Ensaio Teológico IV(13) Questionando a Salvação: Uma Análise Crítica da Instrução no Cristianismo
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma pergunta que me acompanha desde a infância. Lembro-me de estar sentado num banco de igreja, daqueles de madeira dura, ouvindo sermões sobre obediência, enquanto meus pés balançavam sem sequer alcançar o chão. Naquele tempo, eu ainda não sabia formular a pergunta com clareza, mas ela já estava ali, silenciosa e insistente: e se a fé mais verdadeira não fosse justamente aquela que se curva, mas a que se levanta para perguntar? Foi essa inquietação — pequena, teimosa, quase clandestina — que, de algum modo, me trouxe até aqui.
O cristianismo, pelo menos em sua tradição mais difundida, costuma apresentar a instrução como uma espécie de tábua de salvação: siga o mandamento, obedeça à Palavra e serás salvo. É uma promessa sedutora justamente por sua simplicidade. Mas, convenhamos, a simplicidade, quando transformada em regra absoluta, pode acabar se tornando uma lâmina de dois gumes. Nietzsche escreveu que "aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase qualquer coisa" — e há nisso algo que me provoca, até certo ponto, um desconforto produtivo. Ele fala de razão, não de regra. E não é pouca coisa essa diferença. A razão se constrói, questiona, amadurece; a regra, em geral, recebe-se pronta. Entre esses dois verbos — construir e receber — existe um abismo que vale a pena atravessar.
Pensemos no marinheiro. Não naquele marinheiro genérico das metáforas prontas, mas naquele que está em alto-mar e percebe que o céu mudou de cor antes mesmo que a bússola anuncie a tempestade. Ele conhece as cartas náuticas, decorou instruções, aprendeu os caminhos seguros. Mas, quando o mar se revolta e o mapa já não corresponde exatamente à realidade diante de seus olhos, não é a repetição mecânica da instrução que o mantém vivo. É a capacidade de interpretar o vento, observar as ondas, sentir a mudança da atmosfera e decidir. A experiência, nesse momento, conversa com o conhecimento; a instrução encontra a realidade e precisa ser compreendida à luz dela. Paulo parece apontar para algo semelhante quando escreve aos romanos: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento" (Romanos 12:2). Repare-se no verbo: transformar. Não se trata de permanecer imóvel diante de uma regra, como quem vigia uma porta fechada, mas de renovar o entendimento. É movimento, é processo, é travessia. E travessia, como todo marinheiro sabe, raramente acontece em águas completamente tranquilas.
Há também a conhecida imagem da casa construída sobre a rocha, apresentada por Jesus como símbolo de uma instrução firme, capaz de resistir às tempestades. A metáfora é poderosa, sem dúvida. Mas há algo que, às vezes, esquecemos: toda casa, por mais sólida que seja, precisa ser habitada. E quem habita uma casa sabe que ela nunca permanece exatamente como foi construída. Uma parede recebe uma nova pintura, uma janela é aberta, outra precisa ser consertada; às vezes, é necessário derrubar um cômodo inteiro para que a casa continue sendo um lugar de vida. Habitar é também transformar. Kant, vindo de outro século e de outra tradição, chamou esse movimento de esclarecimento: "a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado". Ora, talvez a fé também precise desse exercício de maturidade: não apenas morar numa casa construída por outros, mas ter coragem de examinar seus alicerces, abrir as janelas e perguntar se ainda conseguimos respirar dentro dela.
Provérbios nos lembra que "a sabedoria é a coisa principal". E aqui aparece uma distinção que considero fundamental: instrução e sabedoria não são sinônimos. A instrução pode ser transmitida; a sabedoria, não. Pode-se ensinar uma regra, decorar um mandamento, repetir um versículo, memorizar uma doutrina. Mas a sabedoria nasce do encontro entre aquilo que aprendemos e aquilo que vivemos. Ela passa pelo erro, pela dúvida, pela experiência e, não raro, pela necessidade de recomeçar. A sabedoria não se instala de uma vez por todas; ela vai sendo construída, às vezes aos tropeços. É justamente nesse terreno do aprendizado contínuo que John Dewey encontrou uma de suas intuições mais belas: "a educação não é preparação para a vida; a educação é a vida em si". Não existe uma espécie de véspera da existência em que aprendemos todas as regras para, só depois, começarmos finalmente a viver. Vivemos enquanto aprendemos. Aprendemos enquanto erramos. E erramos enquanto tentamos compreender o que significa viver. Talvez seja aí, nesse movimento inacabado, que uma fé mais honesta também devesse habitar.
Por isso, talvez a salvação não esteja simplesmente em seguir uma instrução, mas em compreender por que ela existe, de onde veio, a que realidade responde e o que acontece quando a aplicamos à vida concreta. Obedecer sem compreender pode produzir conformidade; compreender, por outro lado, pode produzir responsabilidade. E responsabilidade exige liberdade, porque ninguém é verdadeiramente responsável por aquilo que apenas repete sem pensar. Foi nesse espírito de investigação que Epicuro afirmou que "o início de todas as coisas é o conhecimento da natureza". Conhecer é o primeiro passo para questionar; questionar permite revisar; e revisar exige coragem para admitir que aquilo que ontem parecia definitivo talvez hoje precise ser novamente pensado.
No fim das contas, voltamos ao marinheiro, à casa, à sabedoria e à própria vida. O marinheiro não abandona o mapa, mas também não se torna escravo dele. A casa precisa de alicerces, mas não pode deixar de respirar. A sabedoria nasce do conhecimento, mas cresce sobretudo quando esse conhecimento encontra a experiência. E a vida, essa velha professora que não costuma entregar apostila, nos obriga a aprender enquanto caminhamos.
Talvez seja justamente aí que a fé encontre sua forma mais madura. Não na obediência cega, nem na instrução repetida como fórmula mágica, mas na disposição de perguntar, compreender, transformar e, quando necessário, recomeçar. Afinal, uma fé que não suporta perguntas talvez seja apenas uma certeza com medo de ser examinada. E, se for assim, talvez a salvação não esteja em fechar os olhos diante do caminho, mas em abri-los — mesmo quando o horizonte, de repente, parece outro.


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