Crônica
ALCANÇANDO AS VITÓRIAS (Dobradinha brasileira)
Era de conhecimento geral que nosso Personagem Atleta tinha uma pergunta favorita nos locais de inscrição: — A Vitória vai correr?
Vitória era uma jovem cobiçada. A princípio, a preocupação do atleta parecia incompreensível, já que ele possuía condições físicas superiores e mais tempo de prática. Além disso, em corridas de rua, homens e mulheres não disputam o mesmo prêmio. O mistério era que ele nunca conseguia imprimir uma velocidade superior à dela, tratando-a como uma espécie de "puxadora". Por que ele preferia ser puxado em um ritmo tão lento? E, o que era mais estranho: ele não reagia aos incentivos da torcida, correndo sempre com uma concentração enigmática.
Em quê? Não se sabia. Esse mistério persistiu até que, após uma dessas "provas de rua", sua postura mansa o traiu. Uma fotografia flagrou o Personagem Atleta e Vitória; pela disposição das imagens, notou-se que ele não havia sido convidado a posar, estava um pouco desajeitado, mas seu olhar estava direcionado de forma inconfundível para as partes inferiores da moça.
O quebra-cabeça finalmente se montou: ela corria sempre com um shortinho de lycra rosa, curtíssimo! Preso ao devaneio, ele mal precisava de imaginação para se distrair.
Enquanto a foto circulava, em meio a comentários maldosos, alguém concebeu uma ideia brilhante para ajudar o Personagem Atleta, um verdadeiro teste de atração fatal. — Mas, que ideia brilhante é esta? — perguntou um dos presentes em meio às gargalhadas.
O plano foi simples: convidar Vitória, usando os mesmos trajes, para fazer o percurso da próxima competição no "carro madrinha". Ela aceitou sem hesitar, e o carro foi preparado para que ela ficasse bem exposta, simulando a função de apontar o caminho. Para disfarçar a armação, ela adotou um comportamento de fachada, mantendo o pé direito enfaixado.
Chegada a hora, o carro "isca" posicionou-se diante do pelotão para a largada. Quem estava bem na frente, logo atrás do veículo, era o Personagem Atleta! Ele parecia sedento, pronto para persegui-la.
A largada foi dada para a prova de 10 km, que contava com a participação de 400 atletas, em celebração ao aniversário de uma das cidades satélites de Goiânia. Por ser feriado, o percurso estava repleto de espectadores. Todos os demais competidores tinham a motivação comum para uma boa corrida; o nosso Personagem, no entanto, tinha uma motivação extra e obsessiva.
Aos 5 km, ele foi visto liderando a prova, de boca aberta, quase babando. O carro controlava sua velocidade, e ele não queria, de forma alguma, perder o objeto de sua fixação de vista. Com essa mesma obsessão incontrolável, a plateia teve de aplaudi-lo: pela primeira vez, ele conquistou uma competição.
Campeão! A Vitória e a vitória foram conquistadas!
O texto levanta uma reflexão irônica e final: Como ajudar alguém a alcançar a vitória quando esse alguém só quer a Vitória?
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Ótima escolha de texto! Embora seja uma narrativa aparentemente leve, ela nos permite explorar conceitos sociológicos relevantes sobre motivação social, espetáculo, gênero e controle.
Abaixo, como seu professor de Sociologia do Ensino Médio, preparei 5 questões discursivas e simples para guiar a análise crítica dos meus alunos sobre a história do Personagem Atleta e a Vitória.
1 - Motivação e Ação Social (Max Weber): O Personagem Atleta, com condições físicas superiores, só atinge a vitória quando sua motivação se torna puramente afetiva e não racional (a obsessão por Vitória). Com base no conceito weberiano de Ação Social, diferencie a ação do Atleta durante as corridas anteriores (lenta, apesar do potencial físico) e a ação final (veloz, motivada pela proximidade de Vitória).
2 - O Corpo Feminino como Espetáculo e Meio de Controle: Vitória, mesmo não competindo, é colocada no "carro madrinha" em trajes curtos para ser a "isca". Analise como o corpo feminino, neste contexto, é transformado em um objeto de espetáculo e, ironicamente, em um instrumento de controle (o carro madrinha controla a velocidade do atleta) e de motivação masculina, desviando o foco da competição esportiva pura.
3 - A "Vitória" Além da Competição (Performance e Status): O texto brinca com a dupla conquista: "A Vitória e a vitória foram conquistadas!". O sucesso do Atleta é alcançado por uma motivação externa (a atração). Discuta a ideia de que, na sociedade contemporânea, o verdadeiro status e o reconhecimento social muitas vezes não vêm apenas do esforço racional ou do mérito esportivo, mas sim da performance (a liderança da prova, mesmo que motivada por obsessão) ou da satisfação de um desejo não relacionado à regra.
4 - A Moralidade da Ajuda e a Ética: A "ideia brilhante" dos amigos para ajudar o Atleta é baseada em uma manipulação da situação (usar a atração dele por Vitória como combustível). Do ponto de vista da moralidade e da ética social, como você avalia essa forma de "ajuda" que subverte a essência da competição (a busca pela vitória pelo mérito atlético)?
5 - O Papel do Público e o Fenômeno do Voyeurismo: O público, ao longo do percurso, aplaude o Personagem Atleta por sua liderança, ignorando a verdadeira e ridícula motivação por trás do seu desempenho (ele correndo "de boca aberta, quase babando"). Analise como a espetacularização do evento esportivo e a postura do público (que ri da situação, mas aplaude o resultado) reforçam a aceitação de um desempenho motivado por algo fútil, desde que o resultado (a vitória) seja alcançado.


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