"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 13 de abril de 2013

O EQUÍVOCO DA FÉ ("Se um homem tiver realmente muita fé, pode dar-se ao luxo de ser cético." — Friedrich Nietzsche)



CrÔnica

O EQUÍVOCO DA FÉ ("Se um homem tiver realmente muita fé, pode dar-se ao luxo de ser cético." — Friedrich Nietzsche)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

                   Sua felicidade não depende da fé, mas sim, de evidência. Temos de seguir as evidências. A fé não existe por si só, é apena um substantivo abstrato de nossa língua ou simplesmente adjetivo romântico; as evidências sim têm vida própria, estão certeza da existência das coisas reais! Estas fluem de fora para dentro, aquela, sai de dentro; uns até a confundem com desejo. "No princípio era o verbo"...: ação, fenômeno e estado. Deus não precisou de fé para os feitos da criação! A fé não move montanha, felizmente a montanha move a fé. Por que você não manda esse morro sair dali? Ah! Ele não vai sair, iria contra os princípios Divinos?! E ninguém o tirará de lá, senão por outros mecanismos materiais. Só Deus o removeria de lá milagrosamente, contudo sem precisar do apelo ou a oração dos pretensos representantes dEle. Primeiro vem a evidência, depois a fé. Graças ao inverso disso, os hospícios estão cheios de pessoas fervorosas no impossível, porém, estas não realizam nada. 
           — "Fé é crer no impossível". – assim me disse um crente. Eu o taxei de equivocado duas vezes, primeiro por conceituar e descrever o Deus carente da sua fé para realizar alguma coisa a seu favor; depois, por me recomendar sua receita de fé: — "Peça a Deus que lhe dê mais fé". Cabem aqui as palavras de Blaise Pascal: "Por que será que um coxo não nos irrita, e um espírito coxo nos irrita? Porque um coxo reconhece que andamos direito, enquanto um espírito coxo diz que somos nós que coxeamos; se assim não fosse, teríamos pena e não raiva". "Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar." - Carl Sagan.
           Como se fé fosse graduável e fosse a razão do sucesso nessa vida. Se essa fé, sobre a qual ensina a igreja, valesse alguma coisa, não existia ninguém doente, e todos nós seriamos ricos. Quem são os ganhadores das loterias? - evangélicos não jogam! E quanto à fé...? Precisa-se de fé para adquirir mais fé? Paradoxal... Não...? Sem fé é possível conseguir fé!
          Precisamos sim de uma fé em algo realmente existente, algo possível, é válido crer-se com a razão", "comprovação". Nem sempre o imaginável é possível. E o imaginável vindo à tona não é porque a fé o trouxe, mas porque ações bem articuladas o trouxeram.  Pelo exercício da fé, sem o resultado desejado, culpam cruelmente o paciente, já adoentado. Do sem fé, derrubando-lhe assim sua autoestima e o apego a Deus, fazem-no sofredor dependente! "A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer, as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz." (Victor Hugo).
          Onde está a eficácia da fé se é possível abusar dela? Eu me rejo pela vontade do sistema. Os crentes no impossível aceitam um Deus universal criador de Si mesmo, mas não aceitam que o Universo gerou-se a si mesmo, crer nisso não me é problema. Um conjunto de leis naturais me organiza nesta vida, e eu apenas aceito de bom grado. Ou melhor, o milagre acontece mesmo sem eu permitir. Às vezes, desejo profundo e ativamente, não magicamente, isso é conveniente a Deus, por isso recebo a benção. E Deus faz de mim o melhor que Lhe apraz. Bem disse a Bíblia sobre a fé sem as obras ser morta (Tg 2:20). Qual motivação você tem para realizar o impossível? Disse, com muita propriedade, José Ortega y Gasset: "É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução".

Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 26/10/2012
Reeditado em 13/04/2013
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sábado, 6 de abril de 2013

"REFINDANDO" ("Toda a infelicidade dos homens nasce da esperança." — Albert Camus)



Crônica Poetica

"REFINDANDO" ("Toda a infelicidade dos homens nasce da esperança." — Albert Camus)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

         Vá, minha Musa inspiradora, aonde for e até por caminhos tortuosos, eu lhe espero; quando voltar, se ainda restar fôlego em mim, aceito o que sobrou de si. Se não voltar, deite-se no seio da terra quando lhe prover, que por aqui farei o mesmo. Pois, certamente nos encontraremos num lençol freático qualquer. Aí a chamarei de Minha "filha pródiga", talvez devesse me chamar "Vânio" ou "Vanuso", pois, tenho tudo a ver com a esperança. "É horrível assistir à agonia de uma esperança." (Simone de Beauvoir).
          Quem sabe, queira ser convencida do que quero, cativada por um bom cavalheiro, ou ainda um joguete em minhas mãos certo como a flecha do cupido, um charme que seja! É só abrir o coração e ver que estou em meu limite, e se é pouco, some com seu tudo, o que tem para me doar, ou vai querer me ver o tempo todo nessa vidinha vegetativa SEM escolhas! Se eu vegeto, clamo por você como uma árvore, por seu adubo, ou, pelo menos me deixa ser seu adubo, pois já estou morto de saudades. De adubo em adubo a vida faz brotar outras vidas. Até lá!!!
           Se o corpo é a prisão da alma, liberteM-me por completo os deusES para a vastidão do infinito. Censo comum: "Só nos libertamos dessa prisão com a morte do corpo físico. Por que não pode ser ainda vivos, com o poder da imaginação? Apesar do medo que todos temos da morte, deve ser bom se libertar das limitações do corpo, dos sofrimentos desse mundo de provas e expiações e voltar ao nosso estado verdadeiro de espíritos; retornar à nossa "casa".
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 26/10/2012
Reeditado em 25/12/2012
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sábado, 30 de março de 2013

"MORDIDO" OU LAMBIDO ("Não force um cão a latir, pois a mordida será o próximo passo." — Jeferson Guerreiro)



PROSA POÉTICA

"MORDIDO" OU LAMBIDO ("Não force um cão a latir, pois a mordida será o próximo passo." — Jeferson Guerreiro)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na rua, eu sigo. Meio vadio, meio ferido — e, quer saber?, talvez nem sejam as preposições as culpadas, mas o que elas carregam: direção, alvo, destino. Tudo aponta. Tudo vem. E, quase sempre, vem em forma de latido.

Todo cachorro late comigo. Impressionante. Mas, o que ninguém conta é que nem todo latido fica do lado de fora.

Tem os que latem por mim — como se soubessem da minha vida mais do que eu mesmo.

Os que latem para mim — como se eu fosse o endereço certo da irritação alheia.

Os que latem contra mim — e esses, vá lá, pelo menos são diretos.

Agora… quando latem em mim, aí complica.

É aí que pega.

Porque não é o barulho que machuca — é o eco. É quando o latido acha um canto frouxo dentro da gente e se instala, sem pedir licença. Fica ali, reverberando, dias a fio. E, quando a gente vê, já virou hábito — desses que a gente esconde atrás da pressa, do riso curto, do “tá tudo bem”.

Eu continuo andando, claro. Mas, ileso? Nem de longe. Vou carregando uma coleção de ruídos — uns frescos, outros antigos — todos muito bem treinados para reaparecer justo quando o silêncio resolve dar as caras.

E cachorro… ah, tem de todo tipo. De guarda, de companhia, de vitrine. Esses últimos, então, vivem melhor que muito cristão por aí. Coleira cara, nome estrangeiro, rotina de spa. Uma paz que não se compra — parece que já vem no pacote.

Confesso: isso me atravessa. Não pelo bicho, coitado. Mas, pelo retrato. Pelo adulto que afaga o cachorro como quem tenta resgatar a própria infância — enquanto o mundo, logo ali fora, rosna solto, ignorado.

Talvez eu esteja sendo duro. Ou só cansado mesmo. Porque, no fim das contas, o que fere não é o cachorro bem tratado. É essa sensação insistente de que sempre tem um latido me esperando — venha de onde vier: de fora, de cima, ou pior… de dentro.

E eu, que nunca fui de rosnar de volta, sigo. Já pensei em parar. Já tive vontade de responder, de latir também — alto, firme, devolvendo o tom. Mas não sei… tem algo no caminho que me puxa para frente, mesmo quando tudo em volta tenta me segurar.

"Se parares cada vez que ouvires o latir de um cão, nunca chegarás ao fim do caminho."

Então eu caminho. Às vezes mordido. Às vezes só de leve, lambido pela superfície das coisas. Mas, sigo — não porque os latidos cessaram, nada disso. Sigo porque, do meu jeito torto, aprendi a não deixar que eles virem casa dentro de mim. No fim… talvez a rua não seja dos cães, nem dos homens. Talvez seja só de quem aguenta ir até o fim.

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Olá! Como professor de sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com você. Ele é riquíssimo para discutirmos temas como estigmatização, desigualdade social, subjetividade e as pressões da vida em sociedade. O autor utiliza a metáfora do "latido" para descrever as cobranças e julgamentos externos, e faz uma crítica social afiada ao comparar a vida de alguns animais de estimação com a dureza da existência humana nas ruas. Aqui estão 5 questões discursivas para refletirmos sobre esses pontos:

1. A Metáfora do Latido e o Controle Social:

No texto, o autor afirma que os latidos vêm de várias direções: "por mim", "para mim", "contra mim" e "em mim". Relacionando essa passagem ao conceito de controle social, como esses "latidos" (julgamentos e expectativas alheias) podem influenciar o comportamento e a identidade de um indivíduo que vive à margem da sociedade?

2. Desigualdade e Humanização de Animais:

O autor menciona cães com "coleira cara, nome estrangeiro e rotina de spa", comparando-os a "muito cristão" (ser humano) que não tem o mesmo tratamento. A partir de uma visão sociológica, como essa humanização dos animais de estimação em contraste com a desumanização de indivíduos em situação de vulnerabilidade revela as prioridades e as contradições da nossa estrutura social atual?

3. O "Latido de Dentro" e a Psicologia Social:

O texto diz que o barulho que machuca é o "eco" que se instala dentro da gente. Considerando que a nossa identidade é construída na interação com o outro (o "eu" social), como a internalização de críticas e preconceitos sociais pode afetar a saúde mental e a autoestima de grupos marginalizados?

4. Infância e Fuga da Realidade:

Ao observar o "adulto que afaga o cachorro como quem tenta resgatar a própria infância", o autor sugere que o cuidado com o animal pode ser uma forma de ignorar o mundo que "rosna solto" lá fora. Como o consumo de cuidados estéticos e mimos para pets pode funcionar como um mecanismo de alienação ou fuga das tensões sociais e conflitos humanos reais?

5. Resiliência e Agência Social:

O texto termina com a reflexão: "Talvez a rua não seja dos cães, nem dos homens. Talvez seja só de quem aguenta ir até o fim". No campo da sociologia, chamamos a capacidade de agir e resistir às estruturas de agência. Como o ato de "continuar caminhando", apesar dos latidos, representa uma forma de resistência individual contra a opressão ou o descaso da sociedade?

Espero que essas questões ajudem a aprofundar a compreensão sobre como a literatura e a sociologia caminham juntas para desvendar as feridas da nossa convivência humana! Bom estudo!

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sábado, 23 de março de 2013

RESPONSABILIDADE SOCIAL ("Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil." — Mario Quintana)



Crônica

RESPONSABILIDADE SOCIAL ("Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil." —
Mario Quintana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Aprendi muito tarde na vida que não amo ninguém, pois nunca estive disposto a fazer sacrifício algum para quem quer que seja, apenas faço o que me é confortável, cumprindo meu dever de amar o próximo como a mim mesmo. Talvez seja como explicou Claudynha: Se você se ama, e ama o próximo como ama a você mesmo, consequentemente você ama alguém. Cada um ama a sua maneira, e se não podemos corresponder ao amor de alguém como é requerido, não quer dizer que não amamos com tudo que temos." Todavia explico melhor: O que sinto por você chama-se responsabilidade social. Já está bom demais, se espero de você só isso!!!
          E você me ama ALÉM DISSO? O que pode fazer por mim ("andar a segunda milha") a ponto de desfalcar o seu conforto? Já dizia Giacomo Leopardi: "O primeiro motivo por que se está disposto a ajudar outro nas devidas ocasiões é a alta apreciação que se tem de si mesmo."
          Será que esta alta proteção ao negro e ao gay, ao pobre, ao nordestino, ao obeso tão em voga, não seria uma espécia de amor próprio protegendo os iguais? Tamanha perseguição aos discriminadores não seria uma agravante discriminação a quem discrimina? O que leva um professor chamar seu aluno de macaco? http://dialogospoliticos.wordpress.com/2013/03/21/professor-chama-aluno-de-macaco-em-escola-da-ufmg/ (acessado em 03/07/2018).
          Diga-se de passagem, tudo é motivo para se condenar um professor. Quem faz macaquice senão macacos ou idiotas independente de raça e credo? 
           Outro caso que li foi do professor de medicina ser acusado de aplicar uma prova com conteúdo homofóbico na Universidade de Rio Verde, apesar dele ter dito de não vê "nenhum tipo de preconceito na questão". O enunciado da questão dizia que o paciente Davi, de 24 anos, estava com abscesso na nádega “e seu noivo serelepe, ao ver aquele quadro horroroso, ficou tresloucado e furou o abscesso com espinho de limoeiro em um movimento rodopiante de bailarino, imitando um beija-flor”. Após a realização da prova alguns alunos procuraram a reitoria da universidade e denunciaram o conteúdo da questão. o reitor da instituição, Sebastião Lázaro Pereira, assinou a exoneração do professor. Por meio de nota a UniRV disse que “repudia veemente a atitude do professor e destaca que esse comportamento isolado não reflete o pensamento da instituição”.
https://www.dm.com.br/cotidiano/2018/06/professor-exonerado-apos-prova-com-conteudo-homofobico-disse-que-nao-ve-nenhum-tipo-de-preconceito.html (acessado em 29/06/2018)
          De tanto condenarem a autenticidade dos que ensinam, o mundo terminará inóspito. Para mim o maior problema são os sacrificadores de professor, contribuído para o apagão da educação!
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 12/10/2012
Reeditado em 23/03/2013
Código do texto: T3928744
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sábado, 16 de março de 2013

FESTA DE PROFESSOR: O Banquete das Sombras ("...A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." — Ecl. 7:2-3 BV)



Crônica da vida escolar

FESTA DE PROFESSOR: O Banquete das Sombras ("...A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." — Ecl. 7:2-3 BV)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Este ano foi especialmente generoso com o funcionalismo público. Um calendário elástico, emendado quase por decreto, somado à euforia patriótica de um ano de Copa do Mundo da FIFA, multiplicou os motivos para celebrar. Nesse clima de entusiasmo institucional, aceitei o convite para o jantar de confraternização dos professores, realizado no próprio colégio, com a promessa de encerrar o semestre com “chave de ouro”.

O salão estava impecável, ornamentado com zelo quase corporativo. Contudo, por trás das luzes e das toalhas engomadas, percebia-se algo menos festivo: colegas “maquiados de si mesmos”, desempenhando com afinco os papéis habituais. Os risos soavam ensaiados; os brindes, previsíveis. Notei ausências importantes. “Questões pessoais com a direção?” Explicaram, com uma neutralidade estudada. Perguntei-me, então, onde é mais árduo sustentar a máscara: na rotina burocrática ou na celebração que deveria suspendê-la?

Quando o conjunto musical iniciou os acordes, fui tomado por um súbito desejo de partir. A mesa farta reluzia sob a promessa do prazer imediato. O antigo “pão e circo” não desaparece — apenas se atualiza. Recordei as palavras de Salomão no Eclesiastes: "... é melhor estar nos velórios que ir a festas de aniversário. Isso porque você vai morrer um dia e é bom pensar nisso enquanto ainda há tempo. A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." (Ecl. 7:2-3 BV).

Entre um gole de refrigerante e outro, eu tentava preservar algum foco interior — como quem protege uma chama frágil contra o vento. Foi quando a coordenadora, cordial e persuasiva, convidou-me a cantar uma composição minha em homenagem aos colegas. Não houve ensaio, tampouco tempo para defesas íntimas.

Levantei-me. O breve trajeto até o microfone pareceu uma travessia moral. A voz, segura em casa, ali vacilou. O silêncio da plateia tinha densidade. Cantei — e, enquanto cantava, percebi que já não dominava o julgamento invisível que me cercava. Não era vaidade; era exposição. Cada deslize soava como confissão involuntária. Ao final, vieram aplausos generosos — talvez benevolentes. Retornei à mesa com a sensação de ter atravessado uma avenida movimentada de olhos fechados.

Compreendi, então, o impasse: fugir seria covardia; permanecer também exige preço. Se tivesse saído antes do jantar, restaria a suspeita da omissão; ficando, herdei a vulnerabilidade. Entre a evasão e o risco, escolhi o risco — e ele me devolveu um espelho.

À medida que a música prosseguia e os pratos se acumulavam, pensei na pedagogia silenciosa dessas celebrações. Por que a confraternização docente gravita sempre em torno da abundância? Proclamamos formar consciências críticas, mas frequentemente educamos pelo excesso. O Programa Mais Educação, com lanches na entrada e na saída — além do intervalo regular —, não é apenas política pública; é sintoma cultural. Alimenta-se o corpo repetidas vezes em poucas horas, enquanto a interioridade raramente é nutrida. Chamam isso de cuidado. Talvez seja apenas a versão escolar de uma estratégia antiga: saciar para apaziguar.

Convém esclarecer: não se trata de condenar o alimento, mas de interrogar o símbolo. Quando a mesa se torna o centro gravitacional da convivência, a reflexão corre o risco de ceder lugar à digestão. E nós, professores, quase sem perceber, assumimos o papel de oficiante desse culto à abundância, enquanto a dimensão interior se esvai.

Ao deixar o salão, carregava uma consciência ambígua. No ano anterior, ausente, ouvi ao retornar: “Você perdeu uma festa maravilhosa!” Perdi — ou fui poupado? Agora, presente, experimentei outra forma de ausência: a de mim mesmo, diluído entre risos e harmonizações forçadas.

Talvez eu diga aos que faltaram que a festa: “foi excelente”! Não por malícia, mas porque compreendo a engrenagem social: presença e ausência produzem culpas equivalentes. A vida coletiva parece um cálculo em que sempre subsiste algum déficit moral.

No íntimo, oscilo entre o conselho austero de Salomão e a suspeita de que Friedrich Nietzsche ironizaria minha contenção, acusando-me de temer o impulso dionisíaco que dissolve as máscaras. Talvez Epicuro ponderasse que o prazer autêntico não reside no excesso, mas na medida — não no banquete ruidoso, e sim no pão simples partilhado sem encenação. Entre essas vozes, permaneço suspenso.

No fim, compreendi que a festa não foi mero evento social, mas um experimento moral. Sob luzes artificiais e melodias previsíveis, vi a comédia humana encenar sua fome — de alimento, de aprovação, de pertencimento. E entendi que o verdadeiro banquete não estava nas mesas, mas nas sombras que cada um de nós levou consigo para o interior do salão.

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Olá, pessoal! Como professor de sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com vocês. Ele é um material riquíssimo porque transforma um evento cotidiano — uma festa da escola — em um objeto de análise científica. O autor nos convida a "tirar os óculos" do senso comum e observar as estruturas sociais, as máscaras que usamos e os rituais de consumo. Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas que ajudam a conectar essa narrativa aos conceitos fundamentais da nossa disciplina.


1. Máscaras Sociais e Goffman: O texto menciona colegas que pareciam "maquiados de si mesmos", desempenhando papéis habituais mesmo em um momento de lazer. Com base na ideia de que a vida social é uma espécie de teatro, por que o autor questiona se é mais difícil sustentar a "máscara" no trabalho ou na celebração?

2. A Atualização do "Pão e Circo": O autor afirma que o antigo conceito romano de Panem et Circenses (Pão e Circo) não desapareceu, apenas se atualizou. Como a oferta abundante de comida e música em eventos institucionais pode ser interpretada como uma ferramenta de controle ou apaziguamento social dentro do ambiente escolar?

3. Instituição e Socialização: Ao citar o Programa "Mais Educação" e a rotina de alimentação das crianças, o texto sugere uma "pedagogia silenciosa". De que maneira a escola, como instituição social, pode estar moldando o comportamento dos indivíduos para o consumo e para a busca pelo prazer imediato, em vez da reflexão crítica?

4. O Dilema do Pertencimento e a Coerção Social: O narrador sente-se culpado tanto quando falta à festa quanto quando comparece. Explique, do ponto de vista sociológico, como a pressão do grupo (a "engrenagem social") exerce influência sobre as escolhas individuais, criando o que o texto chama de "responsabilidades e déficits morais".

5. O Indivíduo frente ao Coletivo: No final, o texto cita a tensão entre a contenção (Salomão/Epicuro) e a entrega ao grupo (o impulso dionisíaco de Nietzsche). Como as festas de confraternização ajudam a reforçar a identidade de um grupo profissional, mesmo quando os indivíduos se sentem "desconectados" ou "diluídos" na multidão?

Dica do Professor:

Para responder a essas questões, não busque apenas o que está escrito literalmente. Tente perceber como o autor olha para a festa não como um simples jantar, mas como um fato social — algo que tem regras próprias, exerce pressão sobre as pessoas e revela muito sobre a cultura em que vivemos.

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sábado, 9 de março de 2013

Deus É a Dinâmica da Vida ("O medo inconcebível de uns é o prazer inenarrável de outros." — Maryanne Schramm)



Crônica

Deus É a Dinâmica da Vida ("O medo inconcebível de uns é o prazer inenarrável de outros." — Maryanne Schramm)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Deus é o sistema último, transformando todas as energias em matéria e a matérias em energias: é a dinâmica da vida. E o que chamamos de vontade de Deus? Nada mais é do que a fome do motor pelo o combustível da vida, fazendo movimentar as substâncias em busca do que Lhe é próprio consumir no momento. Ele consome vidas para produzir a vida. "Há no âmago do Universo uma 'energia' pulsadora para frente, fazendo o 'acontecer', nunca o deixa parado. As coisas no universo só podem 'acontecer', não podem 'parar' ou regredir" (Marcelo Caixeta - DM).
          Se um grupo de "religiosos" fanáticos e pretensiosos se diz conhecedor de Deus, por que não nos explica melhor o sentido da vida? Se Deus pode ser conceituado e explicado, medido por mentes finitas, então é menor que o homem! Um desses, certa vez, disse-me sobre o seu Deus ser onipresente: está em todos os lugares ao mesmo tempo. Todavia, nem pensou na ausência Divina como uma possibilidade que seu Deus sempre usa! Quando eles julgam as pessoas "afastadas" de Deus. Porém, o Deus da totalidade é exatamente presente, não podendo Se ausentar, pois sem Deus não há vida; Ele é o fluido de toda existência. Então, o Deus dele de jeito nenhum É onipresente, pois só um Deus físico e humanizado pode se ausentar. Se a onisciência de Deus estiver vinculada à onipresença, não há lacuna alguma na sabedoria desse Deus: nunca existiria o não saber, assim como, a ausência! Se  a onipotência de Deus considerar o nada como alguma coisa permeável pelo Seu poder, então os Seus atributos são o próprio Deus. Doutrinas religiosas são uma tentativa frustrada da igreja; pois a própria Bíblia disse que se possível fosse enganariam até os escolhidos. (Mt 24:24). Então achei necessário o acréscimo com o comentário do Pseudônimo,  "Mostradamus": "segue-se o raciocínio daqueles basicamente inteligentes, mas medrosos: Quem foi que criou Deus? Se não fomos nós, foi um outro (O pai), porém de onde teria vindo o pai? e assim uma infinidade de perguntas irrespondíveis. Então chamemos Deus de ignorância plena, escuridão, medo, insegurança, ou aceitemos implicitamente nossa obscuridade, como fazem os ateus".
          O Deus é complexo demais para ser limitado por conceitos ou definições, então vamos apenas nomeá-Lo como indefinível, inconceituável e inconcebível. Dar-Lhe esses nossos atributos de criatura,  faz dEle um de nós, pois é isso que os homens da religião querem: brincar de ser Deus!
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 05/10/2012
Reeditado em 09/03/2013
Código do texto: T3918225
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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.