Ensaio Teológico VII(4) “Redefinindo a Sabedoria e a Compreensão: Uma Abordagem Contemporânea à Teologia de Gênero”
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma imagem antiga, gravada nos capítulos 7 e 9 do livro de Provérbios, que ainda hoje ronda o imaginário religioso ocidental: de um lado, duas figuras femininas — a Sabedoria e a Compreensão — chamando o jovem à porta da cidade; do outro, a mulher estranha, a "Loucura" personificada, sussurrando promessas de mel e ruína. Confesso que, ao reler esses textos pela enésima vez, alguma coisa em mim se incomoda. E não é pela beleza poética da alegoria, que continua inegável, mas pelo que ela parece ensinar, quase nas entrelinhas, sobre quem deve orientar e quem deve ser temida. A pergunta, então, não desaparece com a leitura; pelo contrário, fica ali, feito espinho na consciência: por que a sabedoria precisa vestir-se de mulher, enquanto a loucura também recebe um rosto feminino?
É justamente esse incômodo que quero investigar. Não se trata de descartar o texto sagrado, muito menos de jogá-lo pela janela só porque ele não cabe confortavelmente nas perguntas do nosso tempo. Trata-se de tensioná-lo, de colocá-lo diante do espelho e perguntar o que ele ainda pode nos dizer — e também aquilo que nós, leitores de hoje, conseguimos enxergar nele que seus primeiros leitores talvez não enxergassem. Afinal, ler também é conversar com o passado. E conversa de verdade não acontece quando um lado apenas fala e o outro permanece de boca fechada.
Kant nos lembrou que o esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade — "da qual ele próprio é culpado". Se levamos a sério essa provocação, cabe perguntar: por que a autonomia masculina, nessa tradição, aparece tantas vezes mediada por uma figura feminina — seja para elevá-lo, seja para condená-lo? Em Provérbios, a mulher frequentemente funciona como cenário moral da experiência masculina: de um lado, a mulher que representa a virtude; de outro, aquela que encarna o perigo. Em ambos os casos, o foco parece continuar sendo o homem que observa, escolhe, cai ou se salva. A mulher, então, corre o risco de deixar de ser sujeito para transformar-se em espelho: reflete a virtude ou o vício daquele que a contempla. Sabedoria e Loucura são, nesse sentido, projeções — não pessoas.
É aqui que aparece a primeira fenda que proponho abrir. Talvez a Sabedoria e a Compreensão não precisem ser aprisionadas a uma leitura de gênero. Talvez possam ser compreendidas, antes de tudo, como metáforas de uma disciplina interior, de uma consciência que se constrói no caminho. Afinal, "a sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria" (Provérbios 4:7). Sabedoria não deveria ser propriedade de homem ou mulher; deveria ser conquista humana. Ela se cultiva no estudo, no erro, na escuta, na experiência, na capacidade de rever certezas e, sobretudo, na disposição de aprender com o outro. A questão deixa de ser, portanto, "qual mulher deve conduzir o homem?" e passa a ser outra, bem mais incômoda: que espécie de consciência estamos formando para conduzir a nós mesmos?
Mas, seria ingênuo parar por aí. Há uma tensão que não posso simplesmente contornar, porque ela está no coração da própria reflexão. Uso a Bíblia — Gálatas 3:28, "não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus" — para relativizar uma leitura tradicional da própria Bíblia. Parece contradição? E é mesmo. Mas, é uma contradição fértil, dessas que fazem a cabeça trabalhar em vez de apenas balançar afirmativamente. Cito a tradição contra a própria tradição porque acredito que todo texto sagrado carrega, dentro de si, sementes capazes de provocar sua própria superação ética. Não vejo isso como traição ao texto, mas como fidelidade ao seu espírito mais generoso. Um texto que fala de justiça, igualdade, amor e dignidade também pode ser chamado a responder quando determinadas leituras dele passam a produzir desigualdade, medo ou submissão.
Quanto à "mulher estranha" de Provérbios 7 — figura de quem Simone de Beauvoir talvez dissesse que "não nasceu mulher perigosa: tornaram-na assim" —, prefiro enxergá-la menos como uma ameaça real e mais como um sintoma de seu tempo. O que está em jogo talvez não seja simplesmente uma mulher sedutora tentando destruir a virtude de um jovem, mas o velho medo de que o desejo feminino, quando escapa ao controle estabelecido, desorganize a ordem masculina, familiar, religiosa e social. O problema, nesse caso, não estaria apenas no desejo, mas naquilo que uma sociedade teme quando já não consegue administrá-lo. A mulher desejante torna-se perigosa porque, numa estrutura construída para controlar o desejo feminino, sua liberdade parece uma espécie de desobediência.
E talvez seja justamente aí que Provérbios 7 e 9 possam conversar com o nosso tempo de maneira inesperada. A Sabedoria e a Loucura, embora apresentadas como figuras femininas, podem ser relidas como duas possibilidades que atravessam qualquer ser humano. Todos carregamos a capacidade de discernir e também a tentação de agir sem discernimento. Todos podemos transformar o conhecimento em prudência ou em arrogância; o desejo em encontro ou em posse; a liberdade em responsabilidade ou em irresponsabilidade. Quando retiramos dessas figuras o peso exclusivo do gênero, elas deixam de ser mulheres exemplares ou perigosas e passam a representar conflitos que pertencem à própria condição humana.
Por isso, encerro sem prescrições fáceis, porque a vida — e muito menos a Bíblia — não cabe numa receita de bolo. Não creio que homens precisem de duas mulheres para orientá-los, nem de uma para temer. Creio que precisamos, todos, da coragem kantiana de pensar por nós mesmos e, ao mesmo tempo, da humildade de reconhecer que pensar por si mesmo não significa pensar sozinho. Talvez a verdadeira sabedoria comece exatamente quando deixamos de procurar mulheres que representem nossa virtude ou nosso perigo e passamos a reconhecer nelas, como em qualquer outro ser humano, sujeitos inteiros, livres, contraditórios e donos de sua própria história.
No fim das contas, talvez a grande lição de Provérbios não esteja em escolher entre a mulher que salva e a mulher que perde, mas em abandonar essa própria lógica. Porque, quando a consciência amadurece, já não precisamos transformar o outro em anjo ou demônio para compreender quem somos. Basta coragem para pensar, humildade para escutar e liberdade para rever aquilo que herdamos. Nas fissuras dos textos antigos, afinal, ainda podem existir convites que não ouvimos completamente. E talvez seja justamente aí, nesse intervalo entre a palavra herdada e a consciência que desperta, que a sabedoria continue batendo à nossa porta.
Com base nesses temas, proponho as seguintes questões discursivas:
O texto critica a ideia de que os homens precisam de mulheres para orientá-los. De que forma essa visão tradicional sobre as relações de gênero influencia o comportamento de homens e mulheres na sociedade atual?
A caracterização da prostituta como uma ameaça constante é considerada problemática no texto. Como essa visão contribui para a construção de estereótipos sobre as mulheres e para a perpetuação de desigualdades de gênero?
O texto questiona a utilização de textos religiosos para justificar a submissão feminina. Como a religião pode ser usada tanto para promover a igualdade quanto para justificar a desigualdade?
A ideia de autonomia individual é central no texto. O que significa ser autônomo em uma sociedade que valoriza a conformidade e a obediência?
O texto defende a importância de construir uma ética baseada na igualdade e no respeito mútuo. Como podemos promover a construção de uma sociedade mais justa e igualitária a partir da escola?





