Ensaio Teológico IV(16) Levar as Cargas: Um Ensaio sobre a Coragem de Não Julgar
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Confesso, antes de qualquer argumento: já fui pedra na mão de alguém — e já fui, também, a mão que segurou a pedra. Talvez essa seja uma das condições humanas mais honestas que podemos reconhecer. Quem nunca julgou e, em algum momento, descobriu que também podia ser julgado? Quem nunca apontou uma fraqueza alheia para, mais tarde, perceber a mesma fragilidade escondida dentro de si? É justamente dessa condição partilhada, tão humana quanto contraditória, que quero partir para pensar, com você, leitor, a advertência de 1 Coríntios 15:33 sobre a influência das más companhias e a distinção, tantas vezes repetida em púlpitos, discursos religiosos e conversas cotidianas, entre justos e ímpios.
Aristóteles, com sua conhecida afirmação — "o homem é um animal social" —, nos lembra algo que uma leitura isolada da advertência bíblica pode fazer parecer secundário: não existimos senão em relação. Somos seres de encontro, de convivência, de influência. De certo modo, somos tecidos uns nos outros; carregamos marcas de pessoas que passaram pela nossa vida, algumas para o bem, outras nem tanto. Nenhuma identidade se constrói completamente no isolamento. Até nossas convicções mais íntimas são, em alguma medida, forjadas no contato com o outro. Por isso, classificar as relações em categorias rígidas — o bom amigo, o mau amigo, o justo, o ímpio — pode até parecer prático, mas talvez seja uma simplificação que a própria Escritura, quando lida em sua totalidade, nos obriga a questionar.
Basta olhar para Romanos 3:23: todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. Repare na força dessa palavra: todos. Não há, portanto, de um lado da linha divisória, um exército de justos imaculados olhando, do alto de sua suposta superioridade moral, para os ímpios do outro lado. Há uma humanidade inteira caminhando aos tropeços pela mesma estrada, cada qual carregando fardos que os outros, muitas vezes, sequer conseguem enxergar. Uns escondem suas dores atrás de um sorriso; outros, atrás da arrogância; alguns, atrás de uma religiosidade impecável. O exterior engana. E como engana!
É justamente aqui que quero me deter um pouco mais, porque acredito que este seja o coração pulsante de tudo o que venho tentando dizer: Gálatas 6:2 nos convoca a "levar as cargas uns dos outros". Não a apontá-las. Não a catalogá-las. Não a transformá-las em motivo de vergonha. Levá-las. Há uma diferença enorme entre observar o sofrimento de alguém e decidir caminhar alguns passos ao lado dele. Uma coisa é dizer: "Esse é o problema dele". Outra, bem diferente, é perguntar: "Como posso ajudá-lo a carregar isso?".
Penso numa cena simples, mas profundamente humana: um jovem que se afasta da família e da fé depois de anos sufocado por regras que nunca compreendeu. O tempo passa. Ele carrega ressentimentos, dúvidas e talvez até algumas feridas que ninguém percebeu enquanto ele ainda estava dentro da comunidade. Anos depois, quando retorna ou simplesmente cruza novamente o caminho de alguém daquele ambiente, não encontra um sermão, uma cobrança ou uma lista de pecados. Encontra uma pessoa que se senta ao seu lado e pergunta, com sinceridade: "Como você está?". Parece pouco. E, no entanto, pode ser tudo.
É aí que percebemos a diferença entre condenar e levar a carga do outro. A condenação aponta o dedo; a compaixão oferece o ombro. Uma humilha; a outra ergue. Uma transforma a fraqueza alheia em sentença; a outra enxerga nela uma possibilidade de recomeço. Não se trata de chamar o erro de acerto, nem de abolir toda responsabilidade moral. Trata-se, antes, de compreender que corrigir alguém não exige esmagá-lo. A verdade pode ser dita sem crueldade; a advertência pode existir sem desprezo; a firmeza pode andar de mãos dadas com a misericórdia.
Talvez, então, a pergunta que deveríamos fazer não seja simplesmente: "quem é justo e quem é ímpio?" Talvez a pergunta mais humana seja: "que carga meu irmão carrega, e como posso ajudá-lo a atravessá-la?" A primeira pergunta estabelece fronteiras; a segunda constrói pontes. A primeira procura classificar pessoas; a segunda procura compreender histórias. E, convenhamos, histórias humanas não cabem facilmente em rótulos. Cada pessoa chega até nós trazendo uma bagagem que não conhecemos por inteiro. Julgamos o comportamento porque enxergamos o gesto, mas raramente conhecemos a batalha que o precedeu.
Voltaire dizia que apreciar todas as nuances é sinal de um espírito verdadeiramente livre. Eu diria mais: talvez seja sinal de alguém que já aprendeu, na própria carne, o peso de ser julgado — e decidiu, justamente por isso, não reproduzir nos outros a mesma violência que um dia sofreu. Quem já sentiu o peso de uma pedra lançada contra si aprende, talvez com alguma demora, que não precisa continuar segurando pedras nas mãos.
No fundo, levar as cargas uns dos outros é um exercício de humildade. É reconhecer que não somos tão diferentes quanto imaginamos. Hoje posso estar de pé; amanhã, quem sabe, precisarei do braço de alguém para não cair. Hoje posso aconselhar; amanhã, talvez seja eu quem precise ser ouvido. Hoje posso enxergar o erro do outro com clareza; amanhã, talvez precise que alguém enxergue minhas próprias sombras sem me abandonar por causa delas.
Talvez seja essa a verdadeira coragem de não julgar: não fechar os olhos diante do erro, mas abrir o coração diante da pessoa. Não confundir misericórdia com conivência, nem justiça com condenação. Afinal, se todos carregamos alguma coisa e ninguém atravessa a existência completamente ileso, talvez a pergunta mais cristã não seja quem merece a pedra, mas quem precisa de um ombro.
E, no fim das contas, talvez seja isso que significa caminhar juntos: não exigir que o outro atravesse sozinho o vale que nós mesmos já atravessamos. Há cargas que não desaparecem porque alguém nos aponta o dedo; algumas começam a ficar mais leves quando alguém simplesmente decide caminhar ao nosso lado.


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