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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A TRAVESSIA DE CORNÉLIO (Um grande amor não morre assim. )


CONTO 

A Travessia de Cornélio ( Um grande amor não morre assim. )

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          A viagem seria uma tentativa para resgatar a vida a dois.  Para isso, comprou uma motocicleta que não era das melhores, mas era novinha. Cornélio e sua amada esposa foram visitar os pais dele numa aventura incomparável! Uma paradinha de direito aqui e acolá, descanso merecido: na beira da BR 153.  Foram seis dias de velocidade e muito calor, ida e volta, para uma estada de quatro dias apenas, em território tocantinense. Na sua cidade de origem, fazia poera! 
     Com a chegada do casal da cidade grande, o pessoal de lá não tinha como conter tamanha felicidade, foi o melhor natal dos últimos vinte anos para seus pais. Foi o que disseram, isso pude ver bem claro. O que não ficou claro foi o motivo da indiferença de quem era nora e se dizia apaixonada por viagem: Jacobina, uma mulher de vinte e cinco anos de idade, muito bonita, dissimulada e se trajava com o esbanjamento de uma prostituta “classe A”, acompanhava à risca as personagens das novelas televisivas e especialista em futilidades. Aliás, o tratava como um “leproso”, não gostava de sexo, entretanto se deitava com ele, para essa finalidade, a cada quinze dias, quando insistia muito. Além da força dos seus sentimentos, valia a pena suportar esta situação, por que se beneficiava da companhia de uma bela mulher e das lições de vida, ele queria se mostrar! E na viagem, nenhuma palavra de elogio, ouviu só repreensões pelas passagens nas quais conduzia a moto com destreza e aptidão! Fez-se de palhaço para agradar e gastou mais do que o planejara.
          Entre as poucas palavras que ouviu dos lábios finos em que tentara, sem sucesso, muitas vezes beijar, foi dentro do banheiro de um hotel em Rialma, já na volta, o primeiro de raspão!
          —“É muito chato!”
          Jacobina, apesar de ter empenhado todo esforço para provar que era superior a ele, se dobrava de vez em quanto, com o aparelho celular e um mapa rodoviário em punhos, para lhe falar a hora e verificar o trajeto. Ele havia investido na pessoa que mais confiava: a navegadora do percurso.
          Já no final do pesadelo, de volta ao “leito sem mácula”, como assim acreditava Cornélio, ouviu dela, como nunca ouvira dantes, o brado de alegria na chegada ao último viaduto, ali no Novo Mundo:
          — Graças a Deus estamos chegando!
          Não reagiu à expressão que o fez vibrar involuntariamente, pois ele ainda estava atônito centrado na inocência, cego pela parcialidade, surdo pela dissonância irritante do silêncio, mudo pelas as mil conjecturas amontoadas em sua cabeça.
          — O que eu fiz para tanto merecer? – apenas, perguntou Cornélio a si mesmo com a voz da alma.
          Mas, tinha uma razão aparente para agradecer a Deus: estavam com vida, naquele pôr-do-sol da sexta-feira, vinte e nove de dezembro de dois mil e seis. Precisaram só de mais dez minutos para reabrir aquele portão verde morto, ensombrado pela o vigor da ferrugem. A casa estava em estado de abandono, carecia de uma arrumação, afinal estavam por nove dias fora. 
        Uma saudade diferente espetava o coração de Jacobina, era tamanho o desejo da carne que perdeu o senso do perigo: Chico, nome de santo, despojado do mundo, amante do bem! Verso Cornélio, traído e inconveniente, e, por ironia do destino, estava em férias, não arredava o pé, queria gozar tudo que tinha direito. Jacobina num “pé-e-noutro”, procurando espaço para destilar o mel que prometera ao outro.
           Mal pôde esperar o sábado, Jacobina chegou da faculdade mais cedo, mesmo depois da farra com todos os seus colegas de curso, era horário de verão, o dia estava claríssimo. Para o bem da justiça, Cornélio não estava em casa, deu uma saidinha.  Ele sabia a hora que sua amada chegava para recepcioná-la a tempo, mas ela chegou cedo demais, vestiu-se de uma malha colada e uma camiseta bastante cavada, exibindo todas as suas belas formas arredondadas; assim como quem vai fazer “ginástica”. Ligou para o Chico e saíram passeando pelas ruas da pacata Prostilândia.
          Por quatro meses estavam assim, ninguém suspeitava, cobriam-se com um manto de convento. Porém, desta vez foi diferente, Cornélio viu. Mandou a embora de sua casa, por pouco não aconteceu uma tragédia. No entanto, não mediu bravura para romper os seis anos de casamento. Ele era um homem humilde e trabalhador, vinte e dois anos mais velho que ela, mas sua fisionomia não o denunciava, cristão fervoroso e por muitas vezes dizia:
          — Ninguém consegue enganar um homem de Deus por muito tempo.
          É verdade, ele estava com a razão. O destino o ajudou com ideias criativas a seu favor. Agora  precisava provar para a sociedade sua justiça. Então, foi urgentemente à prestadora de serviço telefônico com a ajuda de um detetive e solicitou um extrato de todas as ligações da Jacobina dos últimos trinta dias. Qual não foi sua constatação, ela tinha feito apenas quatro legações para ele, e constavam quarenta e oito para o número ****6126 e mais de dezoito torpedos (SMS) para o mesmo.
          — É!! O amante sempre tem um pouco mais! – dizia Cornélio inconformado.
          Porém, uma semana depois, ele inspirado na leitura da história bíblica, bem sucedida, de Oséia, que comprou de volta sua esposa Gômer depois de abandonado por ela com três filhos pequenos, os quais não eram seus biologicamente. Cornélio foi à luta, como quem não queria perder o pouco que lhe restava, mandou buquês de rosas, mensagens românticas e declarou todo o seu amor incondicional; concedeu-lhe o perdão, mesmo sem ela desejá-lo. Depois de tudo, Ele ainda queria força para continuar lutando, porque a amava de verdade, mas era uma decepção atrás da outra. Perguntava a ela todas às vezes que podia:
          — Você me ama?
          — Eu gosto de você, não sei se te amo!
          Sobretudo, Como resultado das chantagens dele, uma vez e outra, Cornélio se encontrava com Jacobina. O combustivo estava acabando! Porque, sempre nas despedidas tinha que ouvir:
          — Você não pode me beijar assim no meio da rua, estamos separados.
          Era apenas um beijo no rosto, mas não podia! Cornélio não estava lutando com um único adversário, antes e depois do Chico tinham outros, o amante revelado era só para disfarçar. Não tinha futuro promissor, pois tinha apenas o Ensino Fundamental, trabalhava fazendo faxina, porém era calmo e sigiloso, totalmente submisso, mas, também, não era o homem ideal para ela.
          — Então, querem dizer que eu e o Chico somos usados como trampolim para o projeto de vida depravada dela?! Ah, vou dar outro rumo à minha vida, se Deus quiser restaurarei meu lar, e terei parentes ao meu redor, para minha segurança na velhice.
          Depois disso, Cornélio “descobriu o Brasil”, caiu na vadiagem, levou uma vida errante e aplicou toda malandragem que aprendera com a Jacobina, todavia, assim que soube, depois de cinco anos da separação, que sua amada estava, por um acidente de moto, paraplégica, recomeçou a visitá-la no intuito de continuar a conquista. — Um grande amor não morre assim. 
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 25/04/2009
Código do texto: T1558623

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