-o de agir com naturalidade?

3. O Estigma e a Aparência. No episódio do açougueiro, o professor foi questionado sobre sua profissão porque não "performava a intelectualidade esperada" (comia na calçada, vestia-se de forma simples). Questão: O que esse estranhamento do açougueiro nos diz sobre os preconceitos de classe? Por que associamos inteligência ou cultura a determinados modos de vestir ou lugares de frequência?

4. Conhecimento como "Oficina" e não "Altar". O autor sugere que o conhecimento deve ser visto como uma "oficina" (algo em construção) e não como um "altar" (algo sagrado e imutável). Questão: Qual a importância de aprendermos a dizer "não sei" para o desenvolvimento do pensamento crítico e para uma sociedade mais democrática e aberta ao diálogo?

5. Condição Material e Status Simbólico. O texto aponta uma contradição: o professor é socialmente cobrado por uma "postura de mestre", mas é "mal remunerado e desvalorizado". Questão: Como a desvalorização salarial do professor entra em conflito com o "status" que a sociedade espera dele? É possível ter dignidade profissional apenas com "respeito simbólico", sem condições materiais adequadas?

Dica do Prof: Ao responder, tente relacionar o texto com a sua própria experiência na escola. Você já sentiu medo de dizer que não sabia algo? Já julgou alguém pela aparência antes de conhecer sua capacidade?

Comentários

Nenhum comentário: