Ensaio Teológico IX(14) Entre a Senhora Sabedoria e a Dona Loucura: Quem Escolhe, Afinal?
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Quando reflito sobre a diferença entre sabedoria e loucura, percebo que, na vida real, a fronteira entre as duas nem sempre é tão nítida quanto parece. Em Provérbios 9:1-6, a Senhora Sabedoria prepara sua casa e convida para o banquete, enquanto a Dona Loucura, descrita em Provérbios 9:13, também chama quem passa. Ora, se ambas fazem seus convites, cabe a nós discernir o que cada uma tem a oferecer. O problema é que, durante séculos, interpretações religiosas e literárias transformaram essas figuras em modelos para julgar mulheres, como se a virtude tivesse rosto feminino e a insensatez também. A meu ver, essa leitura desvia o sentido da alegoria: sabedoria e loucura não são questões de gênero, mas escolhas humanas.
Ao aprofundar essa reflexão, encontro em Daniel Kahneman, na obra Rápido e devagar (2011), um alerta sobre nossa confiança excessiva nos próprios julgamentos. Afinal, quem nunca tomou uma decisão acreditando estar com a razão e, mais tarde, percebeu que se enganara? Alain de Botton também me leva a pensar que, às vezes, aquilo que chamamos de prudência não passa de medo bem-vestido, uma cautela que nos impede de viver. Lembro-me de Abraão, que partiu sem saber aonde chegaria, da parábola dos talentos, em Mateus 25, e da “loucura da cruz”, mencionada por Paulo em 1 Coríntios 1. Essas passagens me fazem desconfiar das respostas fáceis: nem toda ousadia é insensatez, assim como nem toda cautela é sabedoria. Isso não significa, porém, que devamos agir sem pensar; significa apenas que precisamos olhar além das aparências e avaliar o preço de nossas escolhas.
Mas há outra questão que não dá pra deixar de lado: será que todos escolhem com a mesma liberdade? Ao ler Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979) e A Dominação Masculina (1998), compreendo melhor como nossas decisões são influenciadas pela classe social, pelos hábitos e pelas estruturas em que vivemos. Convenhamos, quem encontra a mesa posta tem mais possibilidades do que quem luta diariamente para conseguir o alimento. Por isso, considero injusto atribuir todo fracasso à falta de juízo ou de esforço individual, como se as condições de partida fossem iguais para todos. Nesse ponto, encontro em Paulo Freire uma contribuição fundamental: a educação crítica nos ajuda a ler o mundo, questionar aquilo que parece natural e reconhecer que podemos transformá-lo. É no diálogo, na convivência e até nos tropeços que aprendemos a escolher melhor, sem imaginar que alguém se torna sábio sozinho.
Chego, assim, a uma conclusão que me provoca mais perguntas do que certezas. Hoje, já não me basta saber quem é sábio ou louco; quero compreender quem nos ensinou a escolher, quais condições tivemos para aprender e quem caminha conosco nessas decisões. A Senhora Sabedoria constrói sua casa e prepara a mesa, mas, para mim, não basta admirar o banquete: é preciso abrir a porta e garantir que pessoas de diferentes gêneros e condições sociais também possam se sentar, participar e dizer o que pensam. Afinal, discernir não é apenas escolher um caminho e seguir adiante; é reconhecer os próprios limites, assumir as consequências dos atos e considerar a realidade de quem caminha ao nosso lado. No fim das contas, talvez a verdadeira sabedoria comece quando deixamos de apontar o dedo para os supostos loucos e temos a coragem de examinar nossas próprias escolhas.


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