O DIABO É CRENTE: A Teologia das Goteiras ("Crente até o capeta é...!" — Daniel Saidonw)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Entrei no templo não por sede da alma, mas pelo cansaço do corpo — e, sejamos francos, para escapar de um céu que desabava sem a menor cerimônia. A igreja, um galpão de paredes descascadas e promessas pintadas a cal, oferecia um abrigo quase debochado: o telhado, crivado de buracos, transformava a chuva numa experiência mais íntima. Lá dentro, chovia com uma precisão matemática que o lado de fora desconhecia.
Fiquei mais tempo do que pretendia. Tempo bastante para que os deuses locais — encarnados em olhares zelosos e mãos sempre estendidas — me oferecessem o batismo. Aceitei. No fundo, havia nisso uma lógica meteorológica: se a água já me tomava o corpo pelas frestas do zinco, que o ritual ao menos oficializasse o naufrágio.
Dizem que o batismo purifica e compromete. Para mim, naquela tarde, significava só uma rendição elegante ao inevitável: eu não sairia dali seco. Num sol de estio, jamais me tornaria neófito; mas a umidade, ah, a umidade amolece até as convicções mais duras.
Foi então que ela se aproximou, desviando das poças no piso de cimento bruto com a destreza de quem conhecia cada manha daquela arquitetura cansada.
Sentou-se ao meu lado e ajeitou o vestido de chita úmido, colado aos joelhos. Tinha os olhos miúdos, cercados por rugas que lembravam leitos de rios antigos, e um sorriso que não era alegria — era outra coisa mais funda: paciência. Paciência de quem já viu muita chuva cair e muita promessa evaporar. Cheirava a sabão de coco e terra molhada.
— A senhora é crente? — perguntei, mais para ouvir uma voz humana por cima do estrondo da tempestade no telhado.
Ela não respondeu de imediato. Primeiro encarou o horizonte de goteiras à nossa frente. Depois, com um meio-sorriso gasto de vigílias, soltou a frase que desmontou, de uma vez só, minha engenharia mental:
— Ora, meu filho... até o diabo é crente.
Fez-se um silêncio desses que falam alto. Só restou o compasso da água pingando dentro de um balde plástico ali perto.
Olhei para aquela mulher, para a dignidade simples de sua fé desconfiada, e senti uma nostalgia aguda. Houve um tempo — talvez mais ingênuo, talvez mais honesto — em que o diabo era o inimigo declarado, a sombra do lado de fora, o nome que dávamos ao mal quando ele ainda usava máscara.
Agora, nesta marcha triunfal dos tempos modernos, o inferno parece ter se batizado também. O diabo já não precisa de esconderijo. Frequenta cultos, conhece os hinos, cita versículos de memória e, como todos nós, aprendeu a receber com naturalidade a chuva que cai sobre justos e injustos.
Lá fora, o céu começava a clarear. Mas o telhado seguia chorando sobre o altar. Pensei em dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a mulher já havia fechado os olhos — em oração, em descanso, ou apenas esperando o chão secar.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com vocês. A literatura e a crônica são janelas incríveis para entendermos como a sociedade se organiza, como as instituições (como a Igreja) funcionam e como as pessoas constroem seus significados de mundo. O texto traz uma crítica social afiada sobre a religiosidade contemporânea e a fragilidade das instituições. Abaixo, preparei cinco questões discursivas para pensarmos "sociologicamente" sobre essa narrativa:
1. A Influência do Meio no Comportamento Social
O narrador afirma que, sob um sol de estio, jamais aceitaria o batismo, mas a chuva e o "telhado roto" o levaram a aceitar o ritual. De que maneira o ambiente físico e as necessidades materiais (como a busca por abrigo) podem influenciar a adesão de um indivíduo a um grupo social ou religioso?
2. A Instituição e a Realidade Material
A crônica descreve uma igreja com "paredes descascadas" e um telhado onde "chovia mais dentro do que fora". Como essa descrição contrasta com a ideia de "instituição poderosa" e o que isso nos diz sobre a presença da religião em comunidades com menos recursos financeiros?
3. O Conceito de Simbolismo e Ritual
Sociologicamente, os rituais servem para marcar a entrada de alguém em um grupo. No texto, o narrador vê o batismo apenas como uma "rendição ao inevitável" (já que ele já estava molhado). Explique a diferença entre o significado sagrado do ritual para a instituição e o uso pragmático que o narrador faz dele.
4. Humanização e Identidade Social
A mulher descrita no texto é caracterizada por traços físicos simples e um "sorriso de paciência". A partir da leitura, como você descreveria o perfil socioeconômico dessa fiel e como a religião pode atuar como um espaço de acolhimento para indivíduos que enfrentam dificuldades cotidianas?
5. Crítica à Modernidade e Desvio de Valores
Ao final, o texto sugere que "o diabo já não precisa de esconderijo" e que ele "frequenta cultos e conhece os hinos". Relacionando com a Sociologia, como você interpreta essa crítica em relação à conduta moral de alguns grupos religiosos na sociedade atual? O que o autor quer dizer com o "inferno ter se batizado"?
Dica do professor: Ao responder, tente não olhar apenas para a religião como fé pessoal, mas como um fenômeno coletivo que reflete as contradições do nosso tempo. Bom trabalho!
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