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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 30 de junho de 2009

Processador de Dinheiro Estragado PDE




Texto

Processador de Dinheiro Estragado (PDE)

Claudeci Ferreira de Andrade

          Meu companheiro, trabalhei como líder da segunda repartição dessa empresa por dois anos, só este ano, fui remanejado para cuidar deste museu que é da própria empresa e ali está o primeiro objeto de estimação, quero mostrá-lo. Desde quando chegou aqui, tem provocado grande admiração! Não sei quem o inventou, só sei que veio do Paraguai. Colocaram-no para funcionar por apenas um ano, em caráter experimental. Era um empréstimo, depois iria para outro lugar. Foi segundo as estatísticas do ano retrasado que ele foi reprogramado. No final do ano passado, preparamos a despedida: uma festinha, depois, uma reunião de avaliação das multiutilidades do tal objeto, na verdade ele é um processador. A mesma mulher que o trouxera, pretendia levá-lo. Do discurso que fizera quando o processador chegou, lembro-me, como se fosse hoje, de quase todas as palavras! Ela levantou-se da plataforma devagarzinho e pensativa, adiantou-se e disse:

           — O Processador é um instrumento gerencial de planejamento estratégico(...). O objetivo do equipamento é aprimorar a qualidade do produto final(...). Com esta tralha, a empresa ganhará autonomia para projetar o seu futuro(...). O acessório auxiliará as repartições da empresa a se organizarem de maneira eficaz e eficiente, concentrará esforços e recursos para promover melhoria, resolver seus problemas e realizar suas aspirações(...).

           Era uma senhora de aparência comum e pacata, porém ríspida em suas palavras, um tanto grosseira! Ela conduziu aquela reunião com muita destreza na qual cada um dos dezesseis departamentais relatava sua melhor experiência de trabalho com o Processador, recebia a apreciação e sentava-se. Eu permaneci, até o fim, em pé: todas as cadeiras estavam ocupadas; o anexo da secretaria estava lotado. Foram confirmadas as reservas por telefone e, como eu não tinha telefone fixo, fiquei sabendo já em cima da hora, porque um colega levou-me a tal simpósio. Tudo aconteceu no final do expediente, sob o comando da senhora IRATELY. A reunião foi iniciada às 20h. Logo após a abertura com um texto de autoajuda, ela ordenou a primeira departamental EXHIBITIVE, da repartição central, para se levantar e falar. EXHIBITIVE disse:

           — No dia em que bati meu carro, fui avisada de que não teria conserto, então depositei no gavetão da Parafernália o retrovisor, as rodas, correias, faróis, enfim todas as partes que sobraram do carro. A Parafernália devolveu-me um micromecanismo com 10.000 partes, apelidei-o de estranho projeto. Meu principal prazer é divertir a quem vem me ver com minha atividade. Ligo um interruptor e entretenho os visitantes com o toque de campainhas, a cintilação de luzes e o giro de centenas de rodas.

           — Muito bem, – disse a apreciadora – embora seu estranho projeto produza intensa e complicada atividade, ele não realiza nada que seja de fato útil!

           Tudo estava correndo muito bem! Achei que aquele momento seria o melhor para eu me manifestar, preparei-me mentalmente, respirei fundo e soltei a voz, dizendo:

           — Atenção, meu nome é CONJURER, o Processador devolveu-me um canário em uma gaiola coberta de forma que impedisse a entrada de toda luz, não posso dizer o que depositei no gavetão, segredo profissional! Mas o canário se tornou uma ave canora excepcionalmente bela. Aí percebi que as trevas que o cercavam lhe habilitaram a concentrar-se melhor na música.

           — Certo! – arriscou a apreciadora – Fica entendido que quando você fecha os olhos para as virtudes, seus sentidos, especialmente o da audição, se tornam muito mais aguçados para apurar e espalhar “desvirtudes”!

           Em seguida, a responsável pela terceira Divisão, a unidade do interior, SANDY falou:

           — Eu depositei na Tralha um saco de areia, e ela me devolveu um copo cristalino, límpido, com o qual dei a beber ao presidente geral da empresa, depois o coloquei numa redoma protetora para lembrar a visita do ilustre à nossa Divisão.

           — Ok! – fala a apreciadora animosamente – Esse copo se tornou para você uma coisa muitíssima preciosa historicamente. Muitos irão ver, ali, o copo na redoma protetora de vidro e ouvir a história de como havia dado de beber ao presidente, mas ninguém mais beberá nele da mesma forma.

           Esse copo está também neste museu, ali na exposição de objetos pequenos. Depois irá vê-lo.

           Sim, voltando ao assunto referente ao processador, a responsável pela quarta Divisão MOLTEN, num momento de desespero, fez uma loucura, e queria contar sua experiência. Ficou, então, em pé e disse:

           — Joguei-me dentro do gavetão do equipamento como uma pedra bruta, áspera e sem brilho, logo fui sugada para uma fornalha de alta temperatura, mas não perdi a consciência, senti meu corpo diluir e escorrer para uma fôrma com minhas medidas, depois fui empurrada para fora, purificada e reluzente, onde, as coisas ao meu redor, refletiam-se em meu ser!

           — É!!! – persiste a apreciadora em mostrar seu modo de ver – No ponto de fundição, as escórias foram tiradas, mas foi mentalmente tão doloroso como fogo literal. Não vale a pena ser espelho para os outros, porque tira-se-lhes a originalidade, destrói-se-lhes a personalidade e perde-se-lhes o equilibro emocional.

            A quinta participante da reunião SINGE, meio tímida, criou coragem.

           — Eu precisei de algumas cópias de uma carta de demissão para alguns funcionários pobres de espírito, mas quando coloquei estêncil e álcool no gavetão do Instrumento, imediatamente, fui lambida por uma baforada de fogo, porém sem maiores danos, apenas queimou o original da carta e a intensidade da luz cegou-me completamente. Depois o próprio Instrumento encarregou-se de fazer o milagre de reabilitação. Quando dissipou a fumaceira, voltei a enxergar.

           — Quero dizer, – a apreciadora tartamudeou — você correu grande risco de perder a vida e, por cima, terá que conviver, em todos os lugares, com os pobres, até o fim! Não é proveitoso discriminá-los.

           Nessa hora, sentir-me um pouco amparado, não que eu seja pobre de espírito, mas, é que nunca se sabe o dia de amanhã, não é verdade? Então, a apreciadora virou-se para tomar um gole d’água, enquanto isso, a sexta participante FEEDER ajeitava seu rascunho. Ela veio de longe para a reunião, como o processador ficava em uma sala nos fundos da empresa e tinha hora certa para funcionar, ela entrou por trás. Aí começou falando assim:

 — Eu não queria ser vista almoçando naquele dia, por isso escondi-me num canto da sala onde o acessório fazia sombra. Foi quando o aspirador dele recolheu os restos de comida que deixei cair, mesmo antes que eu terminasse, então em seguida, ele fez um barulho estridente, e um cheiro de massa assando incidiou o ar no ambiente. Não demorou nada, o acessório começou lançar pão por todos os lados, encheu a sala. Foi uma multiplicação maravilhosa! A partir daí, as pessoas foram atraídas para a empresa.

 — Parece-me maravilhoso! – disse a apreciadora – Todos se fartarão de pão quentinho, mas virão à empresa só para comer. Não é um bom motivo.

           Continuemos, quando da última fileira falou, quem havia acabado de chegar: FANATICALLY! Representante da sétima Divisão, ela era muito dedicada à religião, talvez por isso se atrasou, e falou como se ainda estivesse na igreja:

           — Eu desafiei a máquina, dei cinco minutos para que ela me provasse a existência de Deus! Tirei o meu relógio do pulso e joguei-o no gavetão e esperei enquanto algumas pessoas nos arredores cochicharam: “Deus nunca permitirá que ela leve a melhor nessa questão!” Mas, à medida que os minutos iam passando, eu comecei a assevera que a crença em Deus não era nada mais que uma superstição. Decorrido os cinco minutos, eu disse exultantemente: Ó Máquina, ainda estou esperando! Não aconteceu nada! Apenas perdi meu tempo e meu relógio.

           — Boa justificativa para o seu atraso, – bradou a apreciadora – agora terá que comprar outro relógio e aprender a contar melhor o seu tempo.

           Meu companheiro, você está entendendo minha explicação?

           — Estou hipnotizado com a beleza de sua narrativa e só agora entendi que os fatos são multíplices!

           É verdade, nessa seqüência vou lhe falar agora da oitava Divisão. Era a unidade de divulgação e sua responsável HELPER queria saber notícias do filho da vizinha que tinha ido para os EE.UU.

           — Solicitei ao aparelho que ele fizesse contato com o rapaz ausente. Coloquei mais dinheiro no gavetão até a quantia de mil reais. Não me importava com o dinheiro que teria que gastar, só queria encontrar o jovem. O Aparelho levou duas horas para encontrá-lo e projetá-lo na parede caiada, o qual pôde responder as perguntas dos presentes através do vídeo-fone.

          A apreciadora disse:

           — Esta pode ser a solução para se encontrar as pessoas perdidas, mas não poderá encontrar o mundo perdido! Agora, encontre o meu mundo e o traga de volta para mim.

          Meu companheiro, parece-me está um pouco distraído? O melhor reservei para o final. A nona representante TRINKET, no mesmo ritual, disse:

          — Um dia eu me aproximei do gavetão sem nada para fazer e/ou dizer. Tirei da bolsa uma laranja, descasquei-a e comecei a chupá-la. O Material intrigado com minha indiferente atitude censurou-me, abrindo uma janelinha onde atrás de uma tela, estava uma luz piscando e com uma voz metálica, perguntou: “O que podes me oferecer”? Continuei chupando a laranja sem dizer nada, fiz de conta que não ouvi nada. Quando acabei meu disfarce, volvi-me para o Material e interroguei calmamente: diga-me, a laranja era doce ou azeda? “Como posso saber, tu quem chupaste a laranja, não eu!” Então não pode adivinhar? Continuei perguntando. “Não, transformar é tudo.” Assim respondeu ele e fechou a janelinha.

          A apreciadora não suportou aquele depoimento arrastado e interrompeu:

         — Minha amiga, nunca zombe de alguém por não ter provado alguma coisa.

          Assim, como os iguais se protegem, um depoimento atrai outro semelhante. Foi então, sem que ninguém solicitasse, a responsável da décima Divisão GREEDY manifestou, cabisbaixa e lentamente, sua experiência:

           — Eu trouxe da pesquisa de campo, um punhado de pedras, carreguei-as com muito sacrifício. Coloquei-as no gavetão e o petrecho devolveu-me diamantes, rubis e outras gemas. Agora estou de fato alegre e triste: alegre por haver carregado alguns seixos, e triste por não haver carregado quantidade maior!

           — Bom investimento! – fala a apreciadora – Os que se esvaziam inteiramente da ganância permanecerão alegres para sempre. Os que não puderam receber a plena medida da alegria, por causa da ganância em sua vida, ficaram tristes, muito tristes.

          Nessa hora, fez finca-pé e levantou-se como se tivesse pressionada. Era a LUKEWARM e antão disse:

           — Descobri que fortes e estranhas correntes de vento sopravam para dentro do Utensílio quando a temperatura caia e dele para fora quando a temperatura aumentava. Então coloquei barras de gelo no gavetão; antes mesmo que eu terminasse a tarefa, elas foram sugadas para dentro do mesmo. Com o funcionamento, pouco tempo depois, a temperatura subiu no interior do Utensílio, mas o gelo não derreteu e foram sopradas para fora curiosas estruturas de cristal de gelo em coloridos tão belos que vão desde o brilhante amarelo, até o rosa, o marrom e o azul escuro. Verdadeiras obras de arte!

           — Vento simboliza profeticamente poder, – considerou a apreciadora – e, ganha-se poder ou se perde, com a variação da temperatura do mercado, porém o homem é morno socialmente. Não há quem mude!

          Meu companheiro, vire-se para cá, veja, esse C.P.F era o documento da representante da décima segunda Divisão MORTGAGER, ela tinha muitos problemas com ele. Foi assim o que ela disse:

          — Eu me sentia presa com meu nome no SPC, pensei em fugir para um país onde tivesse liberdade de consumir, mas primeiro, busquei a ajuda do Mecanismo, depositei meu documento no gavetão, decorreram 24h, estava ansiosa para receber os primeiros resultados. Quando finalmente rompeu a alvorada na cidade, mesmo cansada aventurei-me a subir ao compartimento de cima e olhar para dentro do Mecanismo. O que vi não foi tranquilizador: os números estavam lutando desesperadamente e todos os que se encontrassem àquela posição correriam o risco de perder a vida, então tratei de descer rapidamente. Por volta das onze horas da manhã do outro dia, eu, prisioneira, fui convocada ao principal vestíbulo de nosso edifício, onde o ar era muito rarefeito, para um anúncio importante. O Mecanismo comunicava que eu estava livre, contudo, tecnicamente estivesse livre, levou ainda mais nove horas para que afinal, me encontrasse em poder de mãos amigas. E foram essas últimas horas que me requereram maior paciência.

          A apreciadora dá seu parecer:

          — Essa demora destinou-se a lhe ensinar a ter paciência, e o paciente não faz dívida.

          Já a NOSEY participou de modo diferente:

           — Eu me agachei – disse ela – diante da abertura inferior para ver como a Ferramenta se comportava. E se desse algumas cutucadinhas com um cabo de vassoura? Foi quando as rodas arrebataram-no em fração de segundo e me surrou sem piedade com centenas de pedaços de madeira que quando não acertavam em mim faziam buracos na parede.

           — Então esse dia foi um dia de vitória! – ironizou a apreciadora – A Ferramenta estava indicando apenas sua ineficiência.

           E digo, meu companheiro, que com a mesma formalidade de outras mais conservadoras, participou a representante da décima quarta Divisão LANGIVITE, dessa forma falou:

           — No meu plantão de guarda para cuidar da Engrenagem nas horas noturnas, levei uma rede, pois era fácil de conduzi-la. Armei-a em uma haste móvel da Engrenagem, a outra ponta a um gancho fixado na parede que estava no lado oposto. Assim que deitei, a haste disparou em movimentos de vaivém que impeliram a rede num balanço cada vez mais alto. Perto do auge de uma oscilação, a Engrenagem, sem razão aparente, empurrou-me para fora da rede. Fui arremessada pelo ar, mas em vez de cair, planei por sobre o corredor e pousei sobre o tórax e o abdômen sem sofrer o menor arranhão!

           Fala a apreciadora:

           — É, pular naquelas circunstâncias para uma mera apresentação, isso seria presunçoso. Eis a razão por que você não se machucou, enquanto outras pessoas normais ficariam gravemente feridas ou até perderiam a vida! Isto é tudo que precisamos saber para o momento.

           Para você vê, companheiro, uma coisa puxa a outra. PURETA levanta-se inspirada na fala anterior:

           — Fui à meia-noite para uma execução com o Estrupício, pois minha atitude tinha a ver com reputação. Tirei toda a minha roupa e coloquei-a no gavetão, pois reconhecia a decadência de minha aparência, que recomendava uma reforma total. Vi, pelos vidros das pequenas aberturas do corpo do Estrupício, uma substância informe que terminaria em novas peças de roupa. Logo que me troquei, meus hábitos, planos, sonhos e perspectivas mentais sofreram alterações. Meus pensamentos concentraram-se na nova roupagem. No começo só eu, depois meu marido e então meus costureiros ficaram inteirados de que eu estava com uma nova vestimenta. Dentro de algum tempo, outros ficarão sabendo desse fato sem que lhes seja contado. Com uma nova vestimenta, nunca mais mereci um minuto de solidão.

           — Quando se recebe uma roupagem nova, – fala a apreciadora – os hábitos, as aspirações, as atitudes tomam outra direção. Os pensamentos concentram-se na aparêcia, e à medida que o caráter continua a se desenvolver, outros ficam cientes do processo.

 Todos nós já estávamos estressados, mas ainda faltava a BLINDNESS, então às apalpadelas se locomoveu até o corredor da sala, preparando-se para a saída e disse:

           — Em uma das vezes em que vim de carro para trabalhar com a Estrovenga, quando eu estava dirigindo o automóvel em alta velocidade, algo penetrou nos meus olhos e por isso me apresentei diante dos receptores da Estrovenga onde tinha espelhos que eu pudesse ver melhor os meus olhos, como se me consultasse ao médico, e um médico idoso de cuja visão já estava em declínio, depois de alguns minutos de exame, recebi um esguicho de colírio nos olhos, sentir intensa dor cauterizante e gritei! Não vi mais nada. A última imagem gravada em minha memória visual foi a do meu próprio rosto. A investigação posterior revelou que a Estrovenga velha pegou, por engano, uma outra substância que não tencionava usar.

           Fecha a apreciadora:

           — Todo o cuidado com os olhos é pouco, – admitiu ela distraidamente – quer suas intenções fossem boas ou não, o fato é que você ficou totalmente cega.

           Meu companheiro, gostaria de poder lhe contar mais sobre o PDE, porém o expediente encerrou, volte sempre, o museu estará totalmente ao seu alcance.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 12/08/2009
Código do texto: T1749610

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