AMEAÇAS EM TROCA: Desisti da EJA ("Educar uma pessoa apenas no intelecto, mas não na moral, é criar uma ameaça à sociedade." — Theodore Roosevelt)
Houve um tempo em que acreditei, com convicção quase ingênua, que a bondade era o ponto de partida de todos. Imaginava o mal como desvio: fruto de escolhas reiteradas, de influências nocivas ou de negligência moral. A escola, pensava eu, existia justamente para corrigir rotas, ampliar horizontes, oferecer outras possibilidades de ser. Hoje, não ouso mais falar em essências puras. Falo, com cautela, de aparências perigosas: há sujeitos que parecem predestinados à perdição não por natureza, mas porque foram lançados tão cedo a contextos de violência, escassez e abandono que a brutalidade se tornou, para eles, linguagem de sobrevivência. Quando protegidos pelo anonimato ou pela certeza da impunidade, não revelam uma índole secreta; apenas reproduzem o mundo que aprenderam a habitar.
Foi nesse intervalo entre ideal e realidade que reli Emerson, afirmando que “Nenhum grande homem se queixa de falta de oportunidades”. A frase, tomada isoladamente, soa como sentença moral: quem fracassa não se esforçou o suficiente. Mas a sala de aula ensina o contrário. O esforço nunca parte do mesmo ponto; oportunidades não se distribuem com justiça matemática. Ainda assim, é verdade que alguns conseguem transformar frestas em passagem, enquanto outros, esmagados pela urgência da sobrevivência, sequer aprendem a nomear o que lhes falta. A meritocracia, quando aplicada sem contexto, vira crueldade elegante.
Reencontro, hoje, ex-alunos na Educação de Jovens e Adultos. Muitos retornam marcados por ressentimento: atacam o sistema, desafiam a autoridade, vestem a condição de vítimas com fúria defensiva. Durante anos, interpretei esse gesto como leviandade deliberada. Agora, sou forçado a reconhecer que, em parte, era reação — não a um professor específico, mas a uma escola incapaz de dialogar com suas urgências, a currículos alheios à sua vida concreta, a um sistema que exige disciplina de quem nunca experimentou cuidado. Isso não absolve a violência; tampouco autoriza ameaças. Explica. E explicar, aprendi, não é justificar — é tentar impedir que se repita.
As marcas desse embate não foram abstratas. Fui ameaçado de morte em sala de aula. Não como metáfora, mas como anúncio cru de um limite ultrapassado. A instituição respondeu com o silêncio funcional de sempre; segui lecionando, como quem atravessa um campo minado fingindo que o chão é firme. Algo em mim se quebrou ali. Não imediatamente, mas aos poucos, como fratura por estresse. O medo constante, a vigilância permanente, a sensação de descartabilidade corroeram mais do que qualquer insulto.
Foi então que compreendi a imagem do veneno. Agredido e agressor, percebi, bebem da mesma substância: o ódio. Um o destila como ataque; o outro o internaliza como desejo de vingança ou punição divina. Eu também bebi. Não com gritos, mas com pensamentos amargos, fantasias de justiça absoluta, endurecimento moral. O ódio não me fortaleceu; intoxicou-me. Tornou-me mais rígido, menos atento, menos humano.
Quando me chamei de “imprestável”, não falava de incompetência técnica, mas de esgotamento existencial. Ainda assim, reconheço hoje o equívoco dessa palavra: ela carrega a lógica que transforma pessoas em peças defeituosas. Não estou imprestável — estou ferido. Ferido por um trabalho que exige entrega emocional contínua sem oferecer proteção, escuta ou reparação. Há nome para isso: trauma ocupacional, burnout, dano existencial. Saber disso não cura, mas desloca a culpa do indivíduo para o sistema que adoece silenciosamente seus agentes.
A tragédia não precisa terminar na derrota. Se há aprendizado possível, ele não está no cinismo nem na autoflagelação, mas na recusa de continuar bebendo o veneno. Não sei ainda qual é o antídoto definitivo. As tradições falam em compaixão, aceitação, perdão. Talvez o primeiro gesto seja mais modesto: nomear o sofrimento, reconhecer seus determinantes coletivos e recusar a narrativa fácil que divide o mundo entre bons e maus. Enquanto a escola continuar sendo linha de frente de desigualdades estruturais, todo otimismo será frágil — e todo ódio, compreensível, mas nunca inofensivo.
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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é um relato denso e corajoso sobre a realidade do trabalho docente e as contradições do nosso sistema educacional. Ele nos convida a olhar para além do senso comum, utilizando conceitos fundamentais da nossa disciplina. Preparei 5 questões discursivas para pensarmos a escola como um espaço de tensões sociais:
1. Socialização e Determinismo Social. O autor afirma que alguns indivíduos parecem "predestinados à perdição" não por natureza, mas por contextos de violência e abandono onde a brutalidade vira sobrevivência. Questão: Como o conceito de socialização primária (o aprendizado básico na infância) ajuda a explicar por que alguns jovens reproduzem comportamentos violentos dentro da escola?
2. A Crítica à Meritocracia. O texto menciona que "a meritocracia, quando aplicada sem contexto, vira crueldade elegante", pois as oportunidades não se distribuem com justiça. Questão: Por que, sociologicamente, é problemático avaliar o sucesso de um aluno apenas pelo seu "esforço individual" sem considerar o seu capital cultural e as condições materiais de sua família?
3. Instituição Escolar e Reprodução Social. O narrador sugere que a revolta dos alunos na EJA pode ser uma reação a uma escola que oferece currículos alheios à vida concreta e disciplina sem cuidado. Questão: De que forma a escola pode acabar reforçando a exclusão social em vez de combatê-la, quando ignora as necessidades reais e a cultura dos alunos das classes populares?
4. O Indivíduo e as Estruturas de Ódio. O autor utiliza a metáfora do "veneno" para dizer que agredido e agressor bebem do mesmo ódio, gerando endurecimento moral e desumanização. Questão: Como a violência estrutural (falta de segurança, precariedade e abandono estatal) acaba afetando a subjetividade e a saúde mental tanto de professores quanto de alunos?
5. Burnout e a Lógica da Produtividade. Ao final, o texto contesta a palavra "imprestável", preferindo termos como "trauma ocupacional" ou "dano existencial", deslocando a culpa do indivíduo para o sistema. Questão: Relacione o esgotamento do professor (Burnout) com as exigências da sociedade atual por "entrega emocional" e resultados estatísticos, mesmo em ambientes de alta vulnerabilidade.
Dica do Prof: Para responder, lembrem-se de que a Sociologia busca "desnaturalizar" os problemas. O ódio ou o fracasso escolar não são "naturais", são construídos socialmente.
Houve um tempo em que acreditei, com convicção quase ingênua, que a bondade era o ponto de partida de todos. Imaginava o mal como desvio: fruto de escolhas reiteradas, de influências nocivas ou de negligência moral. A escola, pensava eu, existia justamente para corrigir rotas, ampliar horizontes, oferecer outras possibilidades de ser. Hoje, não ouso mais falar em essências puras. Falo, com cautela, de aparências perigosas: há sujeitos que parecem predestinados à perdição não por natureza, mas porque foram lançados tão cedo a contextos de violência, escassez e abandono que a brutalidade se tornou, para eles, linguagem de sobrevivência. Quando protegidos pelo anonimato ou pela certeza da impunidade, não revelam uma índole secreta; apenas reproduzem o mundo que aprenderam a habitar.
Foi nesse intervalo entre ideal e realidade que reli Emerson, afirmando que “Nenhum grande homem se queixa de falta de oportunidades”. A frase, tomada isoladamente, soa como sentença moral: quem fracassa não se esforçou o suficiente. Mas a sala de aula ensina o contrário. O esforço nunca parte do mesmo ponto; oportunidades não se distribuem com justiça matemática. Ainda assim, é verdade que alguns conseguem transformar frestas em passagem, enquanto outros, esmagados pela urgência da sobrevivência, sequer aprendem a nomear o que lhes falta. A meritocracia, quando aplicada sem contexto, vira crueldade elegante.
Reencontro, hoje, ex-alunos na Educação de Jovens e Adultos. Muitos retornam marcados por ressentimento: atacam o sistema, desafiam a autoridade, vestem a condição de vítimas com fúria defensiva. Durante anos, interpretei esse gesto como leviandade deliberada. Agora, sou forçado a reconhecer que, em parte, era reação — não a um professor específico, mas a uma escola incapaz de dialogar com suas urgências, a currículos alheios à sua vida concreta, a um sistema que exige disciplina de quem nunca experimentou cuidado. Isso não absolve a violência; tampouco autoriza ameaças. Explica. E explicar, aprendi, não é justificar — é tentar impedir que se repita.
As marcas desse embate não foram abstratas. Fui ameaçado de morte em sala de aula. Não como metáfora, mas como anúncio cru de um limite ultrapassado. A instituição respondeu com o silêncio funcional de sempre; segui lecionando, como quem atravessa um campo minado fingindo que o chão é firme. Algo em mim se quebrou ali. Não imediatamente, mas aos poucos, como fratura por estresse. O medo constante, a vigilância permanente, a sensação de descartabilidade corroeram mais do que qualquer insulto.
Foi então que compreendi a imagem do veneno. Agredido e agressor, percebi, bebem da mesma substância: o ódio. Um o destila como ataque; o outro o internaliza como desejo de vingança ou punição divina. Eu também bebi. Não com gritos, mas com pensamentos amargos, fantasias de justiça absoluta, endurecimento moral. O ódio não me fortaleceu; intoxicou-me. Tornou-me mais rígido, menos atento, menos humano.
Quando me chamei de “imprestável”, não falava de incompetência técnica, mas de esgotamento existencial. Ainda assim, reconheço hoje o equívoco dessa palavra: ela carrega a lógica que transforma pessoas em peças defeituosas. Não estou imprestável — estou ferido. Ferido por um trabalho que exige entrega emocional contínua sem oferecer proteção, escuta ou reparação. Há nome para isso: trauma ocupacional, burnout, dano existencial. Saber disso não cura, mas desloca a culpa do indivíduo para o sistema que adoece silenciosamente seus agentes.
A tragédia não precisa terminar na derrota. Se há aprendizado possível, ele não está no cinismo nem na autoflagelação, mas na recusa de continuar bebendo o veneno. Não sei ainda qual é o antídoto definitivo. As tradições falam em compaixão, aceitação, perdão. Talvez o primeiro gesto seja mais modesto: nomear o sofrimento, reconhecer seus determinantes coletivos e recusar a narrativa fácil que divide o mundo entre bons e maus. Enquanto a escola continuar sendo linha de frente de desigualdades estruturais, todo otimismo será frágil — e todo ódio, compreensível, mas nunca inofensivo.
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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é um relato denso e corajoso sobre a realidade do trabalho docente e as contradições do nosso sistema educacional. Ele nos convida a olhar para além do senso comum, utilizando conceitos fundamentais da nossa disciplina. Preparei 5 questões discursivas para pensarmos a escola como um espaço de tensões sociais:
1. Socialização e Determinismo Social. O autor afirma que alguns indivíduos parecem "predestinados à perdição" não por natureza, mas por contextos de violência e abandono onde a brutalidade vira sobrevivência. Questão: Como o conceito de socialização primária (o aprendizado básico na infância) ajuda a explicar por que alguns jovens reproduzem comportamentos violentos dentro da escola?
2. A Crítica à Meritocracia. O texto menciona que "a meritocracia, quando aplicada sem contexto, vira crueldade elegante", pois as oportunidades não se distribuem com justiça. Questão: Por que, sociologicamente, é problemático avaliar o sucesso de um aluno apenas pelo seu "esforço individual" sem considerar o seu capital cultural e as condições materiais de sua família?
3. Instituição Escolar e Reprodução Social. O narrador sugere que a revolta dos alunos na EJA pode ser uma reação a uma escola que oferece currículos alheios à vida concreta e disciplina sem cuidado. Questão: De que forma a escola pode acabar reforçando a exclusão social em vez de combatê-la, quando ignora as necessidades reais e a cultura dos alunos das classes populares?
4. O Indivíduo e as Estruturas de Ódio. O autor utiliza a metáfora do "veneno" para dizer que agredido e agressor bebem do mesmo ódio, gerando endurecimento moral e desumanização. Questão: Como a violência estrutural (falta de segurança, precariedade e abandono estatal) acaba afetando a subjetividade e a saúde mental tanto de professores quanto de alunos?
5. Burnout e a Lógica da Produtividade. Ao final, o texto contesta a palavra "imprestável", preferindo termos como "trauma ocupacional" ou "dano existencial", deslocando a culpa do indivíduo para o sistema. Questão: Relacione o esgotamento do professor (Burnout) com as exigências da sociedade atual por "entrega emocional" e resultados estatísticos, mesmo em ambientes de alta vulnerabilidade.
Dica do Prof: Para responder, lembrem-se de que a Sociologia busca "desnaturalizar" os problemas. O ódio ou o fracasso escolar não são "naturais", são construídos socialmente.


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