Ensaio Teológico IV(18) Da Cegueira que Duvidamos Ser Divina
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma noite que ainda revisito de vez em quando. Foi quando li 2 Coríntios 4:4, pela primeira vez, com atenção verdadeira — não com os olhos treinados pela repetição dominical, mas com a inquietação de quem busca e, ao mesmo tempo, teme não encontrar. Paulo escreve: "O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo." E eu me perguntei, como tantos antes de mim já devem ter perguntado: seria esse "deus" o próprio Deus que se anuncia como amor? Ou haveria ali, escondida na gramática grega, uma distinção que a tradição, talvez apressada demais, nos fez esquecer?
Essa dúvida não nasceu da rebeldia, muito menos de um desejo de contrariar por contrariar. Nasceu da reverência. Afinal, há perguntas que não diminuem a fé; ao contrário, obrigam-na a sair da superfície e encarar o abismo. E é justamente dessa inquietação que parte este ensaio.
Uma exegese mais cuidadosa da expressão grega ho theos tou aiōnos toutou — "o deus desta era" — revela algo que nem sempre encontra espaço nos púlpitos: no contexto paulino, a expressão não parece apontar para o Deus criador, mas para uma potência adversária, uma força de oposição espiritual que a tradição cristã posteriormente identificaria com o Diabo. Se essa leitura se sustenta, então todo o edifício da ideia de uma "cegueira imposta por Deus" começa a ruir — não por uma desconstrução arbitrária, mas pela tentativa de permanecer fiel ao próprio texto. Não seria Deus quem cega; seria a própria era, o adversário, a lógica de um mundo marcado pela queda.
Mas, é preciso andar com cautela aqui. Essa não é a única voz presente na tradição cristã. Agostinho, em sua reflexão sobre a graça soberana, e, mais tarde, Calvino, ao comentar o endurecimento do coração do Faraó, sustentaram que existe um mistério na soberania divina que permite — e, em determinadas interpretações, até decreta — o endurecimento como parte de um plano maior de justiça e misericórdia. Não posso, por honestidade intelectual, simplesmente jogar essa tradição no canto da ingenuidade. Ela carrega séculos de reflexão, conflito e sofrimento; carrega homens que também lutaram com o problema do mal, da liberdade e da graça e, apesar disso, continuaram crendo. Talvez, portanto, o diálogo entre essas duas leituras — a que atribui a cegueira ao adversário e a que a compreende dentro da soberania de Deus — seja mais fecundo do que a escolha apressada de uma contra a outra.
E é justamente aqui que aparece uma distinção que considero essencial, mas que a pressa conceitual costuma apagar: cegueira espiritual e cegueira intelectual não são a mesma coisa. A primeira habita o território da relação, da confiança, da entrega; é uma espécie de véu sobre o coração, como o próprio Paulo sugere alguns versículos adiante. A segunda pertence ao domínio da razão, do conhecimento, do acesso à informação e das oportunidades de educação. Confundir uma com a outra é perigoso. De um lado, reduz-se o mistério da fé a uma simples questão de inteligência; de outro, transforma-se a inteligência humana numa espécie de virtude espiritual automática. E não é bem assim.
Um filósofo pode enxergar com extraordinária clareza lógica e, ainda assim, permanecer cego diante do amor. Um homem simples, sem letras e sem os instrumentos acadêmicos que tanto valorizamos, pode perceber aquilo que os sábios não conseguem ver. A inteligência, por si só, não salva ninguém da cegueira interior. Sócrates tinha razão ao afirmar que a vida não examinada não vale a pena ser vivida; mas examinar a própria existência não é garantia de visão espiritual. É, no máximo, o começo honesto da busca. E talvez seja justamente esse começo que tanta gente evita, porque olhar para dentro pode ser mais assustador do que olhar para fora.
É essa busca, afinal, que quero compartilhar aqui. A psicologia e a sociologia me ensinaram que o medo, o trauma, a educação, o ambiente social e a cultura moldam profundamente aquilo em que acreditamos — e isso é verdade, e precisa ser dito. Não podemos fingir que o ser humano nasce num vazio, como se suas crenças fossem construídas sem história, sem família, sem sociedade, sem feridas e sem circunstâncias. Somos, em grande medida, filhos do tempo em que vivemos. Mas também aprendi, nas noites em que duvidei sozinho, que há alguma coisa na experiência da fé que não se deixa explicar inteiramente por essas categorias. Existe um chamado que parece vir de fora do próprio sujeito, uma espécie de voz interior que não se reduz facilmente à psicologia, à sociologia ou às engrenagens da cultura. E a ciência humana, por mais generosa e sofisticada que seja, não consegue, sozinha, esgotar esse mistério.
Talvez a luz não brilhe apenas para os justos, como sugere uma metáfora que tantas vezes ouvimos. Mas talvez também não seja verdade que todos a enxerguem da mesma maneira, pelas mesmas razões ou no mesmo instante. A verdade pode ser oferecida a todos e, ainda assim, exigir de cada pessoa uma resposta distinta — íntima, imperfeita e, muitas vezes, incompleta. Afinal, receber a luz não significa necessariamente compreendê-la de imediato. Há quem a veja e fuja; há quem a veja e duvide; há quem passe a vida inteira caminhando em sua direção sem jamais ter certeza de que chegou.
Por isso, não escrevo para resolver o mistério. Escrevo para habitá-lo com um pouco mais de honestidade. Talvez porque algumas perguntas sejam maiores do que as respostas que conseguimos formular. Talvez porque a fé, quando é realmente levada a sério, não seja uma casa sem janelas, onde tudo já está decidido, mas uma caminhada em que, vez ou outra, precisamos parar, respirar fundo e perguntar para onde estamos indo.
E talvez seja esse, afinal, um dos gestos mais honestamente teológicos que podemos realizar: duvidar sem abandonar, questionar sem se afastar, pensar sem transformar o pensamento em ídolo e continuar caminhando — mesmo quando enxergamos apenas em parte — em direção àquela luz que, embora nos atraia, ainda não compreendemos por completo. Porque, no fim das contas, talvez a verdadeira cegueira não esteja em admitir que ainda não vemos, mas em acreditar que já enxergamos tudo.


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