"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

FAZER SEXO PARA SE HUMANIZAR ("Pois que o amor e a afeição com facilidade cegam os olhos do entendimento." — Dom Quixote)

 


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

RECONHECIMENTO E GRATIDÃO ("Não se preocupe quando não for reconhecido, mas se esforce para ser digno de reconhecimento." — Abraham Lincoln)


 

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

NÃO HÁ LEITE SEM CHUPETA: O Espetáculo da Inversão ("A chupeta do capeta é o pecador sem Deus." — Helgir Girodo)



NÃO HÁ LEITE SEM CHUPETA: O Espetáculo da Inversão ("A chupeta do capeta é o pecador sem Deus." — Helgir Girodo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Uma aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), na extensão do colégio — alguém que mal domina a composição de um texto, por vezes nem um simples bilhete — travava uma disputa por nota integral, humilhando o professor ao se colocar em pé de igualdade com ele. Quem, sem domínio da escrita, se julga capaz de avaliar os critérios de correção de quem vive o ofício diariamente?

A seu lado, um colega de caligrafia garrancheira e ilegível, cuja única propriedade era o tamanho do papel, mantinha os fones nos ouvidos como um muro simbólico. Apoiada por ele, a aluna reivindicava sem sequer fundamentar seu pedido. Os semelhantes se defendem. Queria a mesma nota da colega de quem colou ou apenas o espetáculo de me constranger? Afinal, ninguém produz uma redação idêntica à de outrem, porque ninguém pensa de modo igual. Ao final, dobrei-me às pressões.

Foi então que o cenário se configurou como um teatro de papéis invertidos: o mestre transformado em réu; o erro reivindicando razão; a fragilidade julgando a experiência, como se todo saber pudesse ser medido pelo volume do protesto. Havia ali menos aprendizagem e mais disputa de vaidades — um silêncio calculado no qual o mérito se dissolvia no desejo de igualdade sem esforço. Observava, calado, o peso da superficialidade que revestia gestos simples e os convertia em acusações. Ainda assim, mantive a dignidade da palavra, como quem segura uma tocha contra o vento: tremendo, porém acesa.

A loucura que me atribuem não é delírio, mas sobrevivência — abrigo derradeiro de quem insiste em ensinar algo que tenha sentido. Ser “louco”, aqui, é não ceder ao vazio. E talvez seja justamente nesse abismo que minha sanidade se firma.

Sempre há um incompetente nas relações sociais: naquele episódio, atribuí a mim esse papel por não conseguir compreendê-los; eles, porém, não se culpam por não compreender a mim. Alguns colegas, vivendo os mesmos cenários, aconselham-me a buscar tratamento psicológico, como se o desgaste fosse sinal de fraqueza. Tornaram-se aliados do conforto, da diplomacia do nada. Mas pergunto: quem é o enfermo — o que sente demais ou o que finge não sentir nada?

Escolhi permanecer autêntico, pois ser professor é, antes de tudo, aceitar a tarefa árdua de convencer corações distraídos. Meu destino será moldado pela loucura criativa que insiste em ensinar o que é útil; o deles, pela hipocrisia imóvel das promessas vazias.

O futuro pertence aos loucos lúcidos, enquanto os hipócritas se sustentam em amizades interesseiras. Não é pecado ser louco; pecado é condenar a lucidez inquieta em nome de um politicamente correto que produz silêncio, mas não paz.

Sei que o parasita não preserva nada do que consome — vive de desfrutar, espoliar e descartar — e, por isso, devora o hospedeiro até o fim. Que sugue. Pois está escrito: “Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12:20).

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Abaixo, apresento 5 questões discursivas e simples que visam estimular a reflexão dos alunos sobre as ideias centrais tratadas no meu relato, conectando-as à teoria social.

1. Relações de Poder e Inversão de Papéis: O narrador descreve a situação como um "teatro de papéis invertidos: o mestre transformado em réu; o erro reivindicando razão; a fragilidade julgando a experiência". Com base nas relações sociais e de poder, explique o que essa "inversão de papéis" pode significar para a autoridade e o reconhecimento do saber formal (do professor) na sociedade contemporânea.

2. Meritocracia e Igualdade sem Esforço: O texto critica o momento em que "o mérito se dissolvia no desejo de igualdade sem esforço". Diferencie, sociologicamente, o conceito de Equidade (que busca justiça e oportunidades iguais) do ideal de Igualdade Superficial (ou "sem esforço") que o narrador aponta. Qual o risco social de exigir a mesma recompensa sem o reconhecimento do esforço ou da competência?

3. Autenticidade Profissional vs. "Diplomacia do Nada": O professor confronta a postura de colegas que o aconselham a buscar tratamento psicológico, caracterizando-os como "aliados do conforto, da diplomacia do nada". Analise como o conceito de Autenticidade (a escolha de "permanecer autêntico") é apresentado no texto como uma forma de resistência ao Vazio ou à Anomia (ausência de normas/valores fortes) no ambiente de trabalho e nas relações sociais.

4. A Crítica ao "Politicamente Correto" e a Lucidez Inquieta: O autor afirma que "pecado é condenar a lucidez inquieta em nome de um politicamente correto que produz silêncio, mas não paz". Discuta como o uso excessivo e não reflexivo do "politicamente correto" pode, segundo o texto, sufocar o debate e a crítica construtiva, criando um ambiente de superficialidade e inautenticidade nas relações.

5. Solidariedade e Dinâmica de Grupo: A união entre os alunos é resumida na frase: "Os semelhantes se defendem". Qual tipo de Solidariedade Social (mecanismo de coesão social, segundo Émile Durkheim, por exemplo) está em ação nessa cena? O que, no contexto narrado, une esses indivíduos e qual é a função dessa união para o grupo, considerando o objetivo de "constranger" o professor?

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NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

 


NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A proximidade do meu aniversário empurra-me, sem delicadeza, para a soleira da terceira idade. Digo a mim mesmo que não há pranto — e talvez isso seja verdade apenas em parte. Com o tempo, a dor aprende a se disfarçar de método: muda o gesto, ajusta o tom, transforma-se em escolha. Para evitar o desgaste psicológico e as frustrações sentimentais, passamos a ignorar indiretas, a reduzir círculos, a deixar de perseguir quem não deseja ficar. Chamamos isso de paz. Georg Lichtenberg sussurra ao fundo: “Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião.” Repito como um mantra, embora saiba que minha serenidade não nasce da ausência de opiniões, mas do cansaço de vê-las recusadas.

Não me iludo: minhas opiniões permanecem todas aqui, sentadas comigo à mesa. Sobre a carne, as bebidas, o volume da música, a pressa em confundir convivência com ruído. O que amadureceu não foi o silêncio, mas a fadiga. Reconhecer isso parece-me mais honesto do que vestir o desapego como virtude incontestável.

Na confraternização de encerramento do semestre escolar, essa contradição expôs-se sem pudor. Fui — e fui sabendo que me cansaria. O ambiente me estranha tanto quanto eu a ele. Já fui mais hábil na arte de conviver; hoje, contento-me com o respeito mútuo. Não discuto, não confronto, não ensino. Sigo acreditando que não se vingar já é uma forma de perdão. Ainda assim, reconheço minha própria intransigência: não partilho dos mesmos gostos, não me entusiasmo com os mesmos excessos. O convívio, para mim, tornou-se um exercício de contenção.

“A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, transmite-nos esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo.” — Sêneca

Apoio-me em Sêneca como quem busca abrigo, embora saiba que ele não defendia a fuga, mas a escolha. Entre cultivar poucos vínculos e desistir da convivência por exaustão, há um abismo que tento atravessar com passos curtos. Pergunto-me, sem resposta pronta, se pratico estoicismo ou se apenas racionalizo uma rendição emocional. Chamo de maturidade aquilo que pode ser também autodefesa. Jung talvez fosse mais incisivo: individuação não é isolamento; é a coragem de integrar as feridas sem transformá-las em muros.

Digo que não há pranto, mas ele existe — discreto, contido, escondido nas pausas. A contenção estilística me protege, mas também me trai. Apesar da fadiga, permaneço. Vou às confraternizações que me cansam, sento-me entre colegas fora do horário letivo, escuto, lembro, projeto. Há algo ali que o desapego não entrega: a confirmação de que, mesmo cansado, ainda pertenço. Entre histórias antigas e futuros imaginados, entrelaçam-se lembranças e ambições; e nesse emaranhado imperfeito, ruidoso e humano, descubro uma verdade incômoda.

O desapego não me libertou da necessidade do outro; apenas a tornou mais exigente. É nessa tensão — entre querer menos e ainda precisar — que encontro, sem heroísmo, o verdadeiro valor do tempo vivido.


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Olá! Que texto potente e reflexivo. Como professor de Sociologia, vejo aqui uma oportunidade incrível para discutirmos temas fundamentais da nossa disciplina, como a socialização, as relações de pertencimento, o isolamento na modernidade e a construção da identidade. Preparei estas 5 questões discursivas focadas na análise sociológica do texto, com uma linguagem acessível para o Ensino Médio:


1. O Processo de Socialização e a Maturidade. No início do texto, o autor descreve como a chegada da terceira idade altera seu comportamento em relação aos outros (ignorar indiretas, reduzir círculos sociais). Do ponto de vista sociológico, como podemos interpretar essa mudança de comportamento: trata-se de um novo processo de socialização ou apenas um isolamento social? Justifique.

2. Cultura e Convivência em Grupos. O autor menciona um "descompasso" entre seus gostos pessoais (carne, volume da música, bebidas) e os do grupo na confraternização. Como a Sociologia explica a dificuldade de um indivíduo em se integrar quando seus valores e hábitos culturais não coincidem com o padrão do grupo dominante?

3. O Pensamento de Sêneca e a Pressão Social. A citação de Sêneca sugere que "a companhia da multidão é nociva" e pode transmitir vícios. Relacione essa ideia ao conceito de conformidade social — a tendência de as pessoas mudarem seu comportamento para se ajustarem ao grupo. Por que o autor vê o "convívio como um exercício de contenção"?

4. Pertencimento vs. Individualismo. Ao final do texto, o autor afirma: "O desapego não me libertou da necessidade do outro". Mesmo sentindo-se deslocado, ele escolhe permanecer e participar das histórias e projetos com os colegas. Por que o sentimento de pertencimento é fundamental para o ser humano, segundo a visão sociológica, mesmo quando há conflitos de opinião?

5. Identidade e Autodefesa. O texto questiona se o comportamento do narrador é "maturidade" ou "autodefesa". Considerando o conceito de identidade social, como as nossas experiências passadas e as feridas emocionais citadas (referenciando Jung) influenciam a forma como nos apresentamos e interagimos na sociedade hoje?

Sugestão de uso: Você pode utilizar estas questões para um debate em sala de aula ou como uma atividade de redação reflexiva.

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domingo, 15 de janeiro de 2023

O Banquete da Improdutividade: Reflexões sobre o Lanche Pedagógico ("Todo mundo age não apenas movido por compulsão externa, mas também por necessidade íntima." — Albert Einstein)

 


O Banquete da Improdutividade: Reflexões sobre o Lanche Pedagógico ("Todo mundo age não apenas movido por compulsão externa, mas também por necessidade íntima." — Albert Einstein)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Mesmo no auge do isolamento pandêmico — quando os corpos estavam separados, mas os hábitos permaneciam colados — a liturgia do lanche resistiu heroicamente. Nas videoconferências pedagógicas, alguns colegas abriam a câmera não para intervir no debate (que debate?), mas para reafirmar fidelidade ao rito: mastigavam. Era como se declarassem, em silêncio oleoso, que a tradição não morreria em suas mãos. A cena divertia e inquietava ao mesmo tempo. Havia algo de cômico, mas também de profundamente revelador, nesse impulso de performar o comer mesmo quando ninguém podia compartilhar o prato.

Não sei ao certo quando o lanche ascendeu ao estatuto de divindade nas reuniões escolares, mas reconheço com clareza seus efeitos colaterais. Quem se entrega ao banquete raramente o faz sozinho: há sempre uma insistência gentil, quase missionária, para que os demais participem. Um bolo oferecido, depois reforçado, depois cobrado. Afinal, ninguém quer habitar o “inferno da gula” desacompanhado. A pressão não é explícita, mas é eficaz — e, como toda liturgia bem-sucedida, disfarça-se de afeto.

Admito: minha recusa em participar desses rituais não nasce de uma superioridade moral consciente, embora às vezes soe assim. Não sou imune à tentação de pertencer. Também já senti vontade de aceitar o prato apenas para silenciar o constrangimento, para não parecer deslocado, para ser “do grupo”. Ainda assim, cultivo — com falhas e recaídas — certa disciplina alimentar, menos ancorada em dogmas religiosos do que em uma desconfiança crescente em relação aos excessos travestidos de confraternização. Em outros tempos, encontrei respaldo em Ellen G. White, que advertia:

“Três refeições ao dia, e coisa alguma entre elas — nem mesmo uma maçã — deve ser o limite máximo da condescendência. Os que vão além violam as leis da Natureza e sofrerão a penalidade.”

Review and Herald, 8 de maio de 1983.

Hoje, leio essa advertência menos como verdade universal e mais como metáfora severa: não é o alimento em si que adoece, mas a incapacidade de dizer basta — ao prato, ao hábito, à repetição vazia.

A pergunta incômoda persiste: por que toda reunião precisa de uma isca? Comer juntos é, sem dúvida, um gesto ancestral, um cimento social legítimo, uma tentativa humana de aquecer ambientes frios. O problema começa quando o lanche deixa de ser encontro e passa a ser anestesia; quando substitui o pensamento em vez de acompanhá-lo. O cardápio é previsível — bolo industrial, refrigerante gratuito — e a sensação também: a coletividade parece organizada em torno do estômago, não da ideia. A responsabilidade pela obesidade, curiosamente, nunca recai sobre quem escolhe comer, mas sobre abstrações convenientes — o estresse, o sistema, o outro.

Nada disso é novo. Herdamos dos romanos a pedagogia mais eficiente do poder: "pão e circo". O entretenimento mastigável cumpre sua função política — ocupa a boca para calar a palavra, distrai o corpo para evitar o confronto intelectual. Não se exige produtividade quando se distribui açúcar.

Essa dinâmica revela algo ainda mais profundo. Quando a reunião já nasce morta, quando todos sabem que dali não sairá decisão alguma, instala-se um vazio — e vazio exige preenchimento. Como observa A. Y. Silva:

“Temos uma compulsão natural de preencher os espaços vazios...”

Sem horizonte intelectual, mastiga-se. Sem propósito, digere-se. A fome que deveria ser de ideias converte-se em ansiedade oral. A escola — espaço que poderia cultivar autocontrole, reflexão e "ascese laica" — acaba treinando o oposto: a dependência, o excesso, o adiamento do pensamento. Se não houver lanche, o encontro definha; se não houver o que mastigar, as ideias parecem suspensas. O ócio que poderia ser criativo degrada-se em digestão coletiva.

Talvez o problema nunca tenha sido o lanche. Talvez seja a pobreza simbólica das reuniões que exija açúcar para ser tolerada. Talvez faltem pautas que dispensem a anestesia, debates que sustentem a atenção, vínculos que não precisem ser selados por guardanapos engordurados. Enquanto isso não muda, seguimos fiéis ao ritual: mastigando para não pensar, comendo para não decidir — satisfeitos, mas vazios.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito com a densidade desse texto. Ele é um prato cheio (com o perdão do trocadilho) para analisarmos como comportamentos que parecem "naturais" ou "banais" — como comer um pedaço de bolo em uma reunião — escondem estruturas de poder, ritos de socialização e mecanismos de controle social. Para as nossas questões, vamos focar em conceitos como fato social, socialização, alienação e a famosa política de "pão e circo". Aqui estão as 5 questões discursivas para pensarmos criticamente sobre o texto:

Questão 1: O Rito da Socialização. O texto menciona que existe uma "insistência gentil, quase missionária" para que todos comam, pois "ninguém quer habitar o 'inferno da gula' desacompanhado". Do ponto de vista sociológico, por que o grupo tende a pressionar o indivíduo a seguir um comportamento coletivo, mesmo em algo simples como um lanche?

Questão 2: Pão e Circo na Modernidade. O autor utiliza a expressão "pão e circo", herdada do Império Romano, para descrever as reuniões pedagógicas. Explique como o oferecimento de comida (o "pão") pode atuar, segundo o texto, como um mecanismo de controle político e distração intelectual dentro do ambiente de trabalho.

Questão 3: O Vazio e a Compulsão. A citação de A. Y. Silva no texto afirma que "temos uma compulsão natural de preencher os espaços vazios". Relacione essa frase com a crítica do autor sobre a "improdutividade" das reuniões: por que a falta de sentido intelectual acaba gerando um comportamento de consumo físico (a comida)?

Questão 4: A Escola como Instituição Social. O texto sugere que a escola deveria cultivar o "autocontrole" e a "reflexão", mas acaba "treinando o oposto". Na sua visão, qual deveria ser o papel da escola na formação dos hábitos dos indivíduos e como as "reuniões de lanche" podem estar contradizendo esse papel educativo?

Questão 5: Individualismo vs. Estrutura. No final do texto, o autor levanta a hipótese de que o problema pode não ser o lanche, mas a "pobreza simbólica" das reuniões. O indivíduo que come demais nesses encontros é o único responsável por sua ação ou ele está apenas reagindo a uma estrutura de trabalho cansativa e sem propósito? Justifique sua resposta com base na ideia de que nossos hábitos são influenciados pelo meio em que vivemos.

Dica do Prof: Ao responder, tente observar não apenas o que as pessoas comem, mas por que elas sentem que precisam comer naquele contexto específico. A Sociologia é a arte de estranhar o que parece comum!

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AMIGOS CAPITALISTAS ("O que o dinheiro não traz ele leva." — Lis Oliveira)

 


AMIGOS CAPITALISTAS ("O que o dinheiro não traz ele leva." — Lis Oliveira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há dias em que a vida me parece um organismo mal programado: um ciclo automático, voraz, quase obsceno — comer, comer, comer. Produzir para comer. Comer para continuar produzindo. E, quando o corpo cansa — ou a alma apodrece antes —, resta o gesto final: vomitar o excesso, esquecer o que não coube, ejacular a própria existência como quem desperdiça o que nunca chegou a florescer. Nada de épico nisso. Apenas fisiologia aplicada à rotina.

Talvez por isso eu tenha passado a perseguir uma meta tardia, quase ingênua: resgatar algum prazer possível no que sobrou do caminho. Trabalho, família, fé — não como promessas de salvação, mas como pequenas trincheiras contra o esvaziamento. Descansar quando der. Conversar sem cálculo. Orar não para pedir milagres, mas para não endurecer por completo. Às vezes penso que ressignificar conceitos é luxo; o que me resta é aplicar, com disciplina cansada, os poucos valores que ainda não se venderam.

A urgência dessa busca se impôs quando o mundo parou. A pandemia não criou meus medos; apenas os empurrou para a superfície. Isolado, vi os números crescerem como sentenças frias, estatísticas que não consolam ninguém. Não temi apenas a morte — temi que a minha história se encerrasse sem ter sido, de fato, vivida. A estagnação revelou o que o movimento escondia: eu já vinha tenso, apenas não tinha tempo de perceber.

Já não espero surpresas dessa engrenagem chamada vida, nem das relações humanas que ela molda. A ilusão foi gasta. Ainda assim, abandonar tudo não é opção heroica — é privilégio de quem pode recomeçar. Eu não posso. Sinto-me velho demais para apostas grandiosas e jovem demais para desistir sem remorso. Eis o dilema bruto: ou agarro o osso que me deram e finjo que é banquete, ou jogo a toalha e aceito o cabresto com a dignidade possível.

Tive oportunidades, dizem. Talvez tenha tido mesmo. Em que ponto o caminho se tornou esse deserto, não sei precisar. O que sei é simples e indecente: portas se abrem com uma facilidade quase pornográfica para quem tem dinheiro. As outras — as invisíveis — exigem virtudes que não rendem juros. Aprende-se cedo a regra não escrita: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Repetimos isso como sabedoria popular quando, na verdade, é o sistema falando pela nossa boca.

Tenho consciência do paradoxo que carrego. Sei que me faltam aparência, capital, verniz social; e sei, também, que me sobram virtudes que ninguém cotou na bolsa. Reconheço meu valor íntimo, meu potencial humano, mas esbarro no muro frio do materialismo cotidiano. Como atrair boas companhias num mundo que mede afetos por desempenho? Como sustentar amizades onde tudo vira troca, vantagem, oportunidade? Não afirmo que não existam exceções — talvez existam, escondidas, resistentes —, mas confesso: ando cansado demais para encontrá-las.

Resta-me, então, o sarcasmo. Não como fuga, mas como defesa. Rir para não apodrecer por dentro. Ironizar para não enlouquecer. Compreender a engrenagem não me libertou dela; apenas tornou o aperto mais consciente. Ainda assim, sigo — não por esperança grandiosa, mas por teimosia humana. E, enquanto der, sigo rindo da tragédia que nos atravessa.

E viva nós, né, Batoré!


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Como seu professor de Sociologia, é fascinante analisar um texto que transita entre o existencialismo e a crítica social. O autor nos apresenta o que chamamos de Alienação, um conceito fundamental para entender como o sistema econômico molda não apenas nosso trabalho, mas nossos afetos e nossa percepção de tempo. O texto reflete a angústia do indivíduo que se sente uma "peça" em uma engrenagem maior, onde o "ter" frequentemente atropela o "ser". Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos a sociedade através deste relato:


1. O Ciclo da Produção e Consumo O autor descreve a vida como um ciclo de "produzir para comer e comer para continuar produzindo". Relacione essa frase ao conceito de Alienação em Karl Marx. Como o sistema capitalista pode transformar a atividade vital do ser humano em um fardo mecânico e repetitivo?

2. O Fetiche da Mercadoria e as Relações Humanas No texto, afirma-se que as portas se abrem para quem tem dinheiro e que os afetos são medidos por "desempenho". De que maneira a lógica do mercado (compra e venda) invade a esfera privada e transforma as amizades e os relacionamentos em objetos de troca ou "investimento"?

3. Instituições Sociais como Refúgio O autor menciona o trabalho, a família e a fé como "trincheiras contra o esvaziamento". Explique a importância das Instituições Sociais na construção de sentido para o indivíduo. Elas servem apenas para controle social ou podem, como sugere o texto, oferecer suporte emocional em tempos de crise?

4. A Pandemia como Fato Social O texto destaca que a pandemia "empurrou medos para a superfície". Analise a pandemia como um Fato Social (conceito de Émile Durkheim): como esse evento coletivo alterou as consciências individuais e revelou as tensões que já existiam na estrutura da nossa sociedade?

5. Ética e Poder: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo" O autor diz que essa frase é o "sistema falando pela nossa boca". Como a sociologia explica a reprodução de discursos que justificam a desigualdade de poder? Por que tendemos a aceitar hierarquias baseadas no capital financeiro como se fossem "leis naturais" ou "sabedoria popular"?

Dica do Professor:

Para responder bem, foque na tensão entre o indivíduo (seus sentimentos e virtudes) e a estrutura social (as regras do dinheiro e da produtividade). O autor parece sentir que a estrutura é um "muro frio" que impede o florescimento do potencial humano.

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