"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

domingo, 3 de dezembro de 2017

CONFRATERNIZAÇÃO versus FUNERAL: Discursivas sobre Indivíduo e Convivência Social ("Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência." — José Ortega y Gasset)


Crônica

CONFRATERNIZAÇÃO versus FUNERAL: Discursivas sobre Indivíduo e Convivência Social ("Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência." — José Ortega y Gasset)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Por volta de dezembro, no fechamento do quarto bimestre escolar, somos convidados para a tradicional festa de despedida dos professores. Minha aversão a essas confraternizações é conhecida, fruto de certa intransigência tanto com o ambiente de trabalho quanto com o lazer de meus colegas. O cerne do meu desagrado repousa nos hábitos que essas reuniões celebram: o consumo de carne e cerveja, a música alta e a obrigação tácita de contribuir para a farra, como levar carne para o churrasco. Essa expectativa me incomoda profundamente, pois sinto que tal adesão não condiz com a postura que se espera de um indivíduo diplomado. A convivência ideal é uma arte que exige aprendizado, e embora eu reconheça a necessidade de evoluir nesse campo, peço apenas que me respeitem enquanto busco socializar sem manifestar abertamente minha contrariedade.

Mesmo tendo participado de diversos momentos festivos na escola, o ambiente social fora da sala de aula nunca me pareceu o mais adequado. Há sempre o risco de que, ao relembrar histórias do passado ou lamentar as agruras da profissão, caiamos em excessos que depois pesam na consciência. Isso me remete à célebre frase de W. Somerset Maugham: "Sempre me interessei pelas pessoas, mas nunca gostei delas." Minha postura, portanto, é de respeito inegociável, não de afinidade irrestrita. O que me atrai no ser humano é sua dimensão sociológica, não a camaradagem forçada que certas festividades insistem em impor.

Essa resistência encontra eco na sabedoria bíblica, que valoriza a reflexão sobre a finitude. Como afirma Eclesiastes 7:2, "Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porquanto este é o fim de todo ser humano; e deste modo, os vivos terão uma grande oportunidade para refletir." Tal perspectiva reforça minha recusa a emoções desequilibradas, tão comuns nesses eventos. Receber elogios, por exemplo, pode empoderar-me em excesso, evidenciando o quanto é difícil conciliar razão e instinto. O desregramento interior — frequentemente impulsionado por um "anjo farrista" que maldigo — confirma minha convicção de que um funeral, desde que não seja o meu, oferece oportunidade muito mais fecunda para a introspecção e a sobriedade.

Assim, mesmo reconhecendo a importância do convívio e esforçando-me pela socialização, valorizo mais o instante que conduz à reflexão lúcida sobre a existência do que a euforia fugaz de uma celebração. Não busco afeto ou compreensão forçada de quem me cerca; aceito-os como são, mantendo o que me é essencial. Minha luta interna reside em preservar coerência e integridade em um contexto que insiste no oposto, escolhendo a clareza crítica em vez da vulnerabilidade emocional típica das grandes festividades.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-


Como seu professor de Sociologia, preparei cinco questões discursivas simples baseadas no texto. Elas exploram os conceitos de normas sociais, papéis, socialização e a tensão entre o indivíduo e o coletivo presentes na narrativa. Lembrem-se de usar uma linguagem clara e de fundamentar suas respostas nas ideias sociológicas e nos elementos do texto.


1. Papel Social e Expectativas

O narrador expressa desconforto com a confraternização, afirmando que a adesão a certos hábitos (churrasco, bebida, etc.) "não condiz com a postura que se espera de um indivíduo diplomado". Explique, em termos sociológicos, o que são papéis sociais e expectativas sociais. Em seguida, analise o conflito vivido pelo narrador ao tentar conciliar o seu papel profissional (professor/diplomado) com o papel social imposto pela confraternização.

2. Normas e Anomia

O texto descreve hábitos como "consumo de carne e cerveja" e "música alta" como elementos centrais das confraternizações de que o narrador discorda. Esses hábitos representam normas informais do grupo. Defina o que são normas sociais (ou informais) e discuta o que pode acontecer (em termos de inclusão/exclusão social) quando um indivíduo demonstra intransigência ou recusa em seguir as regras não escritas de um grupo.

3. Socialização e Seletividade

O narrador cita W. Somerset Maugham: "Sempre me interessei pelas pessoas, mas nunca gostei delas." Ele afirma que sua postura é de respeito inegociável, não de afinidade irrestrita, e que se interessa pela dimensão sociológica do ser humano.

Análise a frase à luz do processo de socialização. O que significa, para a vida social de um indivíduo, ser seletivo em suas interações e priorizar o interesse intelectual (sociológico) sobre a camaradagem forçada?

4. A Reflexão sobre a Finitude e o Desregramento

O texto utiliza a sabedoria de Eclesiastes para valorizar a reflexão e a sobriedade (ir a uma casa em luto) em contraposição ao desregramento e à euforia (ir a uma casa em festa). Argumente sobre como a consciência da finitude (o fim de todo ser humano) pode influenciar a conduta ética e as escolhas de um indivíduo em sociedade, ajudando a conciliar razão e instinto (conforme mencionado pelo narrador).

5. Coerência Pessoal e Pressão do Grupo

O texto conclui que a luta interna do narrador é preservar coerência e integridade em um contexto que insiste no oposto, escolhendo a clareza crítica em vez da vulnerabilidade emocional típica das festividades. Em um contexto de Sociologia da Educação ou do Trabalho, discuta a importância de o indivíduo manter sua coerência e integridade pessoal (sua "verdade") mesmo diante da pressão do grupo por adesão total.

Comentários

domingo, 26 de novembro de 2017

OU SEJA, OU MELHOR, ENCCEJA NELES! (A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais. — Aristóteles)






Crônica

OU SEJA, OU MELHOR, ENCCEJA NELES! (A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais. — Aristóteles)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           

Crônica

OU SEJA, OU MELHOR, ENCCEJA NELES! (A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais. — Aristóteles)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           O ENCCEJA promete chuva de diploma, com méritos rasos, habilitando, para o Enem, quem não estudou de forma suficiente e supervalorizando o atalho. "Um reino dividido não subsistirá". Com que ânimo, os outros jovens frequentarão paulatinamente a modalidade regular? 
            E a Educação, cada vez mais, merecendo o respeito que a sua injustiça conquistou! "Para fazer o Encceja é preciso ter pelo menos 15 anos (para quem precisa do certificado de ensino fundamental) e 18 anos (para certificação de ensino médio). Essas são idades mínimas para que estudantes que eventualmente estejam em ensino regular não tentem fazer o exame para 'adiantar' diplomas". 
           Porém, há um forte incentivo à irresponsabilidade pedagógica de todas as partes. Os jovens vão atrapalhar as aulas ainda mais até chegar a idade recomendada, então ENCCEJA neles, depois o diploma os perseguirá. E a inscrição grátis no Enem é um direito conquistado sem prestígios. Justifica Mendonça Filho: – "O Enem não servirá como instrumento de certificação e conclusão de ensino médio, e sim como instrumento de acesso ao ensino superior, pois termina exigindo de um jovem ou adulto que queira a certificação no ensino médio mais do que seria necessário, é uma imposição de um ônus, de ter que ter um conhecimento a mais, para aqueles que só querem ter uma certificação no ensino médio". ( Como se fosse ruim exigir que os brasileiros tivessem "um conhecimento a mais"). 
           Então, vamos nos contentar com o diploma sem o conhecimento correspondente! Os inocentes que parecem querer somente um certificado, poderão fazer o Encceja quantas vezes forem necessárias até conseguir, e o Enem estará garantido com nota acima de "zero" na redação. — "Todos aqueles que tenham realizado o Encceja Nacional em anos anteriores e não obtiveram média para aprovação na área de conhecimento, poderão inscrever-se novamente no Exame para eliminação do componente curricular desejado, caso tenham interesse."
           Nesse caso, os iguais agravam a desigualdade! Esses favorecidos de notas mínimas, "Sisurados" para os cursos de licenciatura de baixa procura são eles mesmos os professores do futuro, e a qualidade de nosso sistema educacional de mau a pior. Na verdade, estes acobertados pela Portaria Ministerial nº 3.415, de 21 de outubro de 2004, são os protagonistas da distorção série idade não porque não tiveram oportunidade, foi porque não as aproveitaram, são os refugos do ensino regular. O governo maternal mantém-nos supridos de tudo: Desde quando me entendo por gente, há ensino público e gratuito, com livros, e uniforme, e lanche até transporte escolar. Os que querem só as benécias deixam-se reprovar, para desfrutar por mais tempo. Até que cheguem ao ensejo da idade mínima permitida para a diplomação fácil. Pois, a certeza das misericórdias lhes descansa. A repescagem é um esforço que vale dinheiro. Refiro-me ao credenciamento de verbas para a unidade escolar a partir da quantidade de alunos matriculados, sem se importar com a qualidade.
            É assim que se valoriza o professor?
Kllawdessy Ferreira

Comentários

Enviado por Kllawdessy Ferreira em 19/11/2017
Reeditado em 26/11/2017
Código do texto: T6176127 
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 18 de novembro de 2017

GOZANDO (COM) LICENÇA! (O trabalhador só se sente à vontade no seu tempo de folga, porque o seu trabalho não é voluntário, é imposto, é trabalho forçado." — Karl Marx)



Crônica

GOZANDO (COM) LICENÇA! (O trabalhador só se sente à vontade no seu tempo de folga, porque o seu trabalho não é voluntário, é imposto, é trabalho forçado." — Karl Marx)

por Claudeci Ferreira de Andrade

             Hoje, entro em descanso de "apenas" seis meses, são duas licenças-prêmios por trabalhar vinte e cinco anos ininterruptos, no serviço público, como professor. Meu depósito de energias já se encontrava vazio, agora, até meus poros esperam abertos por alguma força. Folgadamente me movo feliz, sem estresse, e o tempo processa minha transformação e credencia essa nova etapa de minha vida. Outrora, podia contar mais com a vitalidade do encanto pessoal, mas agora já há muitas impossibilidades, devido a idade. Tenho por direito adquirido mais três licenças-prêmios. É um direito conquistado, porém é muito difícil tomar posse dele. Por isso, estou deixando para reivindicar o usufruto depois, detesto mendigar, não sei me impor. Apenas exerço minha cidadania. "Algumas pessoas procuram os padres; outras a poesia; eu, os meus amigos." (Virginia Woolf). Sigo o conselho de Sêneca: "Conversa com aqueles que possam fazer-te melhor do que és." Por aqui só com ajuda dos políticos. 
             Então, minha grande meta para essas "férias" diferenciadas é resgatar o prazer pela vida e a existência de mim mesmo, quem sabe o descanso ressignifique minha atuação social?! Porque com aquelas movimentações de conselhos de classe e problemas todos os dias, faz o clima muito tenso, mostrando-nos cruelmente a realidade do sistema educacional. 
           A esta altura, alguns alunos que me encontraram na rua, afirmaram que só ganhei a licença por que tinha muitas reclamações a meu respeito. Como obtiveram essa informação? Todavia, não posso largar tudo agora, estou velho demais para começar tudo de novo em outra função, o jeito é pegar o osso e não largá-lo até quebrar os dentes! Ou bem jogo a toalha, ou ainda, encarar o cabresto da aposentadoria, se consegui-la antes da morte. 
           Ainda reclamo com razão, é verdade que já tive minha oportunidade de glória; todavia, sabemos que as portas se abrem mais facilmente para quem tem boa aparência, portanto não gozo deste privilégio. Pode soar estranho, mas infelizmente, ou felizmente, é assim mesmo que tratam os professores no fim da carreira. Sei que o que me falta na aparência ganho nas virtudes: um conforto ilusório, porque idoso é velho! Mas ainda, quem se importa com as virtudes dos outros? Tenho valor e um enorme potencial, porém como posso me aliar às modinhas? Vivo em um mundo de aparências e fusão dos gêneros, coisas que ainda me são estranhas!!!
Kllawdessy Ferreira

Comentários
Enviado por Kllawdessy Ferreira em 03/11/2016

Reeditado em 18/11/2017
Código do texto: T5812209 
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 11 de novembro de 2017

ENEM DE TODOS OS ANOS (Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil — ENEM 2017)





Crônica

ENEM DE TODOS OS ANOS (Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil — ENEM 2017)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Uma redação que valha nota 1000, com esse tema, não pode se enviesar pelos caminhos já conhecidos e sem destino. Os que supostamente ajudam na inclusão social dos deficientes auditivos, as tais professoras de apoio, pelo contrário, promovem a persistência da discriminação já existente, inconsciente ou intencionalmente, pois não querem perder seu "ganha-pão". Não é cota e nem a oficialização de uma segunda língua que seria a grande solução, mas, humanismo sincero e o abraçá-los com as tecnologias; um aparelho auditivo resolveria o problema da surdez nessa minoria de nossa gente, diminuindo a desigualdade, dando ao deficiente possibilidade de se equiparar pelas vias normais com todos os brasileiros sem o estigma da dependência. Ou a redação nota 1000 é aquela que defende a imposição ao povo brasileiro de aprender Libras para poder se comunicar com os surdos? '«Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha.»' Quem vai querer estudar libras, senão os parentes bem próximos do deficiente auditivo e/ou um profissional com interesse na área! Ensinar libras é mais barato para o Estado do que implante coclear?
            Do que adiantará a instituição obrigatória do estudo de Libras no currículo dos licenciandos em pedagogia, se toda vida já houve a obrigatoriedade de Língua Inglesa, desde o fundamental, e pouquíssimos brasileiros falam, leem e escrevem em inglês? E diga se de passagem, os que aprenderam frequentaram curso específico em escola especializada e muito empenho. Agora, o milagre da inclusão social é o estudo obrigatório da linguagem de sinais em escolas públicas?
            É pena que as redações do Enem não servem para mais nada, senão para garantir uma vaga na universidade; embora tenham boas defesas de ótimas ideias e excelentes intervenções. Qual é o grande objetivo do tal ENEM? Tem mais a ver com quantidade do que qualidade? Se as avaliações fossem sérias nas escolas, e alunos galgassem séries com mérito, não precisaria dessa comoção nacional que destrói a autoestima de muitos reprovados, e promove a fraude, e outras desonestidades, na ânsia de prosseguir nos estudos a qualquer preço. Visto que os jovens já são selecionados com provas e entrevistas no mercado de trabalho, deveriam também sê-los nas escolas continuamente e entrar direto para o curso superior já que terminou a contento o Ensino Médio profissionalizante. 
          Eu desconfio que as intenções para com a redação do Enem são somente duas: justificar a seleção dos supostos melhores universitários e descobrir profetas! Pois, adivinhar o tema já é uma boa iniciativa. Sobretudo, isso não é indicador de conhecimento, porque clarividência é sobrenaturalidade. Se fosse para selecionar mesmo, então imagina 4 milhões de jovens brasileiro estudando um tema pré-anunciado, a profundidade que teriam a produção textual! Todos em busca de inovação, algo inédito e original. E a qualidade das teses seria outra, e todas as redações serviriam para compor um livro enriquecedor para as gerações futuras. E, os trabalhos produzidos seriam de grande contribuição para o crescimento científico. Por isso digo que o Enem, além de arrecadador, deveria ser um evento de grande motivação para estudo e pesquisa. E o governo poderia apresentar temas sociais e científicos que fosse problema de difícil solução para a maioria, como um concurso de jovens cientistas. Todavia, não é isso que acontece, eles tocam superficialmente nisto e naquilo e não se aprofundam em nada. Afinal, aprofundar em quê, se ninguém adivinha. Muitos nem sabem qual curso querem fazer na faculdade, pois vêm de um Ensino Médio genérico! Então toma o rumo que a nota do Enem lhes permite. "Somos um povo cansado de só responder gabaritos em simulados de provas do Enem. A Educação só liberta quem aprendeu a argumentar." (Elenilson Nascimento). Para constatar o que digo, na última edição do Enem (2022), dos mais de 2 milhões de candidatos, só 22 conseguiram tirar nota mil na redação. O que eles fizeram de extraordinário para atingir a pontuação máxima? “O direito de todos estarem juntos não é maior que o direito individual ao desenvolvimento”, apontou o MEC, em 2020.
Kllawdessy Ferreira

Comentários
Enviado por Kllawdessy Ferreira em 06/11/2017

Reeditado em 11/11/2017

Código do texto: T6164586 

Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 4 de novembro de 2017

O AMOR DE MUITOS ESFRIARÁ ("Muitas vezes não temos tempo para dedicar aos amigos, mas para os inimigos temos todo o tempo do mundo!" — Leon Uris)



Crônica

O AMOR DE MUITOS ESFRIARÁ ("Muitas vezes não temos tempo para dedicar aos amigos, mas para os inimigos temos todo o tempo do mundo!" — Leon Uris)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           Detesto receber visitas em minha casa: meu refúgio! Ainda mais de pessoas portando crachá da largura do peito. Vivo no tumulto do ambiente escolar, cheio de gente que não tenho certeza da amizade. Quando venho para casa, quero me esconder. Ninguém é bem-vindo, até porque nunca me apareceu alguém, trazendo-me presentes. Os poucos vêm só minar o tempo que me sobra para ensaiar umas notas no violão, e ler alguma texto importante; exceto: Gosto da visita dos funcionários dos correios, porque os atendo lá fora, pego a encomenda e os despeço ali mesmo, eles têm pressa de fazer o seu trabalho. Eu sou como eles, minhas visitas sempre têm um motivo nobre. Por isso, prefiro ir visitar as pessoas quando sinto saudade, pois sei que elas só convidam quando precisam da gente, aí sou rápido, como quem tem uma missão a cumprir, sei exatamente a hora de ir embora. Não incomodo ninguém. E adoro as dicas de inconveniência, "manco-me" logo. 
           Gosto de ter poucos amigos, só os que respeitam minha solidão, e se você não ligar para  mim, protege-me de si. 
           Hoje, pela primeira vez,  fui, sem convite, visitar um amigo de infância, a fim de me encontrar com o passado, há muito já sem detalhe. Cheguei e imediatamente fui pedindo o álbum de fotografia da família para recordar nossa infância. Encontrei uma relíquia em seus amontoados de fotografias. Então, achei essa muito importante, não me lembro o ano, e nem ele se lembrou mais, apenas sei que foi uma participação minha em um festival de música popular, em Araguaína- To, talvez nos anos 80. Fiquei bastante contente. Isso prova que tentei ser artista. Não no estilo contemporâneo, mas à moda antiga! Todavia não nasci para ter fãs! Mas, meus lamentos, estre outras reclamações, percebendo o lado negro da solidão, é que serei encontrado morto qualquer dia destes. "Quem mora só não morre, é encontrado morto". Quem sabe fui avisá-los que agora está mais próxima minha partida eterna.
            Sobretudo, deve haver um lado bom nas amizades! Nesse caso, Johann Goethe está com a razão: "A amizade é como os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa."
Kllawdessy Ferreira

Comentários
Enviado por Kllawdessy Ferreira em 03/11/2016
Reeditado em 04/11/2017
Código do texto: T5812207
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 28 de outubro de 2017

Quando o Riso Fere: a Violência Invisível que Antecede o Gatilho ("A justiça é o direito do mais fraco. — Joseph Joubert)



Crônica

Quando o Riso Fere: a Violência Invisível que Antecede o Gatilho ("A justiça é o direito do mais fraco. — Joseph Joubert)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Mergulhar no caso do Colégio Goyases é como encostar numa ferida que o tempo se recusa a fechar. Não é cicatriz — é carne viva. Fica ali, latejando em silêncio, só esperando um descuido para sangrar de novo. Diante de um horror desses, a reação quase automática é apontar o dedo para quem puxou o gatilho. Dá um certo alívio, né? Como se bastasse isso. Mas, no fundo, essa pressa em achar um único culpado tem mais de fuga do que de justiça. Porque aquilo ali não nasceu de repente — foi sendo cultivado, dia após dia.

O bullying, esse crime sem manchete, não explode de uma vez. Antes, ele corrói. Vai desgastando por dentro, em pequenas doses, quase invisíveis, até que o invisível vira insuportável. Não, não é “coisa de criança”. É violência em estado bruto — só que maquiada de riso, de piada, de “brincadeira”.

Sempre aparece alguém para simplificar o caos com rótulos prontos — “maldade”, “desvio”, “ideologia”. É confortável pensar assim. Dá aquela sensação de controle. Mas, conforto não explica tragédia nenhuma. Como bem lembra Dhiogo J. Caetano, “culpar o outro é um escapismo diante da omissão dos fatos e a não compreensão dos efeitos”. A verdade, essa sim, incomoda: ninguém colhe o que não foi plantado. E ali, naquele ambiente, o que se semeava todo dia era humilhação.

Os colegas sabiam. Viram. Alguns riram. Outros preferiram o silêncio. E, olha, silêncio nessas horas não é neutralidade — é cumplicidade das mais eficientes.

É aqui que a reflexão pede coragem. Não para passar pano para o erro, mas para encarar o que levou até ele. Quando as instituições falham — escola, família ampliada, Estado — quem tá acuado não deixa de sentir, não. Só deixa de ser amparado. E quando a dor não encontra palavra, ela arruma outro jeito de sair. Nem sempre o certo, quase nunca o aceitável — mas ainda assim, uma saída.

“A paz só se conquista com a Justiça!”, lembra Hermes C. Fernandes. E justiça não é só correr atrás depois do estrago feito. Justiça de verdade é impedir que o processo chegue a esse ponto.

A gente chora — e tem que chorar — pelos mortos. Mas existe uma outra morte, mais lenta, que quase nunca comove: a de quem vai sendo desmontado por dentro, um pouco a cada dia, diante de todo mundo. O menino não era só “o alvo”. Era alguém. Talvez com um sonho guardado, desses que a gente nem conta para não virar piada. Talvez gostasse de coisas simples — desenhar, ouvir música baixinho, imaginar um futuro onde fosse visto sem ser julgado. Talvez tivesse um sorriso que foi sumindo aos poucos… até sobrar só o vazio de quem já não se reconhece.

Aí veio a tal “brincadeira”. A campanha do desodorante. Para alguns, besteira. Para quem recebe, uma pancada. Porque não é sobre cheiro — é sobre pertencimento. Ou melhor, sobre a negação dele: “você não pertence”.

Cláudia Hanna capta isso com precisão quando diz que “existem situações que vão acabando com a pessoa, coisas que quem está de fora acha besteira, mas para quem é o alvo da chacota, sofre muito”. Não é comentário solto — é um alerta. Um desses que a gente ouve, mas insiste em não escutar direito. Respeitar o outro como ele é não devia ser lição aprendida depois da tragédia. E, mesmo assim, a gente continua aprendendo no tranco.

Só que aqui cabe um freio: nada de cair no fatalismo. Não, a paz não pode depender do medo da próxima tragédia. Se for assim, não é paz — é só um silêncio tenso, uma convivência à base de receio. O que precisa é outra coisa: mudança de postura, de verdade. Um esforço diário — às vezes incômodo, às vezes contra a corrente — de cortar o riso cruel, de acolher quem tá à margem, de lembrar, na prática, que dignidade não se negocia.

Porque, no fim das contas, como escreveu Bento Fleury, “cada um morre um pouco na morte de cada outro”. E, se isso é verdade, então também é nossa a responsabilidade de manter os vivos inteiros.

A ferida não fecha sozinha. Ou a gente cuida — ou, mais cedo ou mais tarde, aprende a conviver com o sangue.


-/-/-/-/-/--/-/-/-/-/-/-/--/-/-/-/


Como seu professor de sociologia, preparei este roteiro de reflexão baseado no texto. O objetivo aqui não é apenas "checar o conteúdo", mas exercitar sua capacidade de enxergar as estruturas sociais e as relações de poder que se escondem por trás de eventos trágicos como o do Colégio Goyases. Aqui estão 5 questões discursivas para você desenvolver seu pensamento crítico:

1 A Invisibilidade da Violência: O texto descreve o bullying como um "crime sem manchete" que corrói a vítima por dentro antes de explodir em tragédia. Do ponto de vista sociológico, por que muitas vezes a sociedade só reconhece a violência quando ela se torna física e letal, ignorando as microagressões cotidianas?

2 O Papel do Grupo (Espectadores): O autor menciona que o silêncio dos colegas diante da humilhação não é neutralidade, mas "cumplicidade das mais eficientes". Explique como a omissão de um grupo social pode validar e fortalecer o comportamento de um agressor.

3 Instituições e Falha Social: De acordo com o texto, quando instituições como a escola e a família falham, o indivíduo acuado deixa de ser amparado. Como a ausência de mecanismos de mediação de conflitos nessas instituições contribui para que a dor se transforme em atos desesperados de violência?

4 Estigmatização e Identidade: A "campanha do desodorante" citada no texto é apresentada como uma negação de pertencimento. Como a criação de rótulos negativos e a desumanização de um indivíduo dentro da escola afetam a construção da sua identidade e sua saúde mental?

5 Justiça Preventiva vs. Justiça Punitiva: O texto cita que "a paz só se conquista com a Justiça" e que a verdadeira justiça deveria impedir que o processo de bullying chegue ao extremo. Diferencie, com base na leitura, uma resposta baseada apenas na punição do culpado de uma abordagem que busque a "mudança de postura" e a dignidade coletiva.

Dica do prof: Ao responder, tente se colocar no lugar dos diferentes atores sociais mencionados (vítima, agressores, escola e colegas). Use trechos do texto para fundamentar seus argumentos! Bom estudo.

Comentários

sábado, 21 de outubro de 2017

O AMANHÃ ESPERA O GOLPISTA ("A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes e o que fazer depois". — Leon Tolstói)



Crônica

O AMANHÃ ESPERA O GOLPISTA 

("A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes e o que fazer depois". — Leon Tolstói)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

            Ao me deparar com os desafios da segunda-feira, mais o estigma negativo que ela carrega, sobrecarregam-me o espírito com muitas demandas, desestabilizando meus ânimos, fico procurando minimizar o estresse com uma postura positiva e colaborativa; porém, não adianta muito: é teatro. Como não tem outro jeito, então que venham os negociadores, abusadores e assediadores, farei qualquer negócio ou acordo até com os Demônios, mas só vou assinar qualquer documento amanhã. "Passa amanhã", agora minha agenda está inflexível exatamente para minimizar a tensão dos previstos. E não me tragam mais imprevisíveis.
             Tenho que desconfiar das facilidades, são estes facilitadores que me roubam dinheiro, tempo e vida! A mercê dos golpistas, estou pensando nos prós e nos contras das investidas deles, e não vou deixá-los me seduzir facilmente pelas oportunidades "cabeludas". Porque estou com meu humor oscilante e melindres acesos. Então, é prudente que eu também deixe para amanhã as decisões importantes, garantindo ótimos resultados futuros. É bem provável que você me chame para ajudar em algo que utilize minhas habilidades naturais, tentando me enfraquecer e ser imediatista, mas sei que é uma armadilha. Vindo de si não é confiável. Detesto ser movido por impulsos. Por favor, dê-me um tempo para pensar e você cairá nela. "Quem prepara uma armadilha para outros nela cairá; Quem prepara uma armadilha para outros nela cairá; quem rola uma pedra sobre outros por ela será esmagado. quem rola uma pedra sobre outros por ela será esmagado." (Provérbios 26:27 NVT),
            Amanhã, estarei mais maduro e naquelas circunstâncias estará mais elevada minha experiência, conseguinte estarei mais assertivo frente aos desafios nas relações humanas, especialmente com pessoas cujas ações são negativamente conhecidas, forçando-me a lidar com sentimentos de urgência. Estou buscando a transparência, não vou me contentar com impressões superficiais. Sei que é preferível lidar com a dura realidade do que com sonhos muito distantes, todavia adiar para amanhã é necessário. O sentimentalismo precisa de um porto seguro, caso contrário a sensação pode ser a de estar à deriva, porém o desgaste requer uma pequena folga. Nesse caso, o amor próprio é o que segura a minha onda.
           Deixo sempre para amanhã o que hoje é duvidoso!           
Kllawdessy Ferreira

Comentários

Enviado por Kllawdessy Ferreira em 03/11/2016

Reeditado em 21/10/2017
Código do texto: T5812202 
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

sábado, 14 de outubro de 2017

O PESSIMISTA ("O homem que é pessimista antes dos 50 anos, sabe demasiado; o que é otimista depois, não sabe o bastante". —Mark Twain)





Crônica

O PESSIMISTA ("O homem que é pessimista antes dos 50 anos, sabe demasiado; o que é otimista depois, não sabe o bastante". —Mark Twain)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           Meu pessimismo aflorou-se, depois dos cinquenta anos de idade, quando vi a lua à luz do dia, desbotada, olhei-a com preguiça, estava apenas a metade, não sei se era crescente ou minguante, todavia fui coagido a desviar a atenção e pensar na nuvem escura do lado esquerdo do céu, ela estava feia para chover. Pensei, sobre outros luares, de noites claras, quando me encontrava com aqueles amigos, com os quais vivíamos sempre próximos, em todas as situações, até para as serenatas de crente. Hoje, não confio em ninguém, foram-se os bons tempos. Preciso marcar algo para esse final de semana prolongado, mas não posso fazer isso, se quem eu gosto já morreu! Tudo está em desfavor, desconectado do coração e sugerindo desentendimento, a fase é ruim, diz o horóscopo. É lua crescente no céu; todavia, minguante em minha vida! Não são só os estudos os despressurizadores das ideias, mas também o instinto natural.
           Embora, já seja sábado, dia do descanso sagrado, propício a algumas atividades prazerosas, porém, não me venha recomendar viagem, pois detesto perder tempo! Então, vou procurar algo mais proveitoso por aqui mesmo. Quem sabe, vou me enriquecer de cultura, adquirir informações com meus livros e na internet ou consertando alguma coisa velha no quartinho da bagunça. É lógico, que não vou deixar de lado os prazeres da carne, as sensações de gozo. Ainda mais, quando meu potencial comunicativo está afetado, e nas redes sociais engrosso as fileiras dos deprimidos. Então, quando eu acordo dos meus muitos devaneios, preciso provar minha existência exitosa através da participação real e das conversas prazerosas entre pessoas reais, é aí que falho novamente. Mas, talvez, um anjo caia das nuvens em meu colo, trazendo-me felicidade, hoje é O Sábado de Aleluia.
           Ninguém acredita que este lamento é uma busca por qualidade para meu cotidiano, pois é! Atravesso uma fase crônica, na qual já estou insensível. Todavia, quero melhorar, sim. Vejo que na teoria tudo é perfeito, porém na prática, dá defeito. Ainda assim, continuo crendo que o amor vale a vida e que o sexo é essencial!!! "Tudo é puro para os que são puros; mas nada é puro para os impuros e descrentes, pois a mente e a consciência deles estão sujas." (Tito 1:15).



Comentários

Enviado por Kllawdessy Ferreira em 03/11/2016

Reeditado em 14/10/2017

Código do texto: T5812192 

Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.