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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A FORCA CIRCUNSTANCIAL (Uma coisa leva à outra até o fim)



Crônica

A FORCA CIRCUNSTANCIAL (Uma coisa leva à outra até o fim)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Claudeci Ferreira de Andrade

           Hoje é dia dos finados, dois de novembro, pus-me a pensar nos mortos; cheguei a meu metafórico estado de “morto”, mas, estou vivo, visitando aos túmulos novos. Os últimos! E, na circunstância, visitei mentalmente o meu próprio túmulo novo, devaneando.
          O Professor Ruquinho tinha trinta e nove anos. Numa terça-feira, às 17h, e isto não faz muito tempo, li seu epitáfio, comentei com alguém, por ali, que me explicou como tudo aconteceu: Ele pegou um fio elétrico, trabalhou com um alicate e elaborou uma forca e na sala da nova casa, na qual moraria em breve com sua enfeitiçadora namorada, enfocou-se. Ruquinho era viciado nela.
          Com trinta e nove anos, Ruquinho já estava com o seu futuro assegurado. Era jovial, inteligente, atleta, estudante de elevado nível de aproveitamento, e gostava de esportes, tinha causado inveja em muitos por sua capacidade de fazer e manter as amizades. No entanto, sua melhor amiga atribuiu como causa do seu declínio o novo namoro, com uma aluna de dezessete anos apenas. Daí é que ele partiu. Penso que a escola não mata ninguém, mas coage os seus a se matarem. Assim, se enterra mais um mártir da educação.
          Quando conheci minha então ex-esposa, ela com dezessete eu com trinta e nove anos. A família de Vânia procurou dissuadi-la de todos os modos. O que tem um professor a oferecer como garantia de futuro? Ela gostava da família, e não queria magoar a ninguém. Mesmo assim, decidiu casar-se comigo, ou como dizem os humoristas “enforcar-se”. e eu a incentivei a ser professora, também, semelhantemente ao Adão que comeu o fruto proibido, forçado por uma circunstância, sabendo das conseqüências, vali-me da “forca” também, assim, numa espécie de Romeu e Julieta; fomos por amor. No meu caso, o processo de “enforcamento” durou seis anos, tempo suficiente para falar que uma diferença de vinte e dois anos na idade causou uma distância, no tempo e no espaço, que o grito por socorro não atingiu o coração de ninguém, ou melhor, chegou muito atrasado. Penso que o problema maior era porque trabalhávamos na mesma escola. Na "Jerusalém que mata seus profetas".
          Agora sou uma prova incontestável de que existe vida após a morte, porque estou vivo, mas não no céu; só no inferno. À noite, parece-me um cemitério, logo pela manhã um purgatório e à tarde  um inferno. Não tenho como esquecer dos meus três turnos de trabalho.  Enforcamento denotativo e/ou conotativo depende do ponto de vista de quem sente na pele a desvalorização. A escolha entre a vida e a morte é posta diante de nós de modo tão real como o foi para Jailton Joaquim Graciliano, Paulo Henrique Lesbão, e tantos outros, e nós escolhemos a morte! Ou ela nos escolherá?
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 28/05/2009
Código do texto: T1619366

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