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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(13) A Sabedoria Não Pede Licença

 


Ensaio Teológico IX(13) A Sabedoria Não Pede Licença

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Minha reflexão sobre a sabedoria começa pela minha avó. Ela estudou só até a quarta série, mas lia a Bíblia com o dedo deslizando sob cada linha, como quem confere uma conta. Questionava o pastor sem alarde e, quando a conversa não a convencia, voltava às Escrituras para rever as próprias ideias. Foi com ela que aprendi, e confesso que tarde demais, que sabedoria não depende de diploma, nem de gênero. O que me intriga, e até hoje não me desce, é que a história tenha separado duas coisas que sempre deveriam andar de mãos dadas: ser mulher e ser reconhecida como alguém capaz de pensar.

Quando examino a tradição religiosa, esbarro em contradições. A Sabedoria aparece como figura feminina em Provérbios 8, Débora julga Israel e Abigail dá mostras de fino discernimento. Mesmo assim, muitas interpretações bíblicas reservaram às mulheres o silêncio e a obediência. Na prática, o texto abria a porta e a leitura a fechava. Sei que há quem defenda diferenças entre homens e mulheres e que o argumento merece ouvido atento. Carol Gilligan, por exemplo, observou o peso do cuidado e das relações na formação moral de muitas mulheres. Mas, descrever um modo de pensar não é decretar uma natureza, e nenhuma característica, por mais bonita que seja, deveria virar grade de prisão. Elogio que aprisiona continua sendo prisão. É nesse ponto que Lisa Feldman Barrett e Sheryl Sandberg me ajudam, cada uma a seu modo: pensar criticamente exige aprender a questionar, interpretar e agir, e isso nunca foi privilégio de um gênero só.

A história, aliás, confirma que o reconhecimento da inteligência feminina andou a passos de tartaruga. Sor Juana Inés de la Cruz, Nísia Floresta, Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo me ensinam que o saber também nasce da resistência, da memória, da cozinha, do terreiro e da roça, e não apenas dos corredores acadêmicos. Com Steven Pinker, entendo que as mudanças vêm aos poucos, quase invisíveis para quem está no meio delas. Com Malala Yousafzai, reafirmo o valor da educação e do acesso aos livros. Nenhuma dessas mulheres foi sábia por ser mulher, nem apesar de sê-lo. Foram sábias porque aprenderam, questionaram e resistiram, mesmo quando o mundo lhes negou o direito de começar.

Chego, então, a uma conclusão que é também uma tarefa: a sabedoria não tem sexo, mas tem história, experiência e acesso ao conhecimento. Para mim, pensar com lucidez é reconhecer os próprios limites, rever convicções e seguir aprendendo, sem medo de mudar de ideia. Uma teologia comprometida com a Sabedoria que clama nas praças não pode calar quem responde ao chamado. Minha avó partiu sem conhecer as pensadoras que hoje estudo, mas nem precisou. A voz dela, pausada e teimosa, já carregava a lição: a verdadeira sabedoria não exige licença para perguntar; exige coragem para buscar a verdade e humildade para reconhecê-la.

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