"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 7 de julho de 2013

SUPERFICIALIDADE VALORIZADA: O Banquete das Sombras e a Solidão do Mestre ("Indiretas são a estratégia de quem tem medo de dizer o que pensa. Não acertam o alvo, mas dão a sensação de "missão cumprida". — (Daniel IbarToffler)


CCrônica

SUPERFICIALIDADE VALORIZADA: O Banquete das Sombras e a Solidão do Mestre ("Indiretas são a estratégia de quem tem medo de dizer o que pensa. Não acertam o alvo, mas dão a sensação de "missão cumprida". — (Daniel IbarToffler)

Por Claudeci Ferreia de Andrade

Dizem por aí que indireta é arma de quem teme dizer o que pensa: não acerta o alvo, mas entrega a falsa sensação de dever cumprido. Eu, francamente, prefiro o olho no olho. Como cursista atento — e admito, também inquieto — na Formação de Professores da Secretaria de Educação, vi-me lançado num mar de contradições que só o chão da escola consegue gerar.

Houve, sim, um acerto digno de nota: trazer o curso para nossa região foi gesto de respeito à rotina exausta de quem vive correndo entre horários, salas e distâncias. Isso ninguém pode negar. Mas, o que de fato pulsou não estava no cronograma, tampouco nos slides ou nas falas oficiais. Estava no almoço improvisado no pátio, na "vaquinha" do café, no reencontro com velhos colegas que a pressa da vida costuma engolir sem mastigar.

Ali, entre uma garfada e outra, a socialização deixava de ser palavra bonita de projeto pedagógico e virava carne, riso e presença. Era a vida acontecendo sem pedir licença. Como ensinava Freire, ninguém educa ninguém; os homens se educam entre si, mediados pelo mundo. E naquele cheiro de feijão, naquele burburinho sincero, a gente se educava na resistência — e talvez também na esperança.

Mas, bastava o sinal tocar para a parte técnica, e a alma do professor solitário sentia o frio seco da superficialidade. Minha angústia não nasce de birra nem de reclamação vazia. Nasce da dor de ver investimento público — o nosso suor convertido em recurso — escorrer pelo ralo de orientações rasas, genéricas, sem lastro.

Ficamos ali, horas a fio, ouvindo quem pouco mergulhou no abismo real da sala de aula. Separaram-nos por áreas, é verdade, porém faltou o essencial: o mestre, o pesquisador, o par acadêmico capaz de provocar pensamento em vez de apenas trocar lâminas de apresentação. Faltou quem incendiasse ideias, e não só passasse slides.

Se nós, professores, ainda bancamos parte do encontro no velho estilo da "vaquinha", para aliviar custos e garantir o mínimo de dignidade, então cabe a pergunta que ecoa sem resposta: onde foi parar o investimento real da Secretaria? Onde estavam os convidados especiais, os estudiosos que nomeiam nossas dores, iluminam nossos impasses e ajudam a pensar caminhos?

As perguntas lançadas ao grupo de Língua Portuguesa beiravam o surreal. Discutia-se a estrutura do currículo, o papel das "expectativas", os documentos, os termos técnicos, os mapas conceituais. Tudo muito bonito no papel. Contudo, a pergunta essencial — a tal pergunta de um milhão de dólares: "Como ensinar Português a partir disso?" — permanecia boiando no ar, leve e intocada, como fumaça. Quem escreveu a receita mágica não apareceu para provar o próprio tempero.

Saí dali sentindo-me mais cidadão do que professor. Cidadão pelo convívio, pela força do coletivo, pelo prazer raro de perceber que a cultura nasce, sim, do encontro entre pessoas comuns. Mas, ao fechar a porta de casa e encarar o silêncio da minha própria formação, senti no peito uma tensão quase filosófica.

Se de um lado Freire me consola com a ideia de que nos educamos em comunhão, do outro Benjamin Franklin me ronda com um sussurro pragmático: "Quem ensina a si mesmo tem um tolo como professor".

Eis o dilema.

Se o sistema nos oferece o raso e nos empurra ao autodidatismo como forma de sobrevivência, estamos nos tornando mestres da própria libertação ou apenas tolos caminhando no escuro, tateando um conhecimento que nos foi negado justamente por quem deveria promovê-lo?

Entre um "truco" político e um ponto-final pedagógico, sigo procurando a carta que ainda não nos deixaram jogar.


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Como professor de Sociologia, fiz essa crônica e depois fiquei pensando o quanto ela traduz as nossas discussões sobre as Instituições Sociais e a Reprodução do Conhecimento. A escola e os cursos de formação não são apenas prédios ou currículos; são espaços de conflito, de trocas simbólicas e, às vezes, de muita solidão. Com base no texto "O Banquete das Sombras", preparei 5 questões para a gente refletir sobre como a sociedade e o Estado tratam a educação.


1. A Educação como Processo Coletivo

O autor cita Paulo Freire ao dizer que "os homens se educam entre si, mediados pelo mundo", destacando o valor dos momentos de café e almoço entre os colegas. Do ponto de vista sociológico, qual é a importância das interações informais e da socialização para a construção da identidade de um grupo profissional como o dos professores?

2. O Papel do Estado e a Burocracia

O texto questiona onde foi parar o investimento real da Secretaria, já que os professores precisaram fazer uma "vaquinha" para garantir o básico. Como a precariedade material e a falta de investimento direto do Estado podem ser interpretadas como uma forma de desvalorização social de uma categoria profissional?

3. Teoria vs. Prática Social

O autor menciona que as perguntas técnicas beiravam o "surreal" e que quem escreve a "receita mágica" (o currículo) raramente está no chão da escola para provar o "tempero". Explique por que o distanciamento entre quem planeja as políticas públicas e quem as executa na ponta (a sala de aula) pode gerar o que o texto chama de "superficialidade valorizada".

4. O Dilema do Autodidatismo (Agência vs. Estrutura)

No final, o texto traz o dilema: estamos nos libertando ou apenas "tateando no escuro" por falta de apoio? Relacione a frase de Benjamin Franklin ("Quem ensina a si mesmo tem um tolo como professor") com a responsabilidade das instituições em fornecer uma formação sólida. É possível haver educação de qualidade apenas com o esforço individual do professor?

5. Alienação e Trabalho Docente

O professor afirma ter saído do curso "mais cidadão e menos professor", sentindo um "frio seco" diante de orientações rasas. Como o esvaziamento do sentido do trabalho e a oferta de conteúdos genéricos podem levar à alienação do profissional da educação em relação à sua própria função social?

Dica do Prof: Galera, para responder, pensem sempre no embate entre o que o indivíduo quer fazer (sua agência) e o que a estrutura (o Estado, o sistema escolar) oferece ou impõe. Bom trabalho!

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