A GERAÇÃO PIA ("Cada nova geração de computadores desmoraliza as antecedentes e seus criadores." — Carlos Drummond de Andrade). ("Os homens são como as ondas, quando uma geração floresce, a outra declina." — Homero)
Por Claudeci Ferreira de Andrade O sino toca, anunciando o começo de mais um dia no reino do absurdo chamado PIA — Período de Intensificação da Aprendizagem. Respiro fundo, ajeito os óculos já cansados antes mesmo de mim e vejo o corredor se encher de alunos confusos, inquietos, barulhentos. Quem foi o gênio que inventou essa desgraça? ... Penso, sentindo mais um ano letivo desabar, tijolo por tijolo, sobre os ombros. No velho normal — que de normal nunca teve grande coisa — a escola já era um campo minado. Agora, com o PIA, mergulhamos de cabeça num oceano de contradições. A proposta parecia simples: dar aos alunos uma chance extra de melhorar as notas. Bonito no papel. Na prática? Um pandemônio pedagógico capaz de embrulhar o estômago e ferver a paciência de qualquer cristão.
Vejo Maria sentada na primeira fila. Aluna exemplar, média 9,0, caderno impecável, presença fiel. Está ali todos os dias, pontualmente, mesmo sem precisar recuperar nota alguma. Ao lado dela surge João, o eterno “zé lambança” da turma. Aparece quando quer, some quando convém, e no fim recupera a nota como num passe de mágica, saindo com um 10,0 no histórico. Convenhamos: há injustiças que gritam sem abrir a boca. Meu senso de justiça — ou talvez minha espiritualidade já combalida — se retorce por dentro.
Os dias passam, e o disparate só cresce. Alunos tecnicamente reprovados em seis disciplinas são empurrados para o PIA como quem joga náufragos num bote furado. Espera-se que aprendam em poucos dias o que não assimilaram durante o ano inteiro. É um milagre burocrático, quase kafkiano, desses que só sobrevivem porque ninguém ousa olhar de perto.
Estou transtornado. Agastado, abespinhado, agoniado, amofinado, encolerizado, enfadado, enraivecido, espinhado, estomagado, indisposto, iracundo, irritado. Minha mente coleciona adjetivos enquanto a mesa acumula provas.
Chega, enfim, o grande dia da divulgação dos resultados. O corredor vira bolsa de valores em dia de colapso. Alunos correm de um lado para outro, professores oferecem informações desencontradas, coordenadores tentam apagar incêndios emocionais com copos d’água. Os boletins, coitados, parecem possuídos: exibem notas que ninguém reconhece, médias que ninguém calculou, destinos que ninguém entende.
No meio do caos, escuto a ameaça de uma lista de chamada. É o auge do delírio. Manter alunos ali, retidos, como reféns de conteúdos que nunca aprenderam. E, ainda assim, há os imperturbáveis: aqueles que, aconteça o que acontecer, não abrem mão do lanche. O mundo desaba, a fila da merenda permanece sagrada. Encosto-me à parede, exausto.
Meu ano letivo quase sempre termina assim: entre a frustração e o alívio, dois velhos conhecidos. Observo os rostos ao redor — alguns felizes, outros decepcionados, muitos apenas perdidos. Penso em Maria e João, extremos do mesmo retrato, e em como o sistema consegue ser injusto com ambos: pune o esforço silencioso e premia a negligência reincidente. Enquanto o último aluno deixa o corredor, reflito sobre o que nos trouxe até aqui.
Um modelo que recompensa a mediocridade e desestimula a excelência. Uma engrenagem que chama improviso de política pública e remendo de solução. Uma “pedagogia das trevas” nascida em tempos convenientes e mantida pela velha coragem de não mudar nada.
Mas, apesar de tudo, no fundo desse coração cansado ainda sobra fé. Acredito na educação. Acredito nas Marias e também nos Joões, cada qual com seu potencial, seus tropeços e suas possibilidades. Talvez tenha chegado a hora de repensar não só o PIA, mas a lógica inteira que sustenta nosso ensino. Porque, no fim das contas, não estamos lidando apenas com notas. Estamos moldando destinos.
Fecho a porta da sala com um último suspiro. Mais um ano se foi, levando consigo outra chance desperdiçada de fazer diferente. Amanhã virá um novo dia. Depois dele, outro ano letivo. E quem sabe, com sorte, lucidez e teimosia bastante, possamos enfim cantar outra canção na educação — uma que valorize esforço, dedicação e aprendizado real, deixando para trás esse crepúsculo do bom senso que o PIA insiste em representar.
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Questões Discursivas:
1. O texto apresenta uma crítica contundente ao Período de Intensificação da Aprendizagem (PIA), expondo suas contradições, ineficiências e injustiças. Através da narrativa do professor e da descrição de situações absurdas, o autor questiona a lógica por trás do PIA e seus impactos negativos na educação. De que forma o autor constrói uma crítica ao PIA que vai além da mera opinião pessoal e se baseia em fatos e exemplos concretos?
2. O autor utiliza diversas figuras de linguagem para expressar sua indignação com o PIA, como metáforas, ironias e hipérboles. Como esses recursos linguísticos contribuem para a construção de um texto engajador e persuasivo, capaz de convencer o leitor sobre a necessidade de repensar o PIA?
No velho normal — que de normal nunca teve grande coisa — a escola já era um campo minado. Agora, com o PIA, mergulhamos de cabeça num oceano de contradições. A proposta parecia simples: dar aos alunos uma chance extra de melhorar as notas. Bonito no papel. Na prática? Um pandemônio pedagógico capaz de embrulhar o estômago e ferver a paciência de qualquer cristão.
Vejo Maria sentada na primeira fila. Aluna exemplar, média 9,0, caderno impecável, presença fiel. Está ali todos os dias, pontualmente, mesmo sem precisar recuperar nota alguma. Ao lado dela surge João, o eterno “zé lambança” da turma. Aparece quando quer, some quando convém, e no fim recupera a nota como num passe de mágica, saindo com um 10,0 no histórico. Convenhamos: há injustiças que gritam sem abrir a boca. Meu senso de justiça — ou talvez minha espiritualidade já combalida — se retorce por dentro.
Os dias passam, e o disparate só cresce. Alunos tecnicamente reprovados em seis disciplinas são empurrados para o PIA como quem joga náufragos num bote furado. Espera-se que aprendam em poucos dias o que não assimilaram durante o ano inteiro. É um milagre burocrático, quase kafkiano, desses que só sobrevivem porque ninguém ousa olhar de perto.
Estou transtornado. Agastado, abespinhado, agoniado, amofinado, encolerizado, enfadado, enraivecido, espinhado, estomagado, indisposto, iracundo, irritado. Minha mente coleciona adjetivos enquanto a mesa acumula provas.
Chega, enfim, o grande dia da divulgação dos resultados. O corredor vira bolsa de valores em dia de colapso. Alunos correm de um lado para outro, professores oferecem informações desencontradas, coordenadores tentam apagar incêndios emocionais com copos d’água. Os boletins, coitados, parecem possuídos: exibem notas que ninguém reconhece, médias que ninguém calculou, destinos que ninguém entende.
No meio do caos, escuto a ameaça de uma lista de chamada. É o auge do delírio. Manter alunos ali, retidos, como reféns de conteúdos que nunca aprenderam. E, ainda assim, há os imperturbáveis: aqueles que, aconteça o que acontecer, não abrem mão do lanche. O mundo desaba, a fila da merenda permanece sagrada. Encosto-me à parede, exausto.
Meu ano letivo quase sempre termina assim: entre a frustração e o alívio, dois velhos conhecidos. Observo os rostos ao redor — alguns felizes, outros decepcionados, muitos apenas perdidos. Penso em Maria e João, extremos do mesmo retrato, e em como o sistema consegue ser injusto com ambos: pune o esforço silencioso e premia a negligência reincidente. Enquanto o último aluno deixa o corredor, reflito sobre o que nos trouxe até aqui.
Um modelo que recompensa a mediocridade e desestimula a excelência. Uma engrenagem que chama improviso de política pública e remendo de solução. Uma “pedagogia das trevas” nascida em tempos convenientes e mantida pela velha coragem de não mudar nada.
Mas, apesar de tudo, no fundo desse coração cansado ainda sobra fé. Acredito na educação. Acredito nas Marias e também nos Joões, cada qual com seu potencial, seus tropeços e suas possibilidades. Talvez tenha chegado a hora de repensar não só o PIA, mas a lógica inteira que sustenta nosso ensino. Porque, no fim das contas, não estamos lidando apenas com notas. Estamos moldando destinos.
Questões Discursivas:
1. O texto apresenta uma crítica contundente ao Período de Intensificação da Aprendizagem (PIA), expondo suas contradições, ineficiências e injustiças. Através da narrativa do professor e da descrição de situações absurdas, o autor questiona a lógica por trás do PIA e seus impactos negativos na educação. De que forma o autor constrói uma crítica ao PIA que vai além da mera opinião pessoal e se baseia em fatos e exemplos concretos?
2. O autor utiliza diversas figuras de linguagem para expressar sua indignação com o PIA, como metáforas, ironias e hipérboles. Como esses recursos linguísticos contribuem para a construção de um texto engajador e persuasivo, capaz de convencer o leitor sobre a necessidade de repensar o PIA?
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